{"id":281,"date":"2018-06-27T20:14:49","date_gmt":"2018-06-27T20:14:49","guid":{"rendered":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/?page_id=281"},"modified":"2018-06-28T21:37:48","modified_gmt":"2018-06-28T21:37:48","slug":"84-05-02-2018","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/84-05-02-2018\/","title":{"rendered":"[84] 05\/02\/2018"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/83-30-01-2018\/\"><code>Voltar para nota anterior<\/code><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O corpo se coloca im\u00f3vel e, sem contradi\u00e7\u00e3o, se move para reinos distantes, por ruas conhecidas, por imagens retomadas. Eventualmente se perde e anseia encontrar-se. Repetem-se anseios e ang\u00fastias, se p\u00f5e em d\u00favida e vislumbra um futuro glorioso, neste ou naquele reino inventado. Onde quer que esteja o corpo o pensamento vagueia. Independente do controle do corpo, mais ou menos aut\u00f4nomo, o pensamento se move: tente parar de pensar e ir\u00e1 descobrir que \u00e9 uma das coisas mais dif\u00edceis &#8211; entre uma lista infind\u00e1vel de desafios, esta deve encontrar-se no p\u00f3dio. Os monges sabem muito bem desta dificuldade. E todo tipo de asceta se coloca em combate com o pensamento: n\u00e3o se pode neg\u00e1-lo, \u00e9 perigoso demais am\u00e1-lo, n\u00e3o se pode esquec\u00ea-lo. O pensamento nos pensa e conosco conversa, ou se imp\u00f5e. Quem \u00e9 esse que fala em minha cabe\u00e7a[link para o primeiro fragmento de Safranki com Nietzsche e os dois que falam]? \u00c9 o mesmo que se disp\u00f5e na escrita? O que \u00e9 o pensamento? Onde inicia esse que fala, o que ele esconde e, talvez, o mais importante (enquanto uma filosofia pr\u00e1tica, diria) para onde nos leva os pensamentos que nos acompanha? Sou Eu quem pensa? Sou pensado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dar-se conta de que se est\u00e1 a pensar e tomar o pensamento como uma coisa viva. Especulamos que a\u00ed se apresenta um complexo jogo: tal jogo sempre est\u00e1 a\u00ed, pode detr\u00e1s dos nossos olhos, precisamos portanto olhar ao rev\u00e9s. Val\u00e8ry afirma, num dos coment\u00e1rios que acompanham o texto-livro Introdu\u00e7\u00e3o ao M\u00e9todo de Leonardo Da Vinci: \u201cTrata-se, em suma, do uso do pensamento poss\u00edvel, controlado pelo m\u00e1ximo de consci\u00eancia poss\u00edvel\u201d (1979, p.15). Ter consci\u00eancia de que se pensa, perceber como se pensa e o que se pensa. Se dispor ao jogo, n\u00e3o com anseio de domin\u00e1-lo, mas de compreend\u00ea-lo e aos poucos barganhar espa\u00e7o, persuadir essa voz que fala e, qui\u00e7\u00e1, dobr\u00e1-la fazendo dela n\u00f3s mesmos. Um modo de tornar-se o que se \u00e9, talvez. Um modo de ser o que passa, pois o que se \u00e9 \u00e9 devir, fluxo, mudan\u00e7a. Todavia, essa voz que \u00e0 n\u00f3s se anuncia, essas palavras e imagens que surgem em nossa cabe\u00e7a, n\u00e3o se mostra como um bom viajante: teme o desconhecido e retorna para os mesmos lugares-imagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Valery nesta edi\u00e7\u00e3o do livro divide o texto em dois, como em duas colunas, sendo uma delas o coment\u00e1rio que faz sobre o texto inicial. De modo similar, estamos a desdobrar o texto numa disposi\u00e7\u00e3o em que o pensamento retorna e o texto, de outra maneira, comenta a si mesmo. Por essa via retornamos a essa imprecisa quest\u00e3o: pensar o pensamento [link nota 1]. De tal modo que neste movimento incessante de ler, pensar, escrever, pensar, ler e escrever as linhas v\u00e3o sendo puxadas, tramadas, vislumbradas aos poucos; e de rascunhos (pensamentos errantes) v\u00e3o ganhando forma uma imagem, uma ideia, um texto. O pesquisar \u00e9 esse perguntar e as linhas que se desdobram neste territ\u00f3rio que se forma sobre a imagem da pergunta: linha de pensamento que se coaduna com as linhas de vida, intensidades que se confundem e tramam a pesquisa-doc\u00eancia em educa\u00e7\u00e3o-vida &#8211; para al\u00e9m e aqu\u00e9m dos meandros e limites institucionais [link que fala do interesse na institui\u00e7\u00e3o e corpo, fragmento de dezembro]. Como nos apresenta Valery no fragmento abaixo: existe a\u00ed um drama. Um drama do pensamento, ou uma com\u00e9dia, um jogo que se projeta na vida, em nossos feitos e efeitos que deixamos no mundo &#8211; e que por sua vez s\u00e3o retomados e revistos por n\u00f3s mesmos (como um eu-outro futuro) ou por outr\u00e9m.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Interiormente, existe um drama. Drama, aventura, agita\u00e7\u00f5es, todas as palavras desta esp\u00e9cie se podem empregar, uma vez que sejam v\u00e1rias e uma delas corrija a outra. Este drama perde-se com muita frequ\u00eancia, tal como aconteceu com as pe\u00e7as de Menandro. Contudo, conservamos os manuscritos de Leonardo e as ilustres notas de Pascal. Estes retalhos obrigam a que os interroguemos. Deixam-nos adivinhar gra\u00e7as a que sobressalto do pensamento, bizarras introdu\u00e7\u00f5es dos eventos humanos e das sensa\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas, depois de alguns imensos minutos de langor, se mostram a alguns homens as sombras das suas futuras obras, os fantasmas que as antecedem. (VAL\u00c9RY, 1979, p.17).