{"id":676,"date":"2017-04-25T00:21:06","date_gmt":"2017-04-25T00:21:06","guid":{"rendered":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/?p=676"},"modified":"2017-04-25T00:48:46","modified_gmt":"2017-04-25T00:48:46","slug":"sobre-vontade-e-potencia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/diegoesteves.in\/escritos\/sobre-vontade-e-potencia\/","title":{"rendered":"Sobre vontade e pot\u00eancia"},"content":{"rendered":"<div>Tenho feito dessa afirmativa, de diferentes formas em diferente contextos, talvez a minha principal &#8220;marca&#8221; no mundo: faz o que \u00e9 tua vontade!<\/div>\n<div>O que, num primeiro momento talvez pare\u00e7a o slogan de um produto do capitalismo, demanda um complexo processo de auto-observa\u00e7\u00e3o*: o que faz de mim um ser singular e o que se destaca entre meus intentos para que eu venha a fazer (e a ser) isso e n\u00e3o aquilo. E vir a estar\/participar deste outro de outro lugar, contexto, encontros&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Repito esse exerc\u00edcio de afirma\u00e7\u00e3o em favor da diferen\u00e7a. Pelo que de potente h\u00e1 em cada um, em suas singularidades, e que produza efeitos alegres nos espa\u00e7os de partilha. Mas sinto que essa quest\u00e3o tende a ser mal compreendida. Talvez isso se d\u00ea justo por essa coopta\u00e7\u00e3o do capitalismo que transforma at\u00e9 as mais antigas quest\u00f5es filos\u00f3ficas, e um complexo problema existencial, em comercial de sabonete. Por essa via tamb\u00e9m se refor\u00e7a um discurso de lideran\u00e7a, de autonomia, de ser diferente como algo da ordem do especial, belo, espetacular, superador dos limites, vencedor, o cara, a tal, beijinho no ombro de Apolo. Ent\u00e3o, quando se coloca a quest\u00e3o &#8220;qual sua vontade?&#8221;, logo vem um &#8220;ser feliz&#8221;, &#8220;vencer na vida&#8221;, e todo um apanhado de modelos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Voltando \u00e0 minha contribui\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o e trazendo como refer\u00eancia o <a href=\"http:\/\/diegoesteves.in\/necitra-nucleo-de-estudos-e-experimentacoes-com-circo-e-transversalidades\/\">NECITRA<\/a>: algumas vezes na <a href=\"http:\/\/necitra.com\/2015\/03\/13\/por-que-participar-do-necitra\/\">repeti\u00e7\u00e3o<\/a> (n\u00e3o somente por mim) sobre a import\u00e2ncia de entender quais s\u00e3o as vontade de cada um e manifest\u00e1-la no mundo e com o mundo (e nesse caso do NECITRA enquanto um lugar espec\u00edfico no mundo) observei que essa demanda por autonomia repercutia como um tensionamento para um &#8220;fa\u00e7a voc\u00ea mesmo!&#8221;, &#8220;seja o l\u00edder da sua vida!&#8221;, &#8220;v\u00e1 atr\u00e1s dos seus sonhos!&#8221;. Ent\u00e3o, hoje, com leituras que abaixo cito e que me trouxeram novamente ao tema, quero destacar, mais uma vez, que n\u00e3o \u00e9 disso que se trata!<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o \u00e9 sobre vencer, pois todo caminho leva a lugar nenhum ou, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e0 morte. N\u00e3o se trata de Poder. E para repetir mais um clich\u00ea: n\u00e3o \u00e9 sobre ter, \u00e9 sobre ser! Ent\u00e3o n\u00e3o pode ser sobre poder, e sim sobre pot\u00eancia. Ainda que aumentar meu grau de pot\u00eancia me coloque em determinada condi\u00e7\u00f5es no jogo de for\u00e7as (e de poder) nos contextos onde atuo: mas prefiro entender, e propor como um poss\u00edvel entendimento, essa condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o como uma capacidade para dominar, mas para produzir encontros maiores em quantidade e em pot\u00eancia, para aumentar minha produ\u00e7\u00e3o de efeitos no mundo. Para mover &#8211; penso como uma dan\u00e7a: qual m\u00fasica me afeta? Ou o sil\u00eancio? Como me movo? Ou prefiro o repouso? Com quem dan\u00e7o? Ou prefiro um solo?