{"id":671,"date":"2017-01-19T14:07:33","date_gmt":"2017-01-19T14:07:33","guid":{"rendered":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/?p=671"},"modified":"2017-01-19T14:21:39","modified_gmt":"2017-01-19T14:21:39","slug":"devaneios-para-sair-do-caminho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/devaneios-para-sair-do-caminho\/","title":{"rendered":"Devaneios para sair dos caminhos"},"content":{"rendered":"<p>Eis que voltamos para caminhos passados, vencidos, gastos, clich\u00eas. Caminhos nossos n\u00e3o s\u00f3 nossos, caminhos dos que nos s\u00e3o contempor\u00e2neos, caminhos de uma cultura. Caminhos do humano, demasiado humano. Caminhos: atitudes, escolhas, h\u00e1bitos. Pensamentos.<\/p>\n<p>Entre tantas possibilidades&#8230; da multiplicidade, da vida&#8230; nos repetimos.<\/p>\n<p>Suspeito que cada pensamento (que define escolhas, move atitudes e consolida h\u00e1bitos) tem uma massa. N\u00e3o tal qual a massa da mat\u00e9ria de nossos corpos, humanos, mas trata-se de corpos. Trata-se portanto de energia. Conclui-se ent\u00e3o, com Newton, que todo corpo atrai os outros corpos e, quanto maior a massa desse corpo, maior sua atra\u00e7\u00e3o. Pensamentos-corpos.<\/p>\n<p>Assim, suspeito, cada pensamento aumenta sua massa, cresce enquanto corpo, cada vez que voltamos a ele. Cada vez que o alimentamos, muitas vezes em segredo, nossos pequenos grandes monstros, sombras. Assim tamb\u00e9m com os pensamentos que nos potencializam, nos afetam e movem em dire\u00e7\u00e3o ao novo &#8211; que se d\u00e1 mais na ordena\u00e7\u00e3o das coisas, de sua composi\u00e7\u00e3o, do que das coisas em si. Contudo, os caminhos velhos, gastos, mancos e gagos &#8211; em seu grau de pot\u00eancia &#8211; est\u00e3o sempre, paradoxalmente, presentes e fortes em sua for\u00e7a de atra\u00e7\u00e3o: e para l\u00e1 vamos, passivas ovelhas andando na trilha, no trilho. Mas apresentando-se para si mesmos como le\u00f5es, tentando acreditar, e no geral conseguindo, ao menos num primeiro momento, que se est\u00e1 sendo forte e tomando o caminho que tem que ser tomado. Bravos le\u00f5es.<\/p>\n<p>(Desculpas para com as ovelhas. Nem todas s\u00e3o passivas. Nem fracas. E nem toda passividade \u00e9 ruim. Todo corpo \u00e9 potente, tanto a ovelha quanto o le\u00e3o: essas imagens batidas, repetidas, clich\u00eas, s\u00e3o tamb\u00e9m caminhos que repetimos, na vida, nos textos. Sacramento!)<\/p>\n<p>De fato, cansa essa luta contra a repeti\u00e7\u00e3o, esse tentar mudar o caminho: falta um mapa!<\/p>\n<p>Sente-se que um sentar em frente a TV resolveria os conflitos pessoais (seriam pessoais?), enquanto se participa de conflitos de personagens. Enquanto sente-se, por procura\u00e7\u00e3o, a adrenalina do que vive a personagem, o atleta.<\/p>\n<p>E mesmo quem teima em tomar os rumos repetidos, precisa tamb\u00e9m pausar, precisa, talvez, momentaneamente, se entregar ao mesmo, ao repetido, deixar-se apagar nos tr\u00e2nsitos ordenados pelos v\u00edcios de uma era, ser mais um &#8211; talvez n\u00e3o seria uma neurose a repeti\u00e7\u00e3o no querer n\u00e3o repetir? Prepot\u00eancia pensar ser diferente? Um desejar o novo ou o que quer que seja n\u00e3o esse mesmo? Ou n\u00e3o perceber no mesmo o diferente?<\/p>\n<p>Um mapa! \u00c9 preciso desenhar um mapa. Desenho, cria\u00e7\u00e3o. Visualizar os caminhos j\u00e1 conhecidos, ter uma breve no\u00e7\u00e3o do fora, saber por onde entrar nele, mesmo que n\u00e3o tenha portas: caberia s\u00f3 sair do caminho, da repeti\u00e7\u00e3o para acessar esse outro, esse fora? E qual seria o caminho para sair do caminho?