{"id":1074,"date":"2019-05-20T15:58:18","date_gmt":"2019-05-20T15:58:18","guid":{"rendered":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/?page_id=1074"},"modified":"2019-05-24T19:03:41","modified_gmt":"2019-05-24T19:03:41","slug":"poetica","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/poetica\/","title":{"rendered":"Po\u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Seguimos com um excerto do texto da disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, em processo, no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, linha de pesquisa Filosofias da Diferen\u00e7a e Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 ***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pesquisar, ensaiar: por uma po\u00e9tica da improvisa\u00e7\u00e3o na Educa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passamos a tratar, com as <em>Li\u00e7\u00f5es de Po\u00e9tica<\/em>, de Paul Val\u00e9ry, da estrita rela\u00e7\u00e3o que conferimos entre improviso e jogo. Esta pesquisa, com efeito, debru\u00e7a-se sobre uma problem\u00e1tica onde intenta circunscrever a improvisa\u00e7\u00e3o fora da correla\u00e7\u00e3o com a espontaneidade que \u00e9 recorrente em estudos art\u00edsticos<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, mas, sobretudo, no senso comum. Para tanto, toma o improviso em seu sentido etimol\u00f3gico, ou seja, como o que n\u00e3o era visto de antem\u00e3o, e prop\u00f5e sua emerg\u00eancia para pensar o lugar da po\u00e9tica na Educa\u00e7\u00e3o: trata-se de uma articula\u00e7\u00e3o com o imprevis\u00edvel, a partir de restri\u00e7\u00f5es impostas por jogos inventados, para fazer assim funcionar, e vitalizar, uma aula e uma pesquisa. Considera, porquanto, que:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por toda a parte, nos intelectos, encontro aten\u00e7\u00e3o, tateamento, claridade inesperada e noites escuras, improvisa\u00e7\u00f5es e ensaios, ou retomadas urgent\u00edssimas. Existe, em todos os lares do intelecto, fogo e cinzas; prud\u00eancia e imprud\u00eancia; o m\u00e9todo e seu contr\u00e1rio; o acaso sob mil formas. Artistas, cientistas, todos identificam-se nos detalhes dessa estranha vida do intelecto. (VAL\u00c9RY, 2018, p.41).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomamos de Val\u00e9ry (2018, p.13) a no\u00e7\u00e3o de po\u00e9tica: \u201centendendo-se essa palavra segundo sua etimologia, isto \u00e9, como nome de tudo o que se relaciona com a cria\u00e7\u00e3o ou com a composi\u00e7\u00e3o de obras em que a linguagem \u00e9 ao mesmo tempo subst\u00e2ncia e meio\u201d. Damos mais \u00eanfase \u00e0 no\u00e7\u00e3o de composi\u00e7\u00e3o do que de cria\u00e7\u00e3o, uma vez que a segunda tem uma predisposi\u00e7\u00e3o para associa\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas; por essas via, a improvisa\u00e7\u00e3o acontece num fazer imediato: ato instant\u00e2neo da m\u00e3o que manuseia a escrita em estrito jogo com o pensamento que pensa o pensar; do olho que comp\u00f5e o que v\u00ea em sua imedia\u00e7\u00e3o, e no ato de olhar produz uma esp\u00e9cie de narrativa do que v\u00ea; corpo que medeia, ato do intelecto que inventa uma obra \u2014 inventar com o que se apropria, composi\u00e7\u00e3o com a mat\u00e9ria circundante. Ensaio do artista-pesquisador que tateia na escurid\u00e3o, e que encontra nos imprevistos, e sobretudo busca no improv\u00e1vel, a claridade que ilumina o potencial do pensamento, para que se siga pensando \u00e0 espreita do impensado, do que \u00e9 poss\u00edvel pensar um pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este estudo, portanto, considerara uma composi\u00e7\u00e3o jogo-improviso que possa criar condi\u00e7\u00f5es de possibilidade para experimenta\u00e7\u00f5es na pesquisa e na doc\u00eancia. Trata-se de um jogo que prop\u00f5e lidar com o imprevis\u00edvel, de regras que, como restri\u00e7\u00f5es, produzem desvios, desequilibram e nos tensionam em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 periferia do que nos constitui, no limiar entre o que conhecemos e o que ignoramos. Neste limiar a po\u00e9tica emerge como o fazer deste docente-pesquisador, no jogo entre o que sabe, o que n\u00e3o sabe, e o que sente como necessidade para a manuten\u00e7\u00e3o deste fazer, pois \u201c\u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do indiv\u00edduo que deve ser, como em todas as coisas, nossa guia: em suma, nossa necessidade deve ser nosso indicador\u201d (VAL\u00c9RY, 2018, p.51).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E escrever uma pesquisa n\u00e3o seria um ato de improviso neste limiar entre o conhecido e o desconhecido? Podemos pensar que o texto se apresenta como um exerc\u00edcio de composi\u00e7\u00e3o numa sala de ensaio da pesquisa: \u201cn\u00e3o come\u00e7a com Ad\u00e3o e Eva, mas com aquilo que deseja falar; diz o que a respeito lhe ocorre e termina quando sente ter chegado ao fim, n\u00e3o onde nada mais resta a dizer: ocupa, deste modo, um lugar entre os desprop\u00f3sitos\u201d (ADORNO, 2003, p.17). Emana assim da necessidade de compreens\u00e3o n\u00e3o para acumular conhecimento, mas para seguir pensando, para compor e operar com essas mat\u00e9rias nos fazeres da pesquisa e da doc\u00eancia, no sentido de que \u201c\u00e0s vezes somos o teatro de uma modifica\u00e7\u00e3o, de uma constru\u00e7\u00e3o verdadeira e pr\u00f3pria\u201d (VAL\u00c9RY, 2018, p.57). Trata-se de considerar um est\u00fadio, um espa\u00e7o onde estudar significa pensar no entorno do que nos seduz, de ensaiar, de tentar circunscrever algo. No que tange esta pesquisa em espec\u00edfico \u2014 no