{"id":305,"date":"2018-06-27T20:27:21","date_gmt":"2018-06-27T20:27:21","guid":{"rendered":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/?page_id=305"},"modified":"2018-07-19T12:17:15","modified_gmt":"2018-07-19T12:17:15","slug":"95-18-04-2018","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/95-18-04-2018\/","title":{"rendered":"[95] 18\/04\/2018"},"content":{"rendered":"<p><code><a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/94-10-04-2018\/\">Voltar para nota anterior<\/a><\/code><\/p>\n<p><code>Nota que aponta para esta: <a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/19-29-08-2017-08-09-20175-7\/\">[19]<\/a><\/code><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou sentado, n\u00fa. Preciso dizer que estou n\u00fa: essa imagem me interessa (mas voc\u00ea n\u00e3o precisa tentar imaginar). N\u00fa, em minha sala de estar. Sentado em meu sof\u00e1-cama. Acabei de reler um artigo, quase pronto, que em breve deve ser submetido para uma revista que ainda n\u00e3o sei qual (trata-se de <em>A escrita e a performance na Pesquisa em Educa\u00e7\u00e3o: po\u00e9tica e autofic\u00e7\u00e3o<\/em>). Deveria, agora, estar fazendo \u00faltimos ajustes neste texto, mas, fui tomado por pensamentos que me fizeram desviar, e quis dar a devida aten\u00e7\u00e3o que eles merecem. Em verdade, ao contr\u00e1rio, o pensamento que deu a devida aten\u00e7\u00e3o a mim, ao me encontrar, me cabe ent\u00e3o ser uma via de transcria\u00e7\u00e3o (algo assim). O estar n\u00fa me interessa, tal qual o pensamento que chega sem aviso, e com o qual temos (evidentemente falo do meu ponto de vista) a tend\u00eancia de resguard\u00e1-lo, esperando que amadure\u00e7a de sua juvenil e intempestiva atitude exagerada. Pensamento meio bobo, meio deslocado, meio sem sentido, meio egoc\u00eantrico, meio nada a ver. Tentarei escrever com ele, sem demoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho um irm\u00e3o, psic\u00f3logo, mestrando no Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia Social e Institucional, na UFRGS, universidade na qual eu tamb\u00e9m curso o mestrado, no Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o. O pensamento pensava na diferen\u00e7a que h\u00e1 em nossos processos de pesquisa e escrita e que, ao que pensava, assim se faz em virtude de nossas constitui\u00e7\u00f5es; para analisa-las, teria que lan\u00e7ar m\u00e3o de complexos estudo (que suponho n\u00e3o possuir): me parece suficiente considerar que cada um nasceu com um g\u00eanio, conforme nos fala Agamben (2007), e que, ademais, apesar de viver na mesma fam\u00edlia, passamos por experi\u00eancias diferentes e, sobretudo, vivemos as experi\u00eancias de modo diferente (por influ\u00eancia de nosso g\u00eanio).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerava ent\u00e3o que o processo de pesquisa do meu irm\u00e3o, ao que me parece, e tomando em contraponto aos processos da minha pesquisa, s\u00e3o mais anal\u00edticos, detalhistas com rela\u00e7\u00e3o a epistemologia, aos pormenores do \u201cesse conceito \u00e9\u201d, ou mesmo, o autor \u201cquis dizer\u201d; e cabe aqui uma nota: que ele me perdoe se, ao ler, discordar e se, sobretudo, al\u00e9m de infiel as fatos, eu for cruel na minha leitura deles. Mas em verdade, eu invejo (inveja boa, claro) esse processo preocupado, bem como sua capacidade de compreender (ou tentar, ou mesmo pensar que compreende) o autor, o texto. Tem a\u00ed um ato de respeito, um compromisso \u00e9tico. Por outra via, c\u00e1 este que escreve, se inscreve numa processo de pesquisa sobre o qual poderia dizer, sem medo dos efeitos do que se diz, que se instaura sobre uma rela\u00e7\u00e3o interesseira: n\u00e3o \u00e9 que desrespeite o autor, pois n\u00e3o v\u00ea em sua profana\u00e7\u00e3o um desrespeito; ao contr\u00e1rio, sem poupar um exagerado, o autor e seus feitos s\u00f3 tem com isso a ganhar, quando deles tiramos o