{"id":273,"date":"2018-06-27T20:10:01","date_gmt":"2018-06-27T20:10:01","guid":{"rendered":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/?page_id=273"},"modified":"2018-06-28T21:33:18","modified_gmt":"2018-06-28T21:33:18","slug":"80-22-01-2018","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/80-22-01-2018\/","title":{"rendered":"[80] 22\/01\/2018"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/79-22-01-2018\/\"><code>Voltar para nota anterior<\/code><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse dia (29 de dezembro) estava na casa dos meus pais, cidade do interior do Rio Grande do Sul, e aproveitava o tempo mais lento (a impress\u00e3o que passa dele quando estamos em lugares com ritmos mais espa\u00e7ados que o nosso) para ler\/escrever. Lia Nietzsche e a Educa\u00e7\u00e3o, de Jorge Larrosa, escrevia alguns fragmentos com esse livro e cita\u00e7\u00f5es anotadas de outras leituras recentes, e em pausas conversava com minha fam\u00edlia, tomava um caf\u00e9 e respondia mensagens no whatsapp.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o registro de uma delas que agora compartilho \u2013 literatura de whatsapp.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha interlocutora me responde acerca do viajar, nosso assunto no momento, dizendo que \u00e9 muito bom, pois na viagem nos descobrimos \u2013 ao que eu respondo \u201cou nos inventamos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um ponto recorrente nas partilhas das \u201cvis\u00f5es\u201d do mundo e de si a ideia do descobrir-se. Assim, segui:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sabe que, penso, que h\u00e1 toda uma \u00e9tica e uma estil\u00edstica de vida que diferem neste ponto crucial: de ver a si e a vida como algo da pr\u00e9-exist\u00eancia, como ess\u00eancias que precisamos descobrir, como quem retira um v\u00e9u para encontra ali algo importante. Ou de perspectivar a vida como quem, ao perspectiva-la, inventa a pr\u00f3pria vida, ao procurar de determinada forma, e ao afirmar de determinado modo. Aqui, debaixo do v\u00e9u tem outro v\u00e9u, e outro, sucessivamente. E o descobrir passa a ser um certo modo de reconhecer nossos padr\u00f5es, o que em n\u00f3s se repete, o que toma for\u00e7a, o que comp\u00f5e nosso g\u00eanio. Mas at\u00e9 isso \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o, calcada na nossa \u00e9poca, na nossa cultura e na nossa educa\u00e7\u00e3o \u2013 com uma dose do esp\u00edrito que trazemos de outra vida, se formos kardecistas. (O Whatsapp \u00e9 um modo de fazer literatura, n\u00e3o acha? \u00c9 um di\u00e1logo, claro. Estou a pensar em us\u00e1-los na minha disserta\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela em resposta diz que n\u00e3o existe uma defini\u00e7\u00e3o s\u00f3, mas que uma pessoa pode passar por v\u00e1rias defini\u00e7\u00f5es. E eu, que tenho dom para teimoso, mas prefiro dizer que sou afeito e afoito por debates motivantes (e qual debate n\u00e3o \u00e9, em algum sentido, motivante?) respondo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o existe uma defini\u00e7\u00e3o s\u00f3, mas a defini\u00e7\u00e3o sob as quais fazemos demais defini\u00e7\u00f5es definem essas defini\u00e7\u00f5es e, consequentemente, o definido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela diz que concorda parcialmente e eu, claro, sigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o posso dizer que debaixo do v\u00e9u tem uma coisa e n\u00e3o tem nada, ao mesmo tempo, a n\u00e3o ser que afirme que ao dizer que tem tem, mesmo que n\u00e3o tenha\u00a0 &#8211; e esse \u00e9 o ponto. Uma mesa, do ponto de vista de sua composi\u00e7\u00e3o material subat\u00f4mica, \u00e9 espa\u00e7o vazio. Quando a ci\u00eancia levanta o v\u00e9u que \u201climita\u201d nossa experi\u00eancia (nossos \u00f3rg\u00e3o sens\u00f3rio-motores) percebe que a mat\u00e9ria \u00e9 espa\u00e7o e o \u201cdenso\u201d \u00e9 \u201coco\u201d. Alheios a isso, vivemos sobre as mesas, repletas de coisas consistentes. Os dois pontos s\u00e3o verdadeiros e s\u00e3o diferentes. E nisso conclu\u00edmos que a realidade \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o (Flusser) \u2013 m\u00faltiplas fic\u00e7\u00f5es em jogo, eu diria. (isso \u00e9 meio minha disserta\u00e7\u00e3o, ela parte desse ponto e nisso se difere da pesquisa cient\u00edfica hegem\u00f4nica, digamos assim, ao n\u00e3o afirmar uma realidade pr\u00e9-existente a ser descoberta sobre o m\u00e9todo cient\u00edfico. E nisso me aproximo da literatura, mas tamb\u00e9m, de um certo modo de pensar a literatura, do que me parece foi definido como La Mancha, enquanto um movimento, depois de Cervantes).