{"id":15,"date":"2009-08-15T02:10:00","date_gmt":"2009-08-15T02:10:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2016-01-17T20:17:01","modified_gmt":"2016-01-17T20:17:01","slug":"coloquio-dentro-de-um-ser","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/coloquio-dentro-de-um-ser\/","title":{"rendered":"Col\u00f3quio dentro de um ser"},"content":{"rendered":"<div align=\"center\">Mas mudando de assunto, li ontem com Paul Val\u00e9ry, o seguinte di\u00e1logo, que me apetece acrescentar aqui. Momentos passados, passando, repassando. Escolhas que temos que assumir, outras ainda por vir. Me tocou tal di\u00e1logo, pelo momento em que passo, e tamb\u00e9m passam outros por momentos parecidos, pelo que sei das conversar perdidas pela rua.<\/div>\n<div align=\"center\">Esse di\u00e1logo se chama Col\u00f3quio dentro de um ser.<\/p>\n<p>A<br \/>&#8211; Chora, mas vive! Sai do estado de larva. Desembara\u00e7a-me dessa miser\u00e1vel mistura de sensa\u00e7\u00f5es equivalentes, de lembran\u00e7as sem serventia, de sonhos sem lastro, de previs\u00f5es sem consist\u00eancia&#8230; Chama \u00e0 ordem, re\u00fane todas essas pequenas for\u00e7as n\u00e3o-orientadas que se dispersam em tua fadiga. Tua Fraqueza nada mais \u00e9 que a confus\u00e3o de todas elas. Vamos, separa-me todas essas esp\u00e9cies: junta tuas energias de mesma natureza; n\u00e3o mistura mais o verdadeiro com o falso; cada um deve servir em seu momento! Organiza as diversas partes do tempo complexo, que te permitem fazer aquilo que n\u00e3o \u00e9 agir sobre o que \u00e9, e o que \u00e9 sobre o que n\u00e3o \u00e9&#8230; Comanda bem tuas pernas e teus bra\u00e7os, e sente teu poder at\u00e9 as extremidades de teu imp\u00e9rio sobre esses membros. Apropria-te de teu olhar, e faze o espa\u00e7o, em vez de sofrer todos os acidentes da extens\u00e3o colorida&#8230; Desenha pois, de teu olhar em movimento, a figura n\u00edtida dos objetos. Assegura-te tamb\u00e9m de tua pot\u00eancia interior. Exige, exerce, excita a liberdade geral dos termos e das formas de tua linguagem; desperta os mecanismos de combina\u00e7\u00e3o, de transposi\u00e7\u00e3o, de articula\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias e de distin\u00e7\u00e3o dos conceitos&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>B<br \/>&#8211; E ent\u00e3o&#8230; farei o que \u00e9 preciso. Sinto em mim de repente uma extraordin\u00e1ria energia. Vejo-me carregado de vida e quase embara\u00e7ado por uma liberdade de pensar e de agir que me invade, como que fortemente excitada pela imin\u00eancia das dificuldades e dos aborrecimentos que h\u00e1 pouco me abatiam a alma.<\/div>\n<div align=\"center\">A<br \/>&#8211; Aten\u00e7\u00e3o! Fico encantado de te ver t\u00e3o diferente daquele que com tantos esfor\u00e7os arranquei do estado de vida confusa. Aprecio verdadeiramente tua metamorfose. Nada eras, e far\u00e1s tudo! Mas toma cuidado&#8230; N\u00e3o abusa desse vigor. A noite existe. Sempre vem.<\/div>\n<div align=\"center\">B<br \/>&#8211; Cr\u00eas que minha lucidez n\u00e3o a veja aproximar-se? Cr\u00eas que n\u00e3o pensa em seu pr\u00f3prio crep\u00fasculo \u2013 e mesmo que n\u00e3o o admire? N\u00e3o \u00e9 uma suprema maravilha pensar que possu\u00edmos em n\u00f3s aquilo que nos faz desaparecer \u2013 enquanto que todas as coisas, como que capturtadas, o que quer que sejam , numa \u00fanica e mesma rede que a arrasta insensivelmente rumo a sombra \u2013 as pessoas, os pensamentos, os desejos, os valores, os bens e os males, e meu corpo e os deuses, se retiram, se dissolvem, se aniquilam, se obscurecem juntos?&#8230; Nada aconteceu. Tudo se apaga ao mesmo tempo. \u00c9 bonito? Quando o navio afunda, o c\u00e9u desmaia e o mar evapora&#8230;<br \/>Mas por enquanto, amigo, olha como este punho \u00e9 firme. Bate na mesa. A mesa for\u00e7a est\u00e1 em meu cora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 maci\u00e7o como ele, bate em cheio o tempo de meu poder! Eu sou medida e desmedia, rigor e ternura, desejo e desd\u00e9m: eu me consumo e me acumulo: eu me amo e me odeio, e sinto-me, da testa a ponta dos p\u00e9s, aceitando-me tal como sou, como eu for, respondendo com todo o meu ser \u00e0 quest\u00e3o mais simples do mundo: <em>que pode um homem<\/em>?<\/div>\n<div align=\"center\">\n<p>Depois disto, sem mais o que escrever.<\/p>\n<p>Paul Val\u00e9ry. A Alma e a Dan\u00e7a e outros di\u00e1logos. Rio de Janeiro: Imago Ed. 2005.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mas mudando de assunto, li ontem com Paul Val\u00e9ry, o seguinte di\u00e1logo, que me apetece acrescentar aqui. Momentos passados, passando, repassando. 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