{"id":33,"date":"2009-04-28T04:21:00","date_gmt":"2009-04-28T04:21:00","guid":{"rendered":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/2009\/04\/28\/filosofia\/"},"modified":"2009-04-28T04:21:00","modified_gmt":"2009-04-28T04:21:00","slug":"filosofia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/filosofia\/","title":{"rendered":"filoSOFIA"},"content":{"rendered":"<p>Manuel, o de barro, nasceu com um ermo dentro do olho, eu nasci com um defeito de l\u00f3gica dentro da cabe\u00e7a, bem l\u00e1 onde se juntam as palavras. Manuel, por motivo do ermo, n\u00e3o foi um menino peralta. Eu, por motivo de il\u00f3gica, n\u00e3o sou bom em obviedades.<\/p>\n<p>Foi Manuel quem me explicou que as palavras possuem no corpo muitas oralidade remontadas e muitas signific\u00e2ncias remontadas. N\u00e3o sou bom em ouvir essas oralidades. Ao menos n\u00e3o as \u00f3bvias. Tamb\u00e9m n\u00e3o tenho boa mem\u00f3ria espec\u00edfica. Mas tenho boa mem\u00f3ria inespec\u00edfica: lembro que num sucessivo fatoar dos fatos, tenho percebido que, principalmente devido ao dizer dos outros, me dou por conta que a palavra aquela, \u00e9 a mesma dessa: mesmas letras, formas. Intrigantemente, a mim, nunca foram.<\/p>\n<p>Estou confusando os escritos. Vou aqui esparramar peda\u00e7os dum fato desses, que por ter sido em ato ontem, em mem\u00f3ria hoje ainda \u00e9. \u00c9 de comum prov\u00e1vel conhecimento da maioria o livro O mundo de Sofia. Bom livro por sinal: li ele uma vezes e um quarto. O um quarto foi na cadeira de filosofia. Me apeteceu saber que Sofia \u00e9 conhecimento. Est\u00e1 palavra \u00e9 aquela, mas n\u00e3o \u00e9 mais \u00e9 ela. Sabendo que o livro \u00e9 um romance sobre a hist\u00f3ria da filosofia, me parece um nome adequado. Agora a verifica\u00e7\u00e3o da minha il\u00f3gica: fazem quatro anos que li este livro, j\u00e1 emprestei para meus dois irm\u00e3o mais novos, agora emprestei para o terceiro mais novo, e mais velho dentre eles, mas mais novo do que eu, que sou o mais velho dos quatro. Ontem, somente ontem, percebi: a Sofia do livro, aquela cujo o nome significa conhecimento, \u00e9 o sufixo da palavra filosofia. filoSOFIA! Fiquei escabrado!<\/p>\n<p>Nas palavras do meu irm\u00e3o pude ouvir. Mas somente num segundo momento, quando ele me explicou. Nunca, nesses mais de quatro anos, nas mais de trezentas p\u00e1ginas e um quarto, havia me apercebido disto! Se me falta um parafuso, como a muito desconfio, ele caiu dessa m\u00e1quina a\u00ed de juntar palavras.<\/p>\n<p>No entanto, tanto mal sou em juntar palavras, quanto menos mal sou em rodear com elas. Pois me parece que a palavra \u00e9 pict\u00f3rica, imag\u00e9tica, perform\u00e1tica. Ao menos na minha cachola. Pois quando leio Sofia, leio a imagem da menina que recebia cartas de um estranho e a lia sob uma sebe, se n\u00e3o me engana a mem\u00f3ria falha. Como imageticar a Sofia, menina bonita, correndo por sobre uma folha branca ao encontro de Filo, simp\u00e1tico mo\u00e7o, se unindo num caloroso abra\u00e7o. Sofiafilo!<\/p>\n<p>A palavra sonha, disse-me uma amiga (acho que foi Bachelard que contou para ela). Da materialidade da palavra em si voam p\u00e1ssaros, dan\u00e7am bailarinas. Se torc\u00ea-la bem, pode escorrer \u00e1gua, vinho, ou at\u00e9 xixi. Se larg\u00e1-la no ch\u00e3o pode quebrar, ou quicar. Se jogar para cima pode ser um foguete, ou um acrobata. E na queda, se n\u00e3o pegar pode ser um machucado, se pegar, um malabarista.