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ainda, replico outra quest\u00e3o, quando ela me diz que existe literatura com whatsapp, pois o meio (a m\u00eddia) \u00e9 mero adorno, onde o que importa \u00e9 o conte\u00fado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Concordo parcialmente: o meio modela o conte\u00fado, se tivesse escrevendo uma carta o conte\u00fado se expressaria de outra forma, e nisso muda a leitura. Se a m\u00eddia fosse uma fotografia, mais ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela me responde que pode escrever uma carta por e-mail, facebook ou whatsapp, que foto n\u00e3o se aplica pois estamos falando da comunica\u00e7\u00e3o escrita, e completa: \u201cexiste literatura sem palavras?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Se eu te der um livro e ao abri-lo as p\u00e1ginas estiverem todas em branco? Que me dizes? N\u00e3o ser\u00e1 literatura? A literatura \u00e9 o que fala, ou o que possibilita ouvir? \u00c9 o que mostra, ou o que possibilita ver? N\u00e3o sou um entendido de literatura. De todo modo, tenho na arte uma certa ideia da qual a literatura faz parte. Nessa ideia pode existir dan\u00e7a sem movimentos, uma palha\u00e7a pode fazer rir sem piadas, e um teatro pode n\u00e3o ter atores (como se n\u00e3o me engano fez Brecht). Ou uma m\u00fasica sem notas (como a famosa pe\u00e7a do m\u00fasico que logo me recordo o nome). Por essa via pode existir literatura sem palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela concorda. Eu complemento:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Desde que os meios criem as condi\u00e7\u00f5es para tal: um palco, um corpo, um nariz vermelho, um ouvido, um livro. Por isso um meio n\u00e3o \u00e9 um adorno. Por isso = por essa perspectiva. (John Cage, o m\u00fasico).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meio n\u00e3o \u00e9 o ponto chave de valida\u00e7\u00e3o da arte, segundo minha companheira virtual, mas \u201caquilo que a arte desperta no outro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Os meios pelos quais desperta \u2013 eu reafirmo em tom jocoso (expresso por uma figurinha sorrindo) -, os m\u00faltiplos meios, n\u00e3o h\u00e1 ponto chave; um meio pode ser, inclusive, um fim. Ou um come\u00e7o. Ou um meio vazio, como uma mesa, repleta de consist\u00eancia. O meio sobre o qual e com o qual fizemos algo. N\u00f3s somos meios, sempre meios, nunca fim e, por isso, sem defini\u00e7\u00f5es. Somos fic\u00e7\u00f5es. Somos literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela diz que n\u00e3o sabe se estamos a falar da mesma no\u00e7\u00e3o de meio. Eu nessas horas j\u00e1 n\u00e3o estou t\u00e3o interessado em definir pontos comuns, mas empolgado com as ideias:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; S\u00e3o muitos meios, nunca o mesmo. O meio n\u00e3o \u00e9 o centro, mas pode ser, \u00e9 um modo, um modo de pensar os modos. O meio me parece que tem um g\u00eanio de estrutura, tanto quanto, numa certa aus\u00eancia dela, um modo errante de tentar, que me apeteceu chamar de estilo. Assim um meio como suporte, e um meio como modo: estrutura e estilo \u2013 e uma as vezes se sobrepondo \u00e0s outras, em positividade e negatividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cE tu n\u00e3o levanta v\u00e9us?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Levanto, pra ver o que posso inventar naquele espa\u00e7o e suas singularidades. Mas tamb\u00e9m tenho muito interesse em estudar o pr\u00f3prio v\u00e9u. E quem \u201co colocou\u201d ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTu s\u00f3 levanta v\u00e9us com prop\u00f3sitos?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Inventar n\u00e3o \u00e9 um prop\u00f3sito; n\u00e3o \u00e9 a inven\u00e7\u00e3o do artista que faz uma obra, \u00e9 a inven\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a que brinca: se n\u00e3o tiver afetos, nem levanto o v\u00e9u. E se levantar e n\u00e3o me afetar o que l\u00e1 \u201cestiver\u201d, nada passa.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/81-30-01-2018\/\"><code>Seguir para a pr\u00f3xima nota<\/code><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltar para nota anterior &nbsp; Nesse dia (29 de dezembro) estava na casa dos meus pais, cidade do interior do Rio Grande do Sul, e aproveitava o tempo mais lento (a impress\u00e3o que passa dele quando estamos em lugares com ritmos mais espa\u00e7ados que o nosso) para ler\/escrever. 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