peso e a responsabilidade que outros, ou as institui\u00e7\u00f5es, ou eles pr\u00f3prios, se impuseram. Ao inv\u00e9s de tentar compreend\u00ea-los, convidamos eles para dan\u00e7ar, para jogar (meu irm\u00e3o talvez diria que isso soa como romantizar o estudo e a pesquisa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ademais, e meu irm\u00e3o sabe disso, provavelmente melhor do que eu, tais autores (pois utilizamos muitos deles em comum) fizeram essa profana\u00e7\u00e3o (ou coisa parecida), ou, indo ainda al\u00e9m, sugeriram que se fizesse. Os mesmos autores, de um ou outro modo, colocaram em perspectiva a autoria, enquanto autoridade, enquanto subjetividade produtora de um texto dotado de um sentido \u201cdo que o autor quis dizer\u201d: mataram o autor, ou sugeriram o seu desaparecimento, afirmaram a for\u00e7a do texto, a polifonia, a polissemia, o deslocamento da linguagem, bem como seu agenciamento num processo coletivo e impessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fiquei a pensar que h\u00e1 uma n\u00edtida diferen\u00e7a em nossos processos, tendo com base o que o antecede, qual seja, nossa \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d: ele, psic\u00f3logo, e eu, artista (por isso deixei em suspenso a palavra forma\u00e7\u00e3o, uma vez que, academicamente, sou um educador f\u00edsico mas, no que tange os \u00faltimos significativos anos da minha vida, e como me identifico, sou um artista). De todo modo, n\u00e3o se trata de dizer que os processos de estudo e pesquisa do meu irm\u00e3o, que buscam uma compreens\u00e3o da coer\u00eancia do texto, seu contexto, a composi\u00e7\u00e3o do plano de iman\u00eancia, tal qual nos apresenta Deleuze e Guattari (1992) (os personagens conceituais, intercessores, o drama que o texto apresenta, etc), seja justificados num <em>modus operandis<\/em> da psicologia (imaginando eu uma rela\u00e7\u00e3o do fazer cl\u00ednico desta profiss\u00e3o como algo da ordem de uma busca e an\u00e1lise dos sentidos, que se imiscui com o passado das coisas \u2013 e das coisas nas pessoas, para mudar os sentidos no presente, enquanto processo terap\u00eautico). Em verdade, n\u00e3o se trata de dizer que meu irm\u00e3o pesquisa assim por ser um psic\u00f3logo, mas que \u00e9 um psic\u00f3logo porque pensa assim; ou seja, sua constitui\u00e7\u00e3o, seu g\u00eanio \u201ccombinam\u201d com o \u201cjeito\u201d psic\u00f3logo de \u201cser\u201d. \u00c9 evidente que estou a ser simplista, quase mesquinho na minha an\u00e1lise, mas lembre-se que estou n\u00fa na minha sala de estar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E j\u00e1 que estou tamb\u00e9m a falar de mim, \u00e9 evidente tamb\u00e9m considerar a mesma ordem dos fatores: por \u201cser como sou\u201d que \u201cme tornei artista\u201d (pe\u00e7o desculpa se essas aspas s\u00e3o estranhas e esteticamente desinteressantes, mas n\u00e3o estou encontrando outro modo de dizer esses sensos comuns e manter um certo distanciamento de um discurso simplista, que aqui serve para a dramatiza\u00e7\u00e3o ao qual se prop\u00f5e \u2013 mas me parece, agora, que tenho receio de passar por simplista, que preocupa\u00e7\u00e3o deselegante, logo eu, um corpo n\u00fa no sof\u00e1-cama);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, e nisso h\u00e1 um ponto crucial que difere nossos processos, uma quest\u00e3o de tempo e de tes\u00e3o (ia usar uma palavra mais filosofia, como afec\u00e7\u00f5es, seil\u00e1, mas dado o formato esdr\u00faxulo para o qual est\u00e1 escorrendo este texto, e para o qual estou come\u00e7ando a ficar receoso de seu resultado, senti que tes\u00e3o soava melhor); Nos processos no qual estou inserido, sinto uma vontade de cria\u00e7\u00e3o, uma ideia que surge, um pensamento que se apresenta e para o qual sei que (ou penso que sei) tem uma dura\u00e7\u00e3o \u2013 sou excitado e solicitado a escrever: \u00e9 como se tivesse que surfar nessa onda, entrar nessa dan\u00e7a antes que a m\u00fasica acabe, mostrar o truque antes que as bolas caiam e que a plateia v\u00e1 embora; n\u00e3o me h\u00e1 tempo de retomar os conceitos (e confesso que me d\u00f3i essa d\u00favida, essa incerteza se estou a usar o conceito mais apropriado, a palavra correta, mas confio mais for\u00e7a para a composi\u00e7\u00e3o, para o movimento, e na f\u00e9 de que ela, a composi\u00e7\u00e3o, confira o sentido e a coer\u00eancia ao texto \u2013 apesar de poss\u00edveis, e as vezes conscientes e interessados, desvios conceituais); trata-se, mais uma vez, de uma trabalho de artista \u2013 e a\u00ed nos remeter\u00edamos a Deleuze e Guattari (1992), novamente, e \u00e0 ideia do plano de composi\u00e7\u00e3o. Voltando ao tes\u00e3o: se voc\u00ea pensa demais, penso, broxa. Simples assim. Sei que, e \u00e9 prov\u00e1vel que n\u00e3o seja para todos assim, que se eu pensar demais sobre o que eu estou a pensar, se eu buscar entender, se quiser esmiu\u00e7ar, para s\u00f3 depois iniciar a escrita, ao faz\u00ea-lo a ideia j\u00e1 muda e, provavelmente ela (tanto a ideia transformada quanto a que deu in\u00edcio ao pensamento) j\u00e1 n\u00e3o parecem mais interessantes; eu assim n\u00e3o escreveria, provavelmente, nada; ou escreveria algo sem for\u00e7a; talvez, n\u00e3o estou certo disso; todavia, n\u00e3o pretendo que pare\u00e7a que todos os textos surgem num devir-m\u00e1quina-de-escrever-desvairada: os processos variam e mesmo os textos produzidos nas escritas mais corridas, passam por uma reapropria\u00e7\u00e3o, revis\u00e3o, ajustes, reescrita. Trata-se, como venho pensando, de um processo inicial, movido pela intui\u00e7\u00e3o, pela sensibilidade, e pela via da permiss\u00e3o, de um estar num jogo incerto, e nele se mover, entrando numa dan\u00e7a improvisada, se escrever; e de um segundo momento, de tomada de consci\u00eancia, an\u00e1lise, reescrita. Contudo, esse segundo momento precisa estar por demais atento ao ju\u00edzo moral, para n\u00e3o censurar, n\u00e3o limpar em excesso, correndo o risco de pasteurizar o texto; suponho (e podem dizer que me equivoco), que uma certa dose de imprecis\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria ao texto, faz parte de seu charme ou, como queira, de seu humor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode at\u00e9 parecer egoc\u00eantrico, mas n\u00e3o \u00e9 ego\u00edsta; egoc\u00eantrico caso se entende, e tenho d\u00favidas se \u00e9 o caso, que esse ego est\u00e1 no meio de um complexo processo que o atravessa, e sua fun\u00e7\u00e3o central seria captar o que pode captar e, diferente de ser um diretor da pesquisa, que aponta para onde e como ela vai, funciona mais como um orquestrador<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> em constante jogo com o que orquestra, pois em muitas vezes o jogo vira, e somos mais uma coisa sendo orquestrada pelas for\u00e7as em movimento. Para este caso, ego n\u00e3o me parece ser a melhor palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sigo n\u00fa, e me parece que as palavras chegam at\u00e9 aqui, mais que isso levaria a fadiga.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><code><a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/96-20-04-2018\/\">Seguir para a pr\u00f3xima nota<\/a><\/code><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> E tomo essa ideia da fala de Jorge Ramos do \u00d3, captada num encontro, ontem, no semin\u00e1rio intitulado &#8220;O gesto texturizante que comp\u00f5e uma escrita inventiva&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltar para nota anterior Nota que aponta para esta: [19] &nbsp; Estou sentado, n\u00fa. Preciso dizer que estou n\u00fa: essa imagem me interessa (mas voc\u00ea n\u00e3o precisa tentar imaginar). N\u00fa, em minha sala de estar. Sentado em meu sof\u00e1-cama. 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