{"id":45,"date":"2009-03-10T03:34:00","date_gmt":"2009-03-10T03:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/2009\/03\/10\/circo-critico\/"},"modified":"2009-03-10T03:34:00","modified_gmt":"2009-03-10T03:34:00","slug":"circo-critico","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/circo-critico\/","title":{"rendered":"Circo cr\u00edtico?"},"content":{"rendered":"<p><em>Valorizar o trabalho do artista enquanto processo intelectual e n\u00e3o enquanto produtor de objetos para a contempla\u00e7\u00e3o e deleite de alguns.1<\/em><\/p>\n<p>Pensei, a partir desta frase, publicada em 1974, num artigo de autoria de Ronaldo Brito, cr\u00edtico de arte, na quest\u00e3o dos artistas e da arte circense neste contexto. Neste artigo, Brito discute acerca da arte conceitual: <em>&#8230;uma tend\u00eancia ampla e internacional que come\u00e7ou mais ou menos com a d\u00e9cada de 70 &#8211; representa sem d\u00favida um movimento importante: pela primeira vez um movimento se prop\u00f4s discutir n\u00e3o apenas o objeto da arte em si mas a pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o da arte e do artista na sociedade.<\/em><br \/>N\u00e3o posso fazer da minha an\u00e1lise um questionamento que abrange toda a arte circense, mas sim dentro dos espa\u00e7os de onde surge a minha experi\u00eancia e das pesquisas que tenho feito a cerca desta arte, onde me incluo. Acontece que da\u00ed j\u00e1 surge um problema, que se soma aos outros, e me fazem questionar a arte circense enquanto processo intelectual: pouco se encontra de bibliografia e n\u00e3o h\u00e1 muita discuss\u00e3o neste aspecto na internet (fa\u00e7o esta afirma\u00e7\u00e3o com receio, pois n\u00e3o tenho pesquisado tanto quanto gostaria, mas \u00e9 fato que se tratando de artes c\u00eanicas, a dan\u00e7a e o teatro tem publica\u00e7\u00f5es bem mais f\u00e1ceis de se encontrar).<br \/>Acredito que est\u00e1 condi\u00e7\u00e3o atual se torna mais clara \u00e0 medida que se estuda a hist\u00f3ria do circo, das fam\u00edlias circenses, de como se formou este grande espet\u00e1culo. E n\u00e3o h\u00e1 aqui em minha problematiza\u00e7\u00e3o uma quest\u00e3o de hierarquia, n\u00e3o se trata de ter que se ser intelectual para ter mais valor. Tem grandes m\u00e9ritos o circo tradicional, e um deles \u00e9 o alcance que teve, e ainda tem, em termos de democratiza\u00e7\u00e3o e contato com o p\u00fablico. Coisa que n\u00e3o se pode afirmar da arte conceitual.<br \/>Contudo, desejo restringir est\u00e1 discuss\u00e3o no seguinte emolduramento: o que faz desta arte os que se dizem do Circo Contempor\u00e2neo? E n\u00e3o me aventuro agora na quest\u00e3o de conceituar e discutir o que se trata esse tal circo, mas me basta aqui sugerir que s\u00e3o artistas que surgem na nossa \u00e9poca e que conheceram o circo das mais diversas formas, que n\u00e3o a partir de sua fam\u00edlia, sob a lona.<br \/>Circundando em torno da quest\u00e3o do circo contempor\u00e2neo, questiono as possibilidades deste fazer art\u00edstico circense que n\u00e3o se fa\u00e7a apenas no fazer, mas que se ponha a pensar. Pois, a medida que somos de outro contexto hist\u00f3rico e social, podemos (prendi meu \u00edmpeto de escrever \u201cdevemos\u201d) nos apropriar deste e pensar a arte circense n\u00e3o apenas como entretenimento, mas tamb\u00e9m como uma arte cr\u00edtica.<br \/>E para delinear melhor a quest\u00e3o, coloco aqui a minha no\u00e7\u00e3o de arte cr\u00edtica, me dita por Barthes: <em>a arte cr\u00edtica \u00e9 aquela que abre uma crise: que rasga, que faz rachaduras na cobertura, fissura a crosta das linguagens, desliga e dilui o ligamento da logosfera; \u00e9 uma arte \u00e9pica: que torna descont\u00ednuos os tecidos de palavras, afasta a representa\u00e7\u00e3o sem anul\u00e1-la.2<\/em><br \/>Talvez a principal dificuldade de alcan\u00e7ar esta proposta se d\u00ea no fato dos circenses estarem um tanto presos \u00e0 virtuosidade. Se gasta toda a energia, ou boa parte dela, na busca do mais dif\u00edcil, do mais impressionante: um mortal a mais, uma bola a mais, uma pirueta a mais. Quase sempre o mais. Quando as vezes pode ser interessante o menos (relendo o texto lembrei dos palha\u00e7os, que certamente constituem uma quest\u00e3o a parte, n\u00e3o se incluindo aqui). N\u00e3o que isso n\u00e3o ponha o outro (espectador, ou mesmo um colega) em crise, mas ela vai acontecer se o outro perceber o quanto seu corpo poderia fazer, se outro corpo faz, mas n\u00e3o o faz porque n\u00e3o treinou, n\u00e3o seguiu este caminho, ou tem outra profiss\u00e3o, esta fora do peso, etc. Provavelmente uma pequena crise.<br \/>Acontece que temos nas m\u00e3os, ou mais precisamente em nossos corpos, muitas cr\u00edticas em potencial. Pois, a medida em que vivemos numa maquinaria social onde apreendemos e somos apreendidos, tomamos formas que nos fazem ser quem somos. Temos, no entanto uma pot\u00eancia que n\u00e3o circula, ou que as poucos se diminui, num corpo que se desfaz na l\u00f3gica do consumo, do utilitarismo, numa economia dos corpos: num menor gesto, uma maior produ\u00e7\u00e3o (Foucault, se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria). Sendo que assim, quem mais sofre \u00e9 o corpo, que \u00e9 este sujeito, ou est\u00e1 individualidade, eu e voc\u00ea. E quem melhor que os circenses para levar o corpo para outras possibilidades? Mas isso \u00e9 texto para outros textos.<br \/>Penso que o mais justo \u00e9 se pensar em um circo contempor\u00e2neo, com iniciais min\u00fasculas, porque ainda vejo ele, salvo algumas exce\u00e7\u00f5es, como um circo que \u00e9 do nosso tempo, mas n\u00e3o difere muito do circo tradicional no seu fazer a ponto de necessitar de um novo nome. Pois mesmo que se apresente em outros espa\u00e7os, com outras propostas no figurinos e mesmo no dito circo-teatro, o que prevalece s\u00e3o as mostras de n\u00fameros nos passos da virtuosidade: <em>enquanto produtor de objetos para a contempla\u00e7\u00e3o e deleite de alguns.<br \/><\/em>E se a arte circense se apropriar desta possibilidade cr\u00edtica e conceitual, n\u00e3o como parte casual do processo de cria\u00e7\u00e3o, mas sim com pr\u00e9-texto, como inicio do processo? N\u00e3o que tenha que se perder o que se tem, ou n\u00e3o se possa trabalhar com uma proposta, diria (com receio novamente), mais tradicional. N\u00e3o estou propondo a troca de uma por outra, mas a cria\u00e7\u00e3o de outros territ\u00f3rios: a multiplicidade de territ\u00f3rios. Fugir da simples repeti\u00e7\u00e3o.<br \/>Por\u00e9m, essa outra vertente pode ser um pouco mais trabalhosa, e \u00e9 necess\u00e1rio estar um pouco mais aberto. Assim como \u00e9 necess\u00e1rio criar um espa\u00e7o de pesquisa, de estudo, com seus devidos tempos. Sob o risco de se fazer o tradicional, com um nome novo.<\/p>\n<p>1 Ronaldo Brito. Experi\u00eancia Cr\u00edtica. Editora Cosacnaify.<br \/>2 Roland Barthes. Escritos sobre teatro. Editora Martins Fontes:S\u00e3o Paulo, 2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Valorizar o trabalho do artista enquanto processo intelectual e n\u00e3o enquanto produtor de objetos para a contempla\u00e7\u00e3o e deleite de alguns.1 Pensei, a partir desta frase, publicada em 1974, num artigo de autoria de Ronaldo Brito, cr\u00edtico de arte, na quest\u00e3o dos artistas e da arte circense neste contexto. 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