<\/p>\n<p>Seria ent\u00e3o a vida viver esse inc\u00f4modo: de saber-se humano, demasiado humano. Perceber-se voltando para os mesmos lugares, repetindo pensamento e atitudes. Seria a vida essa resist\u00eancia, n\u00e3o de conduzir-se para outro lugar, mas de resistir n\u00e3o voltar para o mesmo &#8211; e deixar estar, deixar que um outro, inominado, me afete. E sofrer as consequ\u00eancias da inseguran\u00e7a, do n\u00e3o entender, do n\u00e3o conhecer, do n\u00e3o saber. E nesse estado vibrar, mexer, mover, mudar.<\/p>\n<p>Seria a vida ent\u00e3o resistir a voltar. Seria vida buscar esse fora. Esse n\u00e3o conhecido. Esse outro. Seria a vida ent\u00e3o um espa\u00e7o-momento de exerc\u00edcio, de estar e jogar. E de com isso acessar\/criar a sabedoria, que pode estar na composi\u00e7\u00e3o com o que me toca e compreendo, tanto quanto num saber de um inconsciente coletivo, ou de uma consci\u00eancia c\u00f3smica, ou outro nome para isso que n\u00e3o conhecemos e n\u00e3o conheceremos em pleno. \u00c9 um exerc\u00edcio num jogo entre onde est\u00e3o presentes a sabedoria e a\u00a0 loucura. E sabedoria e loucura seriam opostos? A sabedoria n\u00e3o seria uma poss\u00edvel compreens\u00e3o &#8211; e n\u00e3o ordena\u00e7\u00e3o &#8211; do que a loucura n\u00e3o consegue apreender, e por isso se perde em si, e fora, estando dentro?<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a estaria num centramento, que n\u00e3o \u00e9 controle. Seria n\u00e3o rumar para os lugares seguros. Seria estar vivendo o caos, uma vida intensiva, onde consigo estar pois a massa de meu corpo \u00e9 mais forte do que a massa desses pensamentos, desses h\u00e1bitos repetidos. E por isso me possibilito n\u00e3o a fuga ao conhecido, mas me manter com o que me afeta, deixar estar, aceitar. Assim, n\u00e3o retornamos para os corpos-pensamentos-h\u00e1bitos, n\u00e3o aumentamos a sua massa e o seu poder de atra\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio, deixamo-nos ser afetados pelo o que nos vem de fora, e nossa corpo ent\u00e3o aumenta sua massa, sua pot\u00eancia. Aumenta ent\u00e3o sua for\u00e7a de atra\u00e7\u00e3o, seu centramento. Abandonamos a prepot\u00eancia de sermos sujeitos e nos permitirmos ser mat\u00e9ria viva que participa de um movimento maior.<\/p>\n<p>Aumenta nossa capacidade de centramento, de energia que pode ser modulada, mas que sobretudo vibra e move-se em dire\u00e7\u00f5es que, talvez na maioria das vezes, n\u00e3o poderemos definir: querer controlar modos e dire\u00e7\u00f5es \u00e9 perder essa pot\u00eancia, controle seria o contr\u00e1rio de centramento. Aumentar sua massa n\u00e3o aumentaria seu controle portanto. Trata-se de pot\u00eancia de atrair energias e de ser um corpo-caminho poss\u00edvel por onde passa essas possibilidades, um lugar de manifesta\u00e7\u00f5es, de visibilidades. Seu corpo \u00e9 obra, \u00e9 mat\u00e9ria para manifesta\u00e7\u00e3o da vida, para dar forma ao que, fora, \u00e9 informe. Seu corpo \u00e9 acontecimentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eis que voltamos para caminhos passados, vencidos, gastos, clich\u00eas. Caminhos nossos n\u00e3o s\u00f3 nossos, caminhos dos que nos s\u00e3o contempor\u00e2neos, caminhos de uma cultura. Caminhos do humano, demasiado humano. Caminhos: atitudes, escolhas, h\u00e1bitos. Pensamentos. Entre tantas possibilidades&#8230; da multiplicidade, da vida&#8230; nos repetimos. 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