{"id":300,"date":"2018-06-27T20:24:32","date_gmt":"2018-06-27T20:24:32","guid":{"rendered":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/?page_id=300"},"modified":"2018-07-19T11:53:22","modified_gmt":"2018-07-19T11:53:22","slug":"93-02-04-2018","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/93-02-04-2018\/","title":{"rendered":"[93] 02\/04\/2018"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/92-04-03-2018\/\"><code>Voltar para nota anterior<\/code><\/a><\/p>\n<p><code>Notas que apontam para esta: <a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/19-29-08-2017-08-09-20175-7\/\">[19]<\/a>\u00a0 <\/code><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se apresenta a mim uma certa ang\u00fastia, se instala em meu corpo. Escrever sobre o Corpo Potencial, enquanto sinto escoar as energias do meu corpo. Mas n\u00e3o \u00e9 sobre o meu corpo que se trata, mas \u00e9 tamb\u00e9m \u2013 \u00e9 atrav\u00e9s dele e com ele, n\u00e3o posso abandon\u00e1-lo. Ainda assim, posso precipit\u00e1-lo (a mim?) em dire\u00e7\u00e3o ao tr\u00e1gico, ao inevit\u00e1vel. Mas e se minhas for\u00e7as se ausentam, se me esvaio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Digo, me digo: espere, mantenha-se em p\u00e9, aguarde. E eu ando, e eu ando, ando-me. Ponho no toca-discos musica cl\u00e1ssica, termina, desligo. Me visto um fone de ouvido, isolo o som exterior, mais m\u00fasica cl\u00e1ssica. Ligo o computador, ascendo as duas lumin\u00e1rias sobre a bancada (depois de tomar o segundo caf\u00e9 do dia). E aqui estou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto procuro compor esse Corpo Potencial, essa ideia, essa fic\u00e7\u00e3o eficaz para pensar a vida (a minha?); Qual ser\u00e1 a for\u00e7a desta ideia? Poder\u00e1 ser tomada por outros? Eis o ponto: n\u00e3o se trata de direcion\u00e1-lo, \u00e9 do porvir que se trata. E ele n\u00e3o \u00e9 um objetivo, \u00e9 um estado de vida, um estado para movidas. Escrever sobre esse Corpo Potencial, rastejando com a escrita sobre meu pr\u00f3prio corpo, esse que sinto escorrer, que sinto morrer, esse que d\u00e1 sinais de vida nas dores articulares, na sa\u00fade que aponta seus pontos fracos. Na playlist come\u00e7a a tocar Carmina Burana, m\u00fasica que utilizei em uma performance parte de um espet\u00e1culo estreado em 2016: em cena um <a href=\"http:\/\/diegoesteves.in\/cena\/2017\/02\/10\/enquanto-o-novo-espetaculo-nao-vem\/#jp-carousel-1187\">her\u00f3i de papel, de papel higi\u00eanico<\/a>, marcando seu corpo com fio dentais, sobre os fios incertos que tramam nossa vida, em dire\u00e7\u00e3o a nossa morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrever, escrever, procurar. Esse procurar que n\u00e3o quer procura, apesar de estar a espreita de algo, mas ent\u00e3o por que essa palavra teima em aparecer? Agora percebo que ela \u00e9 feita tamb\u00e9m de cura, pr\u00f3 cura (desaten\u00e7\u00e3o minha? Seria t\u00e3o \u00f3bvio, n\u00e3o?). Curado como algo que amadurece. Esse amadurecer, contudo, como um processo \u201cnatural\u201d, a vida que segue, e que se cura, enquanto inevitavelmente morre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devo confessar (ainda que atento a culpabiliza\u00e7\u00e3o) que n\u00e3o me agrada esse tom pessoal, e que escrevo assim com hesita\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 por crer que n\u00e3o se trata de mim (de Diego, esse tal Diego): essa dor, essa d\u00favida, \u00e9 nossa, me atravessa, n\u00e3o \u00e9 minha. N\u00e3o me interessa a fraqueza escondida, me ausentar da escrita por ter perdido consist\u00eancia, os elos, o fio da meada, o \u00e2nimo. Disso n\u00e3o se deve falar? Suposta neutralidade do texto? N\u00e3o sou eu quem fala, mas o que me comp\u00f5e (e nesse caso decomp\u00f5e); e tamb\u00e9m pode conferir for\u00e7a ao texto \u2013 e por essa via reencontrar um caminho potente que nos coloque novamente juntos: \u201ceu\u201d e a escrita, juntos em texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos dias iniciei um primeiro ensaio acerca do Corpo Potencial. Ap\u00f3s, decidi reler todo o Bloco de Notas e selecionar os fragmentos que me serviriam para compor esse texto. E parece que o jogo virou: o labirinto de textos me desconcerta, p\u00f5e em d\u00favida as defini\u00e7\u00f5es (m\u00ednimas, para que o texto possa ter coes\u00e3o, ainda que suas margens transbordem). Decidi