{"id":32,"date":"2009-05-23T04:25:00","date_gmt":"2009-05-23T04:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/2009\/05\/23\/lacos\/"},"modified":"2009-05-23T04:25:00","modified_gmt":"2009-05-23T04:25:00","slug":"lacos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/lacos\/","title":{"rendered":"La\u00e7os"},"content":{"rendered":"<p>Da forma l\u00edquida, fugidia da vida contempor\u00e2nea, restam os la\u00e7os para nos oferecer seguran\u00e7a e conforto.  Um porto, ou uma \u00e2ncora, um recurso regulador dos fatos, um outro para se ver, para espelhar. Um outro para ver, e para ser visto.  Para provir certezas: como estar certo na solid\u00e3o? Como saber de onde surgem nossos pensamentos, se s\u00e3o produzidos com certificados de bom senso e realismo? Delegar-nos \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o de outrem, e neste ver a si, enquanto ser humano, errante, normal, emissor de ju\u00edzos e opini\u00f5es mais ou menos corretos. J\u00e1 n\u00e3o se casa mais por obriga\u00e7\u00e3o, ou se namora por quest\u00f5es de visibilidade ante a sociedade. Os relacionamentos cristalizados por vig\u00eancia social est\u00e3o desaparecendo. Eis que insurge outra necessidade: numa sociedade ef\u00eamera, se encontra nos relacionamentos a perenidade. Uma forma de contrato: voc\u00ea diz quem eu sou, que eu digo quem voc\u00ea \u00e9, e juntos, somos.<\/p>\n<p><em>O que est\u00e1 em jogo hoje \u00e9 uma demanda do amor, de sentimento, de paix\u00e3o, numa \u00e9poca em que a necessidade se faz cruelmente mais intensa. \u00c9 toda a gera\u00e7\u00e3o que passou pela libera\u00e7\u00e3o do desejo e do prazer, \u00e9 essa gera\u00e7\u00e3o cansada de sexo que reinventa o amor como suplemento afetivo ou passional. 1<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 duas grandes linhas, blocos, m\u00faltiplas linhas, a que se predisp\u00f5e esta analise: a dos relacionamentos como um pacto sedutor, uma troca potencializadora, um bocado de terra, para ter o que desterritorializar ante \u00e0 emerg\u00eancia l\u00edquida da vida contempor\u00e2nea. Noutro bloco: um peda\u00e7o de humano \u00e0 que se agarrar, um foco para dirigir seus olhares e pensamentos, sua aten\u00e7\u00e3o e dedica\u00e7\u00e3o, suas virtudes e seu lado mais sombrio, seu ser que \u00e9 e que se oferece ao outro e busca no outro a rec\u00edproca.<\/p>\n<p>Num bloco, o encontro, a pot\u00eancia, o grau zero do relacionamento. Longe dos clich\u00eas, das predisposi\u00e7\u00f5es e pr\u00e9-conceitos: a multiplicidade, o devir. Algo dif\u00edcil de se produzir numa sociedade que traz os resqu\u00edcios morais dos mais variados, por uma lado, e a necessidade de apego, dos mais variados, por outro. A\u00ed insurge o segundo bloco. Noutro extremo.<\/p>\n<p>Outras linhas de a\u00e7\u00e3o. Recusar a transfer\u00eancia das decis\u00f5es de um lado ao outro. Recusar a seguran\u00e7a, ao espelho. Recusar ao outro. Recusar \u00e0 visibilidade. Aceitar a possibilidade de desaparecer, da transpar\u00eancia de si. Buscar no sil\u00eancio, na solid\u00e3o, a fortifica\u00e7\u00e3o, a auto constru\u00e7\u00e3o no dia-a-dia. Se trata de um ato de coragem, de aceita\u00e7\u00e3o. Entregar-se a incerteza da vida, que n\u00e3o \u00e9 po\u00e9tica, ou transcendente, mas imanente. Prender a respira\u00e7\u00e3o e mergulhar: ou se afoga, ou adapta-se ao meio l\u00edquido, como o personagem do filme Waterworld &#8211; O segredo das \u00e1guas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma vida de solid\u00e3o. Mesmo que exista esta possibilidade. Mas \u00e9 talvez na solid\u00e3o que se pode se entregar a multiplicidade da vida, tornando-a mais percept\u00edvel, agu\u00e7ando os sentidos, exercitando pensamentos. Depois disso, qualquer relacionamento pode ser potencializador. Pois h\u00e1 em si a pot\u00eancia e a abertura perceptiva e receptiva \u00e0 pot\u00eancia do outro: quer seja pessoa, objeto, ou acontecimento.<\/p>\n<p>   1   Jean Baudrillard. As estrat\u00e9gias Fatais. Rocco: Rio de Janeiro, 1996.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da forma l\u00edquida, fugidia da vida contempor\u00e2nea, restam os la\u00e7os para nos oferecer seguran\u00e7a e conforto. Um porto, ou uma \u00e2ncora, um recurso regulador dos fatos, um outro para se ver, para espelhar. Um outro para ver, e para ser visto. Para provir certezas: como estar certo na solid\u00e3o? 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