{"id":982,"date":"2019-03-08T21:37:25","date_gmt":"2019-03-08T21:37:25","guid":{"rendered":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/?page_id=982"},"modified":"2019-06-27T21:32:52","modified_gmt":"2019-06-27T21:32:52","slug":"107-28-02-2019-01-03-2019","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/107-28-02-2019-01-03-2019\/","title":{"rendered":"[107] 28\/02\/2019 \u2013 01\/03\/2019"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/106-23-02-2019\/\"><code>Voltar para nota anterior<\/code><\/a><\/p>\n<p><code>Notas que apontam para esta: <a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/110-06-03-2019\/\">[110]<\/a><\/code><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PARA UMA CI\u00caNCIA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se quer seguir-me, narro-lhe; n\u00e3o os resultados de uma pesquisa, que almejaria qualquer tipo de conclus\u00e3o, mas a recorrente prospec\u00e7\u00e3o, mais forte do que eu, acerca de uma suposta ci\u00eancia, a qual, por meio de experimentos, especulo por uma constitui\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. S\u00e3o, desde ent\u00e3o, dezoito meses intensos \u2014 em verdade esta \u00e9 a ponta de um <em>iceberg<\/em>, o topo de um per\u00edodo bem mais extenso da minha vida a especular no entorno desta ideia (ainda que, durante anos eu n\u00e3o estivesse consciente desta excurs\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal ideia, digo-te: a de que existe uma dimens\u00e3o improvisada sob as apar\u00eancias que constituem nossa vida. Desta suposi\u00e7\u00e3o emerge uma inquieta\u00e7\u00e3o da qual decorre minha obsess\u00e3o: instituir uma ci\u00eancia capaz de estudar esses processos imprevistos (n\u00e3o vistos <em>\u00e0 priori<\/em>, para o quais, portanto, n\u00e3o temos a posse de refer\u00eancias consistentes, \u00e0 n\u00e3o ser por transposi\u00e7\u00f5es heterog\u00eaneas) e improv\u00e1veis (pois, sem modelo e sem matriz de causa-efeito, que aqui n\u00e3o se aplica, nada se pode provar \u2014 no sentido de comprova\u00e7\u00e3o \u2014, nos resta assim provar \u2014 no sentido de experimentar \u2014 e, por essa via, especular); a consequ\u00eancia disso seria que tal ci\u00eancia demandaria um m\u00e9todo ext\u00e1tico, por assim dizer. Mas h\u00e1 um empecilho que tem me afligido, sempre que considero essa empreitada \u2014 e digo sem d\u00f3: o humano! Disso decorre um paradoxo: como posso eu, humanamente constitu\u00eddo, me agenciar com as tecnologias de uma ci\u00eancia n\u00e3o-humana? O problema \u00e9 mais complexo, voc\u00ea v\u00ea: a ci\u00eancia \u00e9 constitu\u00edda humanamente, bem como nossos aparatos tecnol\u00f3gicos \u2014 ora, pois?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o ent\u00e3o gira no entorno \u2014 ao menos minha prospec\u00e7\u00e3o chegou at\u00e9 aqui \u2014 n\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o do humanismo ocidental, sobre o qual se constitui a ci\u00eancia, mas de criar condi\u00e7\u00f5es para uma ag\u00eancia cient\u00edfica, digamos, ante-humana (e n\u00e3o anti-humana).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas veja onde me leva o \u00e2nimo&#8230; acabei por esquecer-me, num misto entre ansiedade, indigna\u00e7\u00e3o e alegria, das anota\u00e7\u00f5es que deveriam guiar este relato (e devo logo alert\u00e1-lo que ele se constitui no ato mesmo da escrita, como dito entre um gole e outro de caf\u00e9, nas entrelinhas do olhar silencioso ante um transeunte que corta a paisagem ao acaso, tendo sempre a presen\u00e7a destas anota\u00e7\u00f5es em meu caderno azul, que miro vez ou outra para n\u00e3o encontrar-me demasiadamente perdido; anota\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o nada mais do que intui\u00e7\u00f5es que por ora compartilho, com a esperan\u00e7a de que possa encontrar cumplicidade).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passo, assim \u00e0s anota\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro, que estou especulando acerca de uma esp\u00e9cie de Ci\u00eancia N\u00f4made do Improviso. Segundo, que esta ideia ganha for\u00e7a junto as proposi\u00e7\u00f5es do Tratado de Nomadologia, de Deleuze e Guattari \u2014 donde o fato de que qualquer semelhan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia; logo, n\u00e3o s\u00f3 os conceitos de M\u00e1quina de Guerra, N\u00f4made e Ci\u00eancia Menor s\u00e3o importantes, quanto outros que, mesmo que aqui n\u00e3o relatados, s\u00e3o imprescind\u00edveis aos exerc\u00edcios de pensamento nos quais estamos engajados; destaco os conceitos de devir, multiplicidade, heterogeneidade, pr\u00e9-individual, ante-eu e a no\u00e7\u00e3o de corpo tomada na esteira do pensamento de Spinoza e Nietzsche.