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensar o pensamento e para tal ter com a escrita um di\u00e1logo, um modo de ver o invis\u00edvel (o pensar n\u00e3o dito em fala), ou de reler e reescrever o j\u00e1 dito: podemos pensar ambos como uma escrita de si, ou, o que nos parece mais preciso, uma escrita do pensamento (uma vez que este si n\u00e3o \u00e9 mais do que o si \u201clido\u201d pelo pensamento e redito por ele). A escrita de si pensamos com Foucault (ano), e desdobraremos este ponto mais \u00e0 frente, mas aqui destacamos que o autor diferencia a escrita de si de um di\u00e1rio: o primeiro cuida de reescrever o que passou no cotidiano, o que se disse, se ouviu, se fez; j\u00e1 o segundo teria uma forma de confession\u00e1rio, de confessar o que n\u00e3o se expressou, mas lateja em pensamento. Nossa hip\u00f3tese \u00e9 de que ambas opera\u00e7\u00f5es se confundem; assim, algo que se diz com palavras clareza e afirmativas, pode partir de um pensamento sombrio e por vezes irreconhecido pelo ser que fala. Esta hip\u00f3tese ganha for\u00e7a tanto para pensar a Educa\u00e7\u00e3o &#8211; numa perspectiva de que esta sempre passa por uma educa\u00e7\u00e3o de si &#8211; , quanto para pensar a pesquisa: e o ponto de cruzamento nos parece que pode ser ancorado numa palavra: m\u00e9todo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A consci\u00eancia dos pensamentos que possu\u00edmos, na medida em que se trata de pensamentos, consiste no reconhecimento dessa esp\u00e9cie de igualdade ou de homogeneidade; no sentimento de que todas as combina\u00e7\u00f5es dessa esp\u00e9cie s\u00e3o leg\u00edtimas, naturais, e de que o m\u00e9todo consiste em exercit\u00e1-las, em observ\u00e1-las com rigor, em procurar o que elas implicam. (VAL\u00c9RY, 1979, p.20).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria um educar o pensamento? O que penso eu do mundo, o que penso eu de mim e das outras pessoas? Sendo este pensar outra forma de se afirmar o mundo como inven\u00e7\u00e3o [ link] e como fic\u00e7\u00e3o [ link]. Pensar o pensamento \u00e9 pensar como pesquisamos o mundo, em quais agenciamentos entramos (ver Deleuze plat\u00f4s 2). Como pesquisamos, como educamos, como vivemos: e embora pesquisa e educa\u00e7\u00e3o possam ser separadas entre elas e do mundo, como recortes necess\u00e1rios \u00e0 composi\u00e7\u00e3o de uma pesquisa-texto, colocamos aqui este \u201cnecess\u00e1rio\u201d em cheque: uma coisa est\u00e1 atravessada e se atravessa em outras, assim como o nosso pensamento que se perde no limiar da escrita. Todavia, entre vida, pesquisa e educa\u00e7\u00e3o se apresenta o pensamento, bem como o ler e o escrever que aqui seria uma forma de pensar o pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda via leva aos mesmos lugares, que s\u00e3o todos diferentes. Antes de mais nada e primeiro de tudo, \u00e9 preciso buscar em meio a err\u00e2ncia, pois a\u00ed acreditamos que entramos no jogo com o pensamento, pois o recorte, a defini\u00e7\u00e3o, a precis\u00e3o tende a nos colocar no lugar do conhecido e sermos servos do pensamento. \u00c9 precisamente no risco do erro, da imprecis\u00e3o e dos desvios, como no labirinto inventado [link], que perspectivamos o que pensamos enquanto pesquisadores, docentes e discentes &#8211; e assim nos apresentamos ao pensamento, e ele a n\u00f3s.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 f\u00e1cil alcan\u00e7ar o universal! Eles podem, por instantes, admirar o prodigioso instrumento que s\u00e3o &#8211; com o risco de negarem instantaneamente um prod\u00edgio. Mas esta clareza final n\u00e3o desperta sen\u00e3o prolongadas incertezas, indispens\u00e1veis idolatrias. A consci\u00eancia das opera\u00e7\u00f5es do pensamento, que \u00e9 a l\u00f3gica desconhecida a que me referi, s\u00f3 raramente existe, mesmo nos c\u00e9rebros privilegiados. O n\u00famero das concep\u00e7\u00f5es, o poder de as prolongar, a abund\u00e2ncia das descobertas s\u00e3o coisas distintas que se produz \u00e0 margem do ju\u00edzo que fazemos da nossa natureza. (VALERY, 1979, p.19-20).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/85-05-02-2018\/\"><code>Seguir para a pr\u00f3xima nota<\/code><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltar para nota anterior &nbsp; O corpo se coloca im\u00f3vel e, sem contradi\u00e7\u00e3o, se move para reinos distantes, por ruas conhecidas, por imagens retomadas. Eventualmente se perde e anseia encontrar-se. Repetem-se anseios e ang\u00fastias, se p\u00f5e em d\u00favida e vislumbra um futuro glorioso, neste ou naquele reino inventado. 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