{"id":629,"date":"2015-03-20T10:57:55","date_gmt":"2015-03-20T13:57:55","guid":{"rendered":"http:\/\/diegoesteves.in\/?p=629"},"modified":"2015-03-20T10:57:55","modified_gmt":"2015-03-20T13:57:55","slug":"quem-e-eu","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/quem-e-eu\/","title":{"rendered":"Quem \u00e9 eu?"},"content":{"rendered":"<p>Quem \u00e9 eu?<\/p>\n<p>Desde muito tempo atr\u00e1s, Eu questiona-se sobre o eu. Quando mudou-se do interior para a capital do estado, esse inc\u00f4modo mais ainda o incomodou.<\/p>\n<p>Na capital ningu\u00e9m conhecia Eu. Ali, uma das ideias sedutoras foi a de mudar seu pr\u00f3prio nome, ou dar-se o apelido que quisesse: a partir dali Eu seria outro eu.<\/p>\n<p>Numa cidade t\u00e3o grande, Eu era nada. Era ningu\u00e9m para todos. Podia ent\u00e3o ser qualquer algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Na cidade onde passou inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, Eu era ele para os outros, um ele-eu espec\u00edfico, n\u00e3o mais podia ser outro. Ao chegar na capital, era ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>A constitui\u00e7\u00e3o do eu tem a ver com a fronteira?<\/p>\n<figure id=\"attachment_630\" aria-describedby=\"caption-attachment-630\" style=\"width: 155px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/diegoesteves.in\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Uma-pequena-sala.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-630\" src=\"http:\/\/diegoesteves.in\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Uma-pequena-sala.jpg\" alt=\"uma pequena sala\" width=\"155\" height=\"207\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-630\" class=\"wp-caption-text\">uma pequena sala<\/figcaption><\/figure>\n<p>Eu, numa manh\u00e3 qualquer, oito anos ap\u00f3s chegar nesta capital, iniciou um texto para registrar um esbo\u00e7o de uma teoria que acaba de emergir da an\u00e1lise de uma lembran\u00e7a de sua inf\u00e2ncia. Na pr\u00e9-escola sentia medo, chorava. Aos seis anos j\u00e1 sabia que homem n\u00e3o chora, mesmo assim chorava. Sentia-se angustiado naquela pequena sala, com tantos outros parecidos com ele, mas com os quais n\u00e3o se identificava. Resistia a se relacionar com os meninos, n\u00e3o se acomodava com os modos de ser, nem com o futebol, nem com as brincadeiras de lutinha. Na impossibilidade de ficar s\u00f3, muitas vezes se aproximava das meninas, era tudo mais calmo, sentia-se menos tenso.<\/p>\n<p>No primeiro recreio nem jogou futebol, nem pulou corda. Ficou sentado num canto, ao observar os dois grupos, alheio ao convite da professora para se misturar.<\/p>\n<p>Essa teoria versa sobre a possibilidade de Eu ter desenvolvido tardiamente um senso de si que consolidasse um eu definido e coerente. Sempre teve muitas d\u00favidas, dificuldade de estar aqui e n\u00e3o l\u00e1, de ser vermelho e se diferenciar do azul, de ser isso e n\u00e3o aquilo. De ter tido dificuldade, e mesmo resistido, ao longo de seus 31 anos, a juntar-se a um ou outro grupo de eus.<\/p>\n<p>Conclui ser fruto da ignor\u00e2ncia a defesa de uma opini\u00e3o. Conclui haver uma excessiva falta de n\u00f3s, quando se aponta o outro-n\u00e3o-eu. Conclui ser fruto do medo, a afirmativa \u201ceu sou!\u201d. Al\u00e9m de ser redundante. Seria poss\u00edvel conjugar \u201ceu n\u00f3s!\u201d?<\/p>\n<figure id=\"attachment_631\" aria-describedby=\"caption-attachment-631\" style=\"width: 276px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/diegoesteves.in\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Do-canto-observava-as-meninas-a-pular-corda.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-631\" src=\"http:\/\/diegoesteves.in\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Do-canto-observava-as-meninas-a-pular-corda.jpg\" alt=\"do canto observava as meninas a pular corda\" width=\"276\" height=\"207\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-631\" class=\"wp-caption-text\">do canto onde observava as meninas a pular corda<\/figcaption><\/figure>\n<p>Eu, excessivamente t\u00edmido at\u00e9 sua adolesc\u00eancia, passa, aos poucos, a descobrir que possui uma energia positiva, passa a confiar nela, passa a confiar em si, a consolidar seu eu. Eu se torna professor, educador f\u00edsico, artista, coordenador, administrador, diretor. Eu continua a n\u00e3o se identificar com os grupos de eus. Eu, num primeiro momento orgulhoso desses t\u00edtulos, passe a incomodar-se, mais. Voltou a sentir o aperto da pequena sala.<\/p>\n<p>Eu acredita, com muita convic\u00e7\u00e3o, que os eus s\u00e3o transportes. Que servem para carregar e compartilhar, que servem para construir. Eu imaginou, no momento mesmo em que escrevia o texto, eus-caminh\u00f5es: transportando ideias, sentimentos, mat\u00e9rias &#8211; carregando energias das mais variadas. Corpos dispon\u00edveis a trabalhar por algo muito maior do que eles mesmos. A obra \u00e9 muito mais importante que o caminh\u00e3o. O caminh\u00e3o enferruja, quebra, morre&#8230;<\/p>\n<p>Eu continua sentindo-se na pequena sala tentando relacionar-se com os eus.<\/p>\n<p>Sente que tem eus demais nos espa\u00e7os. Sente que, em muitas casos, os caminhos est\u00e3o parados, os motoristas discutindo, e toda uma pot\u00eancia se perdendo \u2013 porque os caminh\u00f5es servem para transportar e construir!<\/p>\n<p>Percebe outros tantos caminh\u00f5es sem dire\u00e7\u00e3o: n\u00e3o sabem o que nem para onde carregar, n\u00e3o sabem em qual obra se engajar, onde somar.<\/p>\n<p>Outros caminh\u00f5es est\u00e3o t\u00e3o cheios de si mesmo que n\u00e3o cabe mais nada.<\/p>\n<p>Outros t\u00e3o preocupados com sua beleza, que n\u00e3o querem se sujar com as coisas, com a terra. Muitas vezes a beleza \u00e9 a sujeira. A terra nunca \u00e9 sujeira.<\/p>\n<p>Eu percebe-se apontando outros eus em seu texto. Eu quer ser menos eu.<\/p>\n<p>Eu anda pensando que a constitui\u00e7\u00e3o do eu tem a ver com a fronteira, est\u00e1 em busca da fronteira que precisa atravessar.<\/p>\n<p>Eu para de escrever, continua a buscar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_632\" aria-describedby=\"caption-attachment-632\" style=\"width: 155px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/diegoesteves.in\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Qual-fronteira-\u00e9-necess\u00e1rio-atravessar.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-632 size-full\" src=\"http:\/\/diegoesteves.in\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Qual-fronteira-\u00e9-necess\u00e1rio-atravessar.jpg\" alt=\"Qual fronteira \u00e9 necess\u00e1rio atravessar\" width=\"155\" height=\"207\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-632\" class=\"wp-caption-text\">Qual fronteira \u00e9 necess\u00e1rio atravessar?<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem \u00e9 eu? Desde muito tempo atr\u00e1s, Eu questiona-se sobre o eu. Quando mudou-se do interior para a capital do estado, esse inc\u00f4modo mais ainda o incomodou. Na capital ningu\u00e9m conhecia Eu. 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