Sobre vontade e potência

Tenho feito dessa afirmativa, de diferentes formas em diferente contextos, talvez a minha principal “marca” no mundo: faz o que é tua vontade!
O que, num primeiro momento talvez pareça o slogan de um produto do capitalismo, demanda um complexo processo de auto-observação*: o que faz de mim um ser singular e o que se destaca entre meus intentos para que eu venha a fazer (e a ser) isso e não aquilo. E vir a estar/participar deste outro de outro lugar, contexto, encontros…
Repito esse exercício de afirmação em favor da diferença. Pelo que de potente há em cada um, em suas singularidades, e que produza efeitos alegres nos espaços de partilha. Mas sinto que essa questão tende a ser mal compreendida. Talvez isso se dê justo por essa cooptação do capitalismo que transforma até as mais antigas questões filosóficas, e um complexo problema existencial, em comercial de sabonete. Por essa via também se reforça um discurso de liderança, de autonomia, de ser diferente como algo da ordem do especial, belo, espetacular, superador dos limites, vencedor, o cara, a tal, beijinho no ombro de Apolo. Então, quando se coloca a questão “qual sua vontade?”, logo vem um “ser feliz”, “vencer na vida”, e todo um apanhado de modelos.
Voltando à minha contribuição para a questão e trazendo como referência o NECITRA: algumas vezes na repetição (não somente por mim) sobre a importância de entender quais são as vontade de cada um e manifestá-la no mundo e com o mundo (e nesse caso do NECITRA enquanto um lugar específico no mundo) observei que essa demanda por autonomia repercutia como um tensionamento para um “faça você mesmo!”, “seja o líder da sua vida!”, “vá atrás dos seus sonhos!”. Então, hoje, com leituras que abaixo cito e que me trouxeram novamente ao tema, quero destacar, mais uma vez, que não é disso que se trata!
Não é sobre vencer, pois todo caminho leva a lugar nenhum ou, em última instância, à morte. Não se trata de Poder. E para repetir mais um clichê: não é sobre ter, é sobre ser! Então não pode ser sobre poder, e sim sobre potência. Ainda que aumentar meu grau de potência me coloque em determinada condições no jogo de forças (e de poder) nos contextos onde atuo: mas prefiro entender, e propor como um possível entendimento, essa condição não como uma capacidade para dominar, mas para produzir encontros maiores em quantidade e em potência, para aumentar minha produção de efeitos no mundo. Para mover – penso como uma dança: qual música me afeta? Ou o silêncio? Como me movo? Ou prefiro o repouso? Com quem danço? Ou prefiro um solo?
Num coletivo como o NECITRA, onde impera a demanda por autonomia, não se trata de que todos sejam diretores, mas que cada um manifeste suas vontades e se constitua nesse contexto e relações: pode dirigir tanto quanto ser dirigido, quanto produzir, se engajar nas questões técnicas da cena… se todos forem diretores quem serão os dirigidos? Acontece que tem aí uma questão moral, um valor hierárquico…
Essa(s) questão(ões) me (co)movem como artista-pesquisador-educador-etc no mundo. Primeiro pois entendo que a educação tende a proceder por repetições dos padrões, enquanto um inserir o sujeito na sociedade – e em certa medida se sujeitar, portanto. Segundo, pela perspectiva dos discursos sobre a vontade (os hegemônicos) reforçarem o ideal do vencedor, de quem chegou ao topo, está acima, tem e é mais – do atleta no esporte aos heróis do cinema, passando pelo homem sedutor-pegador, pela mulher esbelta e sexy, a criança criativa e alegre, o vovô disposto e bem aposentado, a vovó boa de cozinha e da cuca… e por aí desnudando o machismo e outros ismos dos quais não me sinto apto a tratar (pois estou ainda travando contato com eles na minha própria constituição).
Finalizo esse exercício de pensamento com o disparador dessa escrita, Nietzsche que, quando leio, é como se eu tivesse dizendo aquelas palavras, e fosse mais inteligente do que sou:
Se em tudo que você quiser fazer começar por perguntar: “Quero fazê-lo um número infinito de vezes?”, isso será para você o mais sólido centro de gravidade… Minha doutrina ensina: “Viva de tal modo que você deva desejar reviver, é o dever – pois de todo modo você reviverá. Aquele para quem o esforço é a alegria suprema, que se esforce! Aquele que ama acima de tudo o repouso, que repouse! Aquele que ama acima de tudo se submeter, obedecer e seguir, que obedeça. Mas que saiba onde está sua preferência e não recue diante de nenhum meio. Isso vale a eternidade! … Essa doutrina é doce para com aqueles que não acreditam nela: não tem inferno e nem faz ameaças. Aquele que não tem fé apenas sentirá em si uma vida fugitiva”. **
*o que me leva sempre ao questionamento de se é possível se auto-observar, quando quem seria este que observa e este observado, são dois? sou dois? suponho que sejamos múltiplos… mas quem são esses e qual hierarquia suposta em que um pode observar o outro? E este outro observado sabe que assim o é? E o que me garante que este eu que observa o outro eu tenha determinado atributo analíitico e sensível para chegar a alguma conclusão que possa me levar a algum outro lugar… e qual seria esse outro lugar? há um lugar para chegar? Acredito que não enquanto chegada, mas como passagem… Enfim, faltam alianças teóricas (no caso, estudo) para essa questão dos múltiplos eus…
** Citação feita no por Deleuze no livro Nietzsche a partir de três fragmentos póstumos, da tradução francesa de Vontade de Potência, segundo Roberto Machado no livro Deleuze, a arte e a filosofia, de onde tirei a citação, na p. 97.

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