assim (ao menos por enquanto), deixar esse primeiro texto (com algo em torno de cinco p\u00e1ginas), como um primeiro ensaio (\u00e0 ser usado ou n\u00e3o), e sob o t\u00edtulo \u201cEm tese, um Corpo Potencial\u201d. Agora devo seguir, se houver for\u00e7a nesse quase esgotamento (ap\u00f3s tantos dias em escrita, em anota\u00e7\u00f5es, em leituras) para a ideia que se iniciou no texto anterior, sob o t\u00edtulo \u201cCorpo Potencial: autofic\u00e7\u00e3o de um tornar-se o que se \u00e9\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que me leva a isso \u00e9 Bataille. Pensava em inserir algumas ideias de <em>Nietzsche: vontade de chance<\/em> ao final do texto iniciado, mas parece que nele encontrei a liga que me faltava, justo em minha ideia j\u00e1 expressa de um corpo em estado de prontid\u00e3o (estado de improviso). Enquanto caminhava pela casa, a mirar o computador como se esperando algum sinal que me convoca-se a escrever (e se ele nunca chegasse?), reli a contracapa do livro:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nietzsche sonhou com um homem que j\u00e1 n\u00e3o fugiria de um destino tr\u00e1gico, mas que o amaria e o encarnaria de pleno acordo, que n\u00e3o mentiria mais para si mesmo e se elevaria acima da servid\u00e3o social. Essa esp\u00e9cie de homem diferiria do homem atual, que se confunde em geral com uma fun\u00e7\u00e3o, ou seja, apenas uma parte do poss\u00edvel humano: seria, em uma palavra, o <em>homem inteiro<\/em>, liberado das servid\u00f5es que nos limitam.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontrar pot\u00eancias e se fazer nos encontros potenciais significa aceitar que as perde, que o decl\u00ednio existe sempre que se busca o \u00e1pice (que n\u00e3o \u00e9 um fim, mas essa inteireza que se expressa como for\u00e7a para seguir, for\u00e7a tr\u00e1gica, devir). Assim, nos diz Bataille (2017, p.72):<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o posso negar: o decl\u00ednio \u00e9 o inevit\u00e1vel, e o pr\u00f3prio \u00e1pice o indica; se o \u00e1pice n\u00e3o \u00e9 a morte, deixa atr\u00e1s de si a necessidade de descer. O \u00e1pice, por ess\u00eancia, \u00e9 o lugar onde a vida \u00e9, no limite, imposs\u00edvel. S\u00f3 o atinjo, na muito fraca medida em que o atinjo, gastando for\u00e7as sem poupar. S\u00f3 disporei de for\u00e7as para dilapidar de novo se recuperar, atrav\u00e9s de meu labor, aquelas que perdi.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retornamos, por essa via, ao labor, ao labor interno: do texto e de si, por via do pensamento que retorna ao corpo, de si com o texto. Somos as convic\u00e7\u00f5es que nos afirmam, e que se perdem a todo o tempo; criamos imagens, definimos objetivos, mas sobre as apar\u00eancias apol\u00ednicas que nos objetivam em dire\u00e7\u00e3o ao horizonte, sempre ruge Dion\u00edsio que nos lembra (e j\u00e1 esquecemos?) que esse horizonte \u00e9 um del\u00edrio, queimamos sempre \u201cno mesmo lugar\u201d. O texto de Bataille nos confere for\u00e7a, tamb\u00e9m, por via da presen\u00e7a que se imp\u00f5e, que se afirma nesse jogo, onde a chance \u00e9 minha garantia de vida (a nossa garantia, sem garantia nenhuma).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abandono o bem e abandono a raz\u00e3o (o sentido), abro sob meus p\u00e9s o abismo de que me separavam a atividade e os ju\u00edzos que ela encadeiam. A consci\u00eancia da totalidade \u00e9 inicialmente em mim, no m\u00ednimo, desespero e crise. Se abandono as perspectivas de a\u00e7\u00e3o, minha perfeita nudez se revela a mim. Estou no mundo sem recurso, sem apoio, desabo. N\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda sen\u00e3o uma incoer\u00eancia sem fim atrav\u00e9s da qual s\u00f3 minha chance poder\u00e1 me guiar. (BATAILLE, 2017, p.30).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, retornaremos para a nossa sala de ensaio.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><code><a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/94-10-04-2018\/\">Seguir para a pr\u00f3xima nota<\/a><\/code><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltar para nota anterior Notas que apontam para esta: [19]\u00a0 &nbsp; Se apresenta a mim uma certa ang\u00fastia, se instala em meu corpo. Escrever sobre o Corpo Potencial, enquanto sinto escoar as energias do meu corpo. 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