espa\u00e7o deste texto \u2014, tratamos da improvisa\u00e7\u00e3o via uma escrita que se p\u00f5e em jogo para improvisar sobre o tema da improvisa\u00e7\u00e3o, ou seja: encontrar nela, nesta palavra, o que n\u00e3o era visto de antem\u00e3o, conferindo for\u00e7a ao improviso como um modo de lidar com o que acontece (e pode acontecer) numa aula e no pesquisar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por conseguinte, desviar de uma compreens\u00e3o da improvisa\u00e7\u00e3o como algo da ordem da espontaneidade \u00e9 condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para tom\u00e1-la no sentido de uma rela\u00e7\u00e3o com o fora, e n\u00e3o como express\u00e3o da interioridade do indiv\u00edduo, da manifesta\u00e7\u00e3o da sua criatividade. Um bom improvisador (no sentido spinozista do termo<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>) \u00e9 este que lida com o que passa num instante, e neste \u00ednfimo momento que escapa, nas imedia\u00e7\u00f5es poss\u00edveis de um ato, opera uma imediata apropria\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias informes, produzindo, no que nos prop\u00f5e Val\u00e9ry (2018, p.21) uma obra do intelecto: \u201ctrata-se daquelas que o intelecto quer fazer para seu pr\u00f3prio uso, empregando para esse fim todos os meios f\u00edsicos que podem lhe servir\u201d. Mas, \u201cum instante do intelecto, o que chamamos de um instante, pode ser considerado um sistema <em>in fieri<\/em>, necessariamente incoerente, incompleto, inst\u00e1vel\u201d (VAL\u00c9RY, 2018, p.55).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse sentido, para lidar com o \u201cnecessariamente incoerente, incompleto, inst\u00e1vel\u201d que propomos o jogo enquanto um delimitador, defini\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o para exercitar-se, como num ensaio, para estudar e aumentar nossa capacidade de improvisar e compor. Para pensar a pesquisa-doc\u00eancia, pois, a no\u00e7\u00e3o de estudo \u2014 enquanto um ensaiar, exercitar-se, portanto \u2014, nos interessa mais que a de ensino, por toda as implica\u00e7\u00f5es que a rela\u00e7\u00e3o ensino-aprendizagem nos parece ter; de todo modo, e nesse sentido, estamos novamente com Val\u00e9ry (2018, p.49), pois:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se eu fosse obrigado a definir o ensino, diria que consiste em nos transformarmos o m\u00e1ximo poss\u00edvel, em transformar nosso corpo e nosso intelecto, para fazer deles verdadeiros instrumentos, mais d\u00f3ceis ao que podemos chamar de desejo de superioridade. Nossa superioridade individual depende da flexibilidade, da obedi\u00eancia e da precis\u00e3o desses instrumentos que s\u00e3o o intelecto e o corpo: instrumentos de qu\u00ea? Instrumentos do instinto, sem d\u00favida, de uma ideia que se nos apresenta, de uma necessidade que percebemos. Quanto mais elevada \u00e9 essa necessidade, quanto mais \u00e9 rara, menos ela pertence \u00e0 ordem das necessidades ordin\u00e1rias do ser, e mais exige ductilidade, prontid\u00e3o e precis\u00e3o dos instrumentos de que falava.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Citamos como exemplo o livro <em>Improvisa\u00e7\u00e3o para O Teatro<\/em>, da autora Viola Spolin, importante refer\u00eancia para os estudos das artes c\u00eanicas, na qual ela afirma: \u201cOs pr\u00f3prios jogadores criavam suas cenas sem o benef\u00edcio de um dramaturgo ou de exemplos dados pelo professor-diretor, enquanto era <strong>libertados<\/strong> para receber as conven\u00e7\u00f5es do palco. [&#8230;] Eles podiam colocar toda a <strong>espontaneidade<\/strong> para trabalhar ao criar cenas ap\u00f3s cenas de material novo. Envolvidos com a estrutura e concentrados na solu\u00e7\u00e3o de um problema diferente em cada exerc\u00edcio, eles <strong>abandonavam gradualmente seus comportamentos mec\u00e2nicos, emo\u00e7\u00f5es<\/strong>, etc., e entravam na realidade do palco, <strong>livre e naturalmente<\/strong>, especializados em t\u00e9cnicas improvisacionais e preparados para assumir quaisquer pap\u00e9is em pe\u00e7as escritas\u201d (SPOLIN, 2015, p.28, grifo meu).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u201cSer\u00e1 dito bom (ou livre, ou razo\u00e1vel, ou forte) aquele que se esfor\u00e7a, tanto quanto pode, por organizar os encontros, por se unir ao que conv\u00e9m a sua natureza, por compor a sua rela\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00f5es combin\u00e1veis e, por esse meio, aumentar sua pot\u00eancia. Pois a bondade tem a ver com o dinamismo, a pot\u00eancia e a composi\u00e7\u00e3o de pot\u00eancias\u201d (DELEUZE, 2002, p.25).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seguimos com um excerto do texto da disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, em processo, no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, linha de pesquisa Filosofias da Diferen\u00e7a e Educa\u00e7\u00e3o. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 *** Pesquisar, ensaiar: por uma po\u00e9tica da improvisa\u00e7\u00e3o na Educa\u00e7\u00e3o Passamos a tratar, com as Li\u00e7\u00f5es de Po\u00e9tica, de Paul Val\u00e9ry, da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1074","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1074","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1074"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1074\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1109,"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1074\/revisions\/1109"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1074"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}