<\/p>\n<p>Sei n\u00e3o, il\u00f3gica de nascen\u00e7a pode n\u00e3o ter cura. Mas a l\u00f3gica com o seu prefixo l\u00f3, o mesmo de l\u00f3bulo e p\u00e3o-de-l\u00f3, seu meiofixo gi, usado tamb\u00e9m em gengiva, mais seu sufixo ca, de careca, pode \u00e9 render um defeito de vis\u00e3o. Vis\u00e3o: palavra formada pelo prefixo <em>vi<\/em>, nenhum meiofixo, mais o sufixo <em>s\u00e3o<\/em>, os mesmo usados na nem tanto conhecida prerrogativa: vi, logo s\u00e3o!<\/p>\n<p>Creio que esse defeito \u00e9 o grande mal da contemporaneidade. Mas poucos percebem a\u00ed um defeito. Ao contr\u00e1rio, antes uma qualidade, antes uma necessidade. H\u00e1 a tend\u00eancia de se ter bons olhos que funcionam mais ou menos assim: duas bolinhas de vidro, pintadas intra-uterinamente, que cont\u00e9m ao lado de dentro um s\u00e3o pra cada coisa do lado de fora. Desta forma n\u00e3o precisa o ser preocupar-se em demasia com pensamentos: o olho v\u00ea, e por um sistema apurado de refra\u00e7\u00e3o auto-invertida transversalmente, aloja a imagem no seu respectivo <em>s\u00e3o<\/em>, logo essa individualidade \u00e9 repassada ao c\u00e9rebro por um processo de osmose \u00f3culo-cerebral. Todo esse processo ocorre, como se pode perceber, num infinit\u00e9simo de mil\u00e9simo de segundo. Esse processo, denominado de vis\u00e3o <em>L\u00f3gico-s\u00e3os\u00edstica<\/em>, \u00e9 tamb\u00e9m conhecido pela neurologia como <em>Engrama<\/em>.<\/p>\n<p>As bolinhas nascem com a cabe\u00e7a, que vem junto com todos os acess\u00f3rios: o corpo. Mas esta defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 o primordial e o que \u00e9 secund\u00e1rio, n\u00e3o nasce junto ao nascer, vem depois, dentro deste processo de aquisi\u00e7\u00e3o dos s\u00e3os, que se d\u00e1 ao longo da vida, arbitrariamente. Mas existem vari\u00e1veis. As mais comuns s\u00e3o pessoas que tem um problema no mecanismo de refra\u00e7\u00e3o auto-invertida transversalmente e por isso confundem as coisas. Outras, por influ\u00eancias diversas, adquirem n\u00e3o um <em>s\u00e3o<\/em>, mas um <em>parece<\/em>, ou ainda um <em>o que \u00e9 isso?.<\/em> Ademais, em casos mais raros, o indiv\u00edduo n\u00e3o desenvolve esse mecanismo. Desconfio que seja esse o caso de Manoel, que afirma: tudo o que n\u00e3o invento \u00e9 falso.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m estudos que buscam formas de inverter este processo l\u00f3gico-s\u00e3os\u00edstico. Eles se desmembram em dois seguimentos de estudos, um no campo do esquecimento, outro no campo da arte.<\/p>\n<p>J\u00e1 eu, que n\u00e3o sou cientista, nem l\u00f3gico, e nem me preocupo tanto com esse meu defeito de nascen\u00e7a, estou por a\u00ed a ser. Mas que coisa sou? Pergunte a algu\u00e9m com a vis\u00e3o l\u00f3gico-s\u00e3os\u00edstica, pois eu estarei ocupado, encontrando Manuel no meio das palavras, escovando-as, trangalhadan\u00e7as que sou, feliz de boca larga e dente de feij\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel, o de barro, nasceu com um ermo dentro do olho, eu nasci com um defeito de l\u00f3gica dentro da cabe\u00e7a, bem l\u00e1 onde se juntam as palavras. Manuel, por motivo do ermo, n\u00e3o foi um menino peralta. Eu, por motivo de il\u00f3gica, n\u00e3o sou bom em obviedades. 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