{"id":40,"date":"2009-03-16T03:30:00","date_gmt":"2009-03-16T03:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/2009\/03\/16\/a-critica-mais-uma-vez\/"},"modified":"2009-03-16T03:30:00","modified_gmt":"2009-03-16T03:30:00","slug":"a-critica-mais-uma-vez","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/a-critica-mais-uma-vez\/","title":{"rendered":"A cr\u00edtica, mais uma vez"},"content":{"rendered":"<p>Ontem assisti a um espet\u00e1culo de dan\u00e7a. Entrei num processo interno depois dele, aquela atitude auto-reguladora: dizer que n\u00e3o gostei, um espet\u00e1culo no Teatro S\u00e3o Pedro, lotado, com uma divulga\u00e7\u00e3o que poucos espet\u00e1culos podem girar? Pois \u00e9 um espet\u00e1culo de dan\u00e7a contempor\u00e2nea, e talvez eu estaria assim assinando meu atestado de insens\u00edvel e\/ou desentendido no assunto.<br \/>E de fato me parece que h\u00e1 entre as pessoas, em sua maioria, um enrola-enrola pra n\u00e3o afirmar que n\u00e3o gostou, ou que n\u00e3o entendeu (mesmo que nem sempre tenha algo pra entender nesse contexto). Mas a sensa\u00e7\u00e3o de vazio quando se sai do espet\u00e1culo n\u00e3o \u00e9 um bom sinal. H\u00e1 n\u00e3o ser que seja um vazio daqueles que se tem quando se perde o ch\u00e3o, o c\u00e9u, uma grande luz ofusca seus olhos, ou adentra na mais profunda escurid\u00e3o, e n\u00e3o sabe mais o que sabe. Mas vazios como esse s\u00e3o raros.<br \/>A primeira sensa\u00e7\u00e3o que faz ser \u201cbom\u201d um espet\u00e1culo penso que \u00e9, justamente, o quanto ele te faz sentir. Para al\u00e9m desta sensa\u00e7\u00e3o de vazio. Pode ser algo como a frui\u00e7\u00e3o  em uma est\u00e9tica interessante, entre cenografia e movimentos, ou participar de alguma cr\u00edtica, trazer para a dan\u00e7a um questionamento, uma reflex\u00e3o. Foi este \u00faltimo a inten\u00e7\u00e3o (ou a \u00eanfase) do espet\u00e1culo que assisti. E certamente ele alcan\u00e7ou tal objetivo. Mas me parece que para questionar basta colocar em quest\u00e3o, ou perguntar. E a cr\u00edtica pode ser no sentido -de senso comum- de apontar os defeitos de um processo. Uma cr\u00edtica que coloque em crise (leia pelos textos passados aqui cita\u00e7\u00e3o de Barthes) \u00e9 uma outra hist\u00f3ria.<br \/> Trata-se do espet\u00e1culo \u201cGeraldas e Avencas\u201d. Este se prop\u00f5e a fazer uma cr\u00edtica \u00e0s padroniza\u00e7\u00f5es em que o corpo \u00e9 inserido. Coisa que est\u00e1 escrita no convite e de forma expl\u00edcita no espet\u00e1culo. De minha poltrona, e nos passos que se seguiram at\u00e9 minha casa, pensei algumas coisas:<br \/>&#8211; O assunto \u00e9 batido. H\u00e1 de ser fazer um esfor\u00e7o, neste casos, para n\u00e3o cair nos clich\u00eas pr\u00f3prios desses assuntos. Diria at\u00e9 que s\u00e3o em si assuntos clich\u00eas.<br \/> &#8211; Partindo deste princ\u00edpio, fiquei incomodado quando os dan\u00e7arinos entraram em cena com bal\u00f5es representando peitos siliconados e m\u00fasculos bombados. Pois neste tema clich\u00ea, este \u00e9 o clich\u00ea dos clich\u00eas. Mais um: espelhos c\u00f4ncavos e convexos distorcendo a imagem corporal: n\u00e3o preciso me repetir.<br \/>&#8211; Proje\u00e7\u00f5es ao fundo (grandes, em toda a parede) que pouco se relacionavam com os dan\u00e7arinos e mais com a dan\u00e7a, como representa\u00e7\u00e3o, reafirmando o que ali estava um tanto afirmado. Ainda assim pouco elaboradas. Ali\u00e1s, a falta de apropria\u00e7\u00e3o dos recursos de cena me incomodaram: do espelho somente um dan\u00e7arino vi se olhar e de uma barra ao fundo, somente um dan\u00e7arino veio a toc\u00e1-la, sentando: para mim o \u00e1pice do espet\u00e1culo: gostei da utiliza\u00e7\u00e3o do recurso.<br \/>&#8211; Outra coisa s\u00e3o os movimentos quase sempre \u201cfluidos\u201d que me pareceram fracos em inten\u00e7\u00e3o, ou em intensidade.<br \/>&#8211; Gostei da dan\u00e7a circular no final, do som dos p\u00e9s no ch\u00e3o. Gostei da trilha: Zeca Baleiro \u00e9 bom demais.<br \/>O que mais senti falta foi de recursos mais elaborados para uma cr\u00edtica de um tema t\u00e3o amplo e m\u00faltiplo. Claro que quem escreve aqui \u00e9 uma pessoa com suas limita\u00e7\u00f5es confessas acerca de repert\u00f3rio de espet\u00e1culos de dan\u00e7a assistidos. Mas o fato \u00e9 que o tema \u00e9 para mim essencial como artista e educador, e talvez por isso esperava bem mais.<br \/>Concretizo aqui mais uma tentativa de cr\u00edtica (que \u00e9 ativa em mim) com rela\u00e7\u00e3o ao que se faz quando pensa e se tenta uma cr\u00edtica. E creio que esta \u00e9 parte indivis\u00edvel n\u00e3o somente do artista e do educador, mas de quem vive. Por\u00e9m, o artista, enquanto, multiplicador, enquanto provocador, deve lan\u00e7ar m\u00e3o de seus recursos est\u00e9ticos para disparar no p\u00fablico sensa\u00e7\u00f5es, coloc\u00e1-lo de fato em crise com o seu eu de at\u00e9 ent\u00e3o, de at\u00e9 h\u00e1 pouco, de antes de se encontrar com a obra. <br \/>Claro que como p\u00fablico sou um de muitos que assistiram ao espet\u00e1culo. E \u00e9 pressuposto de qualquer arte, qualquer proposta que se pretenda mostrar, que alguns gostar\u00e3o e outros n\u00e3o. Uns mais outros menos. E tamb\u00e9m que de quem escreve sobre ele tenha certo valor agregado e repercuss\u00e3o. Trabalho dos cr\u00edticos de arte. N\u00e3o \u00e9 meu caso, certamente. Por isso hesitei um pouco quanto a esta postagem. Mas conclui que ela est\u00e1 de acordo com a proposta do blog que s\u00e3o as coisas que circundam, e o que se faz com ela. E pelas minhas desqualifica\u00e7\u00e3o como cr\u00edtico de arte, certamente ela ter\u00e1 pouca repercuss\u00e3o. \u00c9 aqui mais um exerc\u00edcio de escritura.<br \/>Foucault: <em>ningu\u00e9m entra na ordem do discurso se n\u00e3o satisfazer a certas exig\u00eancias ou se n\u00e3o for, de in\u00edcio, qualificado para faz\u00ea-lo.<\/em>(A Ordem do Discurso, p. 37).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem assisti a um espet\u00e1culo de dan\u00e7a. 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