{"id":50,"date":"2009-01-22T02:20:00","date_gmt":"2009-01-22T02:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/2009\/01\/22\/o-nove-saiu\/"},"modified":"2009-01-22T02:20:00","modified_gmt":"2009-01-22T02:20:00","slug":"o-nove-saiu","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/o-nove-saiu\/","title":{"rendered":"O nove saiu"},"content":{"rendered":"<p>Uma mo\u00e7a graciosa me contou um fato que mal pude acreditar. Disse-me ela que roubaram o n\u00famero da casa de seus av\u00f3s. Como assim?! Contou ela que seu velhinho av\u00f4, fez um nove de papel para substituir o nove roubado.<br \/>Ela, indignada, exclamou: porque n\u00e3o deixam o n\u00famero dos velhinhos em paz?<br \/>Boa pergunta.<br \/>Curioso, fiquei a pensar o que poderia ter acontecido com o tal nove. Ser\u00e1 que era um material valioso? Pouco prov\u00e1vel. Quem colocaria um nove de ouro para identificar sua resid\u00eancia? Talvez algu\u00e9m morasse na casa n\u00famero nove e, talvez por falta de dinheiro, pegou \u201cemprestado\u201d o nove do av\u00f4 da mo\u00e7a. Talvez.<br \/>Fiquei triste pelos velhinhos.<br \/>Mas em seguida, fiquei feliz pelo nove. Sim, encontrei por a\u00ed a seguinte hip\u00f3tese: levaram o nove para conhecer o mundo!<br \/>Pois, se coloque no lugar do nove: num belo dia voc\u00ea \u00e9 feito, um bonito nove, ou um nove qualquer, n\u00e3o importa, voc\u00ea tem apenas uma fun\u00e7\u00e3o: numerar. Acabou-se a\u00ed. Pelo resto dos seus dias ficar\u00e1 preso \u00e0 uma parede a numerar. Somente o carteiro lhe dar\u00e1 uma breve aten\u00e7\u00e3o, ou uma nova visita.<br \/>Imaginem que uma boa alma, ao perceber o triste nove, levou-o para passear. Como Amelie Poulain, que entregou o an\u00e3o de jardim de seu pai a uma amiga aeromo\u00e7a lev\u00e1-lo para viajar, para ele conhecer o mundo para al\u00e9m das fronteiras de seu jardim.<br \/>Imagino a felicidade do nove. Consigo v\u00ea-lo conhecendo outros n\u00fameros, talvez at\u00e9 o abeced\u00e1rio. T\u00e3o grande \u00e9 o mundo, porque ficar num s\u00f3 lugar? Penso como ele deve ter ficado alegre ao ver seu irm\u00e3o g\u00eameo, grudado  na camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira, junto com o Ronaldo fazendo um gol na copa do mundo. Que orgulho!<br \/>E o nove conheceu o mundo, as coisas do mundo. Percebeu como somos belos, ou nem tanto, mas podemos ser. Podemos ser o nove que quisermos. Mas e todos os noves que est\u00e3o presos, colados pelas paredes? Ele ficou um pouco triste. Mas logo desentristeceu, pois entendeu que alegre ou triste, ao menos n\u00e3o est\u00e1 mais indiferente, est\u00e1 sentindo.<br \/>Fiquei feliz pelo nove. Tamb\u00e9m fiquei feliz pelo papel, que deixou de ser papel e passou a ser n\u00famero. Mas n\u00e3o consegui mais imaginar pra onde foi o nove, o que fez depois?  N\u00e3o sei. Pode at\u00e9 ter ficado um pouco confuso com o mundo que agora conhece.<br \/>Acho que pode ter do\u00eddo sair da parede: confus\u00e3o, incerteza, o desconhecido que assusta. Mas tamb\u00e9m o novo, o belo, o frio na barriga, as novas experi\u00eancia, os sorrisos, os choros, a vida. O nove agora sabe. S\u00f3 sabe quem se permite um dia n\u00e3o saber, e sair.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma mo\u00e7a graciosa me contou um fato que mal pude acreditar. Disse-me ela que roubaram o n\u00famero da casa de seus av\u00f3s. Como assim?! 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