<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Num coletivo como o NECITRA, onde impera a demanda por autonomia, n\u00e3o se trata de que todos sejam diretores, mas que cada um manifeste suas vontades e se constitua nesse contexto e rela\u00e7\u00f5es: pode dirigir tanto quanto ser dirigido, quanto produzir, se engajar nas quest\u00f5es t\u00e9cnicas da cena&#8230; se todos forem diretores quem ser\u00e3o os dirigidos? Acontece que tem a\u00ed uma quest\u00e3o moral, um valor hier\u00e1rquico&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essa(s) quest\u00e3o(\u00f5es) me (co)movem como artista-pesquisador-educador-etc no mundo. Primeiro pois entendo que a educa\u00e7\u00e3o tende a proceder por repeti\u00e7\u00f5es dos padr\u00f5es, enquanto um inserir o sujeito na sociedade &#8211; e em certa medida se sujeitar, portanto. Segundo, pela perspectiva dos discursos sobre a vontade (os hegem\u00f4nicos) refor\u00e7arem o ideal do vencedor, de quem chegou ao topo, est\u00e1 acima, tem e \u00e9 mais &#8211; do atleta no esporte aos her\u00f3is do cinema, passando pelo homem sedutor-pegador, pela mulher esbelta e sexy, a crian\u00e7a criativa e alegre, o vov\u00f4 disposto e bem aposentado, a vov\u00f3 boa de cozinha e da cuca&#8230; e por a\u00ed desnudando o machismo e outros ismos dos quais n\u00e3o me sinto apto a tratar (pois estou ainda travando contato com eles na minha pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o).<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Finalizo esse exerc\u00edcio de pensamento com o disparador dessa escrita, Nietzsche que, quando leio, \u00e9 como se eu tivesse dizendo aquelas palavras, e fosse mais inteligente do que sou:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Se em tudo que voc\u00ea quiser fazer come\u00e7ar por perguntar: &#8220;Quero faz\u00ea-lo um n\u00famero infinito de vezes?&#8221;, isso ser\u00e1 para voc\u00ea o mais s\u00f3lido centro de gravidade&#8230; Minha doutrina ensina: &#8220;Viva de tal modo que voc\u00ea deva desejar reviver, \u00e9 o dever &#8211; pois de todo modo voc\u00ea reviver\u00e1. Aquele para quem o esfor\u00e7o \u00e9 a alegria suprema, que se esforce! Aquele que ama acima de tudo o repouso, que repouse! Aquele que ama acima de tudo se submeter, obedecer e seguir, que obede\u00e7a. Mas que saiba onde est\u00e1 sua prefer\u00eancia e n\u00e3o recue diante de nenhum meio. Isso vale a eternidade! &#8230; Essa doutrina \u00e9 doce para com aqueles que n\u00e3o acreditam nela: n\u00e3o tem inferno e nem faz amea\u00e7as. Aquele que n\u00e3o tem f\u00e9 apenas sentir\u00e1 em si uma vida fugitiva&#8221;. **<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>*o que me leva sempre ao questionamento de se \u00e9 poss\u00edvel se auto-observar, quando quem seria este que observa e este observado, s\u00e3o dois? sou dois? suponho que sejamos m\u00faltiplos&#8230; mas quem s\u00e3o esses e qual hierarquia suposta em que um pode observar o outro? E este outro observado sabe que assim o \u00e9? E o que me garante que este eu que observa o outro eu tenha determinado atributo anal\u00editico e sens\u00edvel para chegar a alguma conclus\u00e3o que possa me levar a algum outro lugar&#8230; e qual seria esse outro lugar? h\u00e1 um lugar para chegar? Acredito que n\u00e3o enquanto chegada, mas como passagem&#8230; Enfim, faltam alian\u00e7as te\u00f3ricas (no caso, estudo) para essa quest\u00e3o dos m\u00faltiplos eus&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>** Cita\u00e7\u00e3o feita no por Deleuze no livro Nietzsche a partir de tr\u00eas fragmentos p\u00f3stumos, da tradu\u00e7\u00e3o francesa de Vontade de Pot\u00eancia, segundo Roberto Machado no livro Deleuze, a arte e a filosofia, de onde tirei a cita\u00e7\u00e3o, na p. 97.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho feito dessa afirmativa, de diferentes formas em diferente contextos, talvez a minha principal &#8220;marca&#8221; no mundo: faz o que \u00e9 tua vontade! 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