{"id":35,"date":"2009-04-18T03:12:00","date_gmt":"2009-04-18T03:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/2009\/04\/18\/pedacinhos-de-ouro\/"},"modified":"2009-04-18T03:12:00","modified_gmt":"2009-04-18T03:12:00","slug":"pedacinhos-de-ouro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/pedacinhos-de-ouro\/","title":{"rendered":"Pedacinhos de ouro?"},"content":{"rendered":"<p>Se o momento n\u00e3o \u00e9 dos mais frut\u00edferos em termos de pr\u00e1ticas de escrita, gosto de pensar que \u00e9 porque estou a plantar, e a colheita ser\u00e1 farta. Um pequeno exagero, pois certamente n\u00e3o \u00e9 nessa l\u00f3gica de causa e efeito, somando-se migalhas, para fazer um p\u00e3o, que as coisas do mundo s\u00e3o feitas. De qualquer forma h\u00e1 de se considerar que a escrita \u00e9 irrealiz\u00e1vel sem a leitura. Que seja, no m\u00ednimo, no reler-se. Mas bons textos s\u00e3o fruto do tempo. Tempo como um espa\u00e7o preenchido com leituras e pensamentos e escrituras. Espa\u00e7os refeitos passo-a-passo, no tornar-se tempo. No espa\u00e7o-tempo onde me encontro agora (este agora tempo-escrita, deste fazer, que logo p\u00f3s-feito \u00e9 texto, texto que se faz outro no momento em que \u00e9 lido, embora seja o mesmo enquanto agrupamento de s\u00edmbolos, mas que pode sugerir a quem l\u00ea, que o que eu lia no agora, que agora n\u00e3o mais agora \u00e9, j\u00e1 n\u00e3o estar\u00e1 mais sendo lido por mim, mas t\u00e3o pouco isso importa), est\u00e1 co-habitado por Baudrillard, Ferreira Gullar, Manuel de Barros e Saramago. Deste \u00faltimo trago boas sensa\u00e7\u00f5es minhas do encontro com um texto. De um fragmento dele. Corro o risco delas n\u00e3o irem junto com o fragmento que envio logo abaixo, ou por soltura no momento do transporte, ou por incompatibilidade sensitiva entre diferentes leitores. Mas o que posso eu com as intemp\u00e9ries da vida? Mesmo que: querer \u00e9 poder! Como tamb\u00e9m quem planta colhe&#8230;<\/p>\n<p><em>Autorit\u00e1rias, paralisadoras, circulares, \u00e0s vezes el\u00edpticas, as frases de efeito, tamb\u00e9m jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, s\u00e3o uma praga maligna, das piores que t\u00eam assolado o mundo. Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo n\u00e3o fosse a quinta e mais dificultosa opera\u00e7\u00e3o das aritm\u00e9ticas humanas, dizemos aos ab\u00falicos, Querer \u00e9 poder, como se as realidades bestiais do mundo n\u00e3o se divertissem a inverter todos os dias a posi\u00e7\u00e3o relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Come\u00e7ar pelo princ\u00edpio, como se esse princ\u00edpio fosse a ponta sempre vis\u00edvel de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando at\u00e9 chegarmos \u00e0 outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tiv\u00e9ssemos tido nas m\u00e3os uma linha lisa e cont\u00ednua em que n\u00e3o havia sido preciso desfazer n\u00f3s nem desenredar estrangulamentos, coisa imposs\u00edvel de acontecer na vida dos novelos e, se uma outra frase de efeito \u00e9 permitida, nos novelos da vida.#<br \/><\/em><br \/># Saramago. A Caverna. Editora Companhia das letras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se o momento n\u00e3o \u00e9 dos mais frut\u00edferos em termos de pr\u00e1ticas de escrita, gosto de pensar que \u00e9 porque estou a plantar, e a colheita ser\u00e1 farta. Um pequeno exagero, pois certamente n\u00e3o \u00e9 nessa l\u00f3gica de causa e efeito, somando-se migalhas, para fazer um p\u00e3o, que as coisas do mundo s\u00e3o feitas. 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