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me permita, antes, mais uma reflex\u00e3o (n\u00e3o quero denunciar lam\u00farias, mas intuo ser o contexto indispens\u00e1vel para percorrermos junto este relato \u2014 para estarmos ambientados, por assim dizer): nas tentativas fracassadas, sobre as quais esse relato colhe os res\u00edduos, sempre que o \u00e2nimo me estimulava o pensamento, quando do encontro desta ideia \u2014 a de uma ci\u00eancia, a partir dos conceitos filos\u00f3ficos \u2014 eu me sentia, de contragolpe, paralisado, percebia nitidamente minha energia escoar para o espa\u00e7o; logo, n\u00e3o queria escrever (n\u00e3o podia, n\u00e3o tinha for\u00e7as!), sob o risco de humanizar, de dar um rosto para o que n\u00e3o tem, de dizer o mesmo de sempre em outras palavras de agora, de fazer um esbo\u00e7o sobre uma figura j\u00e1 dada, por\u00e9m, esquecida. Al\u00e9m do mais, e pe\u00e7o que releve o tom confessional, n\u00e3o teria eu mais do que \u00ednfimas improv\u00e1veis chances de propor tal Ci\u00eancia N\u00f4made do Improviso: a mat\u00e9ria que detinha para compor era consideravelmente insuficiente para construir algo que parasse em p\u00e9 (que dizer sobre caminhar&#8230; sobre dan\u00e7ar!); mas veja como me contradigo, pois, andar n\u00e3o seria uma coisa humana? E dan\u00e7ar? Ou, poderia haver (ou h\u00e1?) uma ci\u00eancia animal?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que eu n\u00e3o sabia o que fazer, s\u00f3 pensava, desejava, uma redu\u00e7\u00e3o de pensamentos (do ponto de vista de uma racionalidade); supunha um pensar movido por tais infra improvisa\u00e7\u00f5es da vida, das quais a forma \u00e9 residual (e o humano \u00e9 uma forma, apesar das replica\u00e7\u00f5es maneiristas). Noutros momentos, quando uma raiva de s\u00fabito me esquentava o sangue, queria, em v\u00e3o, arrancar o humano de mim! No segundo seguinte, ponderava, racionalmente (veja a ironia!), se n\u00e3o seria o caso a pr\u00f3pria dimens\u00e3o humana desejando aniquilar-se, uma vez que o animal que por ventura habitasse em meu corpo, por suposi\u00e7\u00e3o, se quer notaria essa abstra\u00e7\u00e3o que \u00e9 o humanismo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num dia, j\u00e1 exausto deste labirinto no qual titubeava entre me oferecer um m\u00e9rito herc\u00faleo, ou, uma ingenuidade infantil, encontrei um texto antigo que, de surpresa, me arrebatou mais uma vez: com ele, sobre uma esp\u00e9cie de transposi\u00e7\u00e3o compositiva, ou conjun\u00e7\u00e3o disjuntiva, consegui, por fim, dar a ver ao menos um rascunho de mapa que, qui\u00e7\u00e1, poder\u00e1 nos levar \u00e0 um territ\u00f3rio no qual colheremos, em futuro pr\u00f3ximo, a mat\u00e9ria necess\u00e1ria para modular essa ci\u00eancia de fins pr\u00e1ticos \u2014 para que ela desnude as coisas de todas as imagens que se projetam sobre elas, com tecnologias que nos possibilitem perceber, e com sorte compreender, as improvisa\u00e7\u00f5es vitais das quais s\u00e3o feitas as coisas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se do conto O espelho, de Guimar\u00e3es Rosa. Narro-lhe, ent\u00e3o, o que vem sendo motivo e ao mesmo tempo objeto da especula\u00e7\u00e3o. Fa\u00e7o-o pondo em jogo fragmentos de O espelho \u00a0e Tratado de Nomadologia: observe, contudo, que esses fragmentos, por mais estranho que possa parecer, s\u00e3o meus pr\u00f3prios pensamentos que s\u00f3 puderam ganhar forma no encontro com os textos, e se encaixaram perfeitamente nos excertos que, se naqueles corpos tinha uma sentido, aqui tomam outros \u2014 e, mais do que isso, s\u00e3o as pr\u00f3prias pe\u00e7as que possibilitam a maquina\u00e7\u00e3o do pensar, que n\u00e3o \u00e9, com efeito, de minha propriedade (nem as pe\u00e7as, nem a maquina\u00e7\u00e3o em si).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois bem, n\u00e3o me leve \u00e0 mal, n\u00e3o \u00e9 que me sinta incapaz, mas se \u00e9 o caso de ser a vida que nos improvisa o tempo todo (se emergimos do Nada, por improvisa\u00e7\u00f5es compositivas n\u00e3o-humanas, eis o ponto da minha interroga\u00e7\u00e3o), s\u00f3 nos cabe uma alian\u00e7a coletiva, uma vez que, somente eventualmente na hist\u00f3ria, um ou outro de n\u00f3s consegue olha para fora do palco no qual somos o teatro, e assim sacar, ou intuir, \u00edndices do <em>modus operandis <\/em>da dramaturgia por detr\u00e1s das manifesta\u00e7\u00f5es nas quais somos imagens, tanto quanto uma coisa det\u00e9m as suas, e as palavras. Minha hip\u00f3tese \u00e9, assim, mais impertinente, a de ao olhar para esse \u201cfora\u201d (que pode muito bem ser um dentro), nada ver\u00edamos que tivesse um rosto, se n\u00e3o uma maquina\u00e7\u00e3o regida pelo acaso, uma complexa articula\u00e7\u00e3o de micro-improvisa\u00e7\u00f5es; mas feitas do que? De Nada?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A t\u00edtulo de organiza\u00e7\u00e3o deste relato dividi tal prospec\u00e7\u00e3o em quatro pontos; ap\u00f3s, deixo as consequ\u00eancia \u00e0 voc\u00ea, cujo a correspond\u00eancia espero possa lan\u00e7ar mais luz nesse breu (no qual pouco vejo, mas muito percebo; e, sem vis\u00e3o suficiente, pouco posso fazer com a claridade excessiva das palavras). Dos pontos, ent\u00e3o: a quest\u00e3o, empecilhos <em>\u00e0 priori<\/em>, experimentos, dificuldades encontradas, devaneios conclusivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/108