{"id":46,"date":"2009-03-10T03:29:00","date_gmt":"2009-03-10T03:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/2009\/03\/10\/pelo-menos-o-chip\/"},"modified":"2009-03-10T03:29:00","modified_gmt":"2009-03-10T03:29:00","slug":"pelo-menos-o-chip","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/pelo-menos-o-chip\/","title":{"rendered":"Pelo menos o chip."},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\"><span style=\"font-family:arial;\">Tem coisas nessa vida que s\u00e3o inevit\u00e1veis, outras quase. De inevit\u00e1vel mesmo talvez somente a morte. H\u00e1 pouco fui assaltado, coisa de uma hora atr\u00e1s. Virei a esquina, vi os caras, vi que eles me viram e tamb\u00e9m vi que eles viram que eu os vi. Tanto que minha rea\u00e7\u00e3o foi atravessar a rua (um tanto previs\u00edvel, diga-se de passagens) coisa que eles devem estar acostumados e se anteciparam (a final de contas, esse \u00e9 o trabalho deles), me restando somente pensar: merda, l\u00e1 vamos n\u00f3s&#8230; E foi.<br \/>&#8211; Passa o celular! N\u00e3o precisei responder, ele pegou por conta do meu bolso. &#8211; Passa o dinheiro! Eu respondi: calma, vou pegar a carteira, ta na mochila, mas s\u00f3 tenho seis reais (havia contado no \u00f4nibus, com o objetivo de saber se cabiam p\u00e3es e frios no valor que eu tinha). Entreguei os seis. Ele duvidou, pediu mais. Expliquei que era s\u00f3 o que eu tinha e ele se certificou analisando minha carteira. \u2013 Passa o cart\u00e3o do banco! No que retruquei: Pra qu\u00ea?! Tu n\u00e3o tem a senha! (agora fico pensando: e se ele me pedisse a senha?! Ou me levasse ao banco a duas quadras dali para sacar?!). &#8211; N\u00e3o, deixa o cart\u00e3o! disse o outro (pois sim, n\u00e3o preciso contar que eram dois, extremamente fortes, maus e bem armados). Se foram, levando o meu ex-celular e minhas ex-tr\u00eas notas de dois reais. Mas n\u00e3o deixei por menos, antes que eles se afastassem me impus: &#8211; Ser\u00e1 que voc\u00eas podem me devolver o chip? Coisa que eles fizeram de boa vontade. Por\u00e9m, n\u00e3o conseguiram tir\u00e1-lo e pediram para eu faz\u00ea-lo. Sendo assim, tive a chance de me despedir do celular. Que descanse em paz!<br \/>Acontece que de tudo pouco me perturba. Digo, poderia ficar muito chateado, com medo, raiva, coisas assim. Mas quem se disp\u00f5em a refletir sobre as coisas, n\u00e3o pode simplesmente responder \u00e0 ira e a humilha\u00e7\u00e3o que uma situa\u00e7\u00e3o como est\u00e1 provoca. Porque, junto com o celular e a tr\u00eas notas de dois reais, foram um pouco do meu orgulho de Homem: essa coisa que ainda resta na gente, de precisar ser forte, corajoso, meio super-her\u00f3i. Tudo por \u00e1gua a baixo.<br \/>Na reflex\u00e3o sobre os fatos, considero que o assalto \u00e9 resultado de uma necessidade. Claro que pode ser tanto para alimentar um filho quanto para comprar um t\u00eanis de marca ou sustentar um v\u00edcio. N\u00e3o sei. Mas sei que ningu\u00e9m rouba se n\u00e3o precisa. Mesmo os cleptoman\u00edacos: uma necessidade que surge da doen\u00e7a. Por outro lado, me parece que se eu fui humilhado, eles tamb\u00e9m devem sentir algo parecido. E acho que sentem, coisa que se reflete na forma de agir, como da outra vez que fui assaltado (sim, este foi apenas mais um epis\u00f3dio): sabem que est\u00e3o tirando algo do outro e n\u00e3o levam o que n\u00e3o tem valor para eles, como os documentos, ao menos no meu caso, onde houve uma esp\u00e9cie de negocia\u00e7\u00e3o.<br \/>No outro assalto nem levaram meu celular porque era muito velho (ironicamente \u00e9 o que eu uso agora que o outro me deixou). Daquela vez eu disse: cara, to mau de grana! No que ele respondeu: Sim, mas n\u00f3s estamos bem pior do que tu! Fiquei sem resposta para eles e para a faca. \u00c9 uma esp\u00e9cie de distribui\u00e7\u00e3o de renda for\u00e7ada.<br \/>Bom, a vida continua. Agora tenho um espet\u00e1culo de dan\u00e7a para assistir. Vou passar no banco se sacar mais dinheiro. Levo comigo o velho celular (aquele que os assaltantes n\u00e3o querem). Mas tenho um teatro com ar-condicionado me esperando. Talvez um bar com cerveja depois. Um teto bom e uma cama macia. O que ser\u00e1 que tem os assaltantes?<br \/>Sei que eles tem o meu celular e seis reais.<\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem coisas nessa vida que s\u00e3o inevit\u00e1veis, outras quase. De inevit\u00e1vel mesmo talvez somente a morte. H\u00e1 pouco fui assaltado, coisa de uma hora atr\u00e1s. Virei a esquina, vi os caras, vi que eles me viram e tamb\u00e9m vi que eles viram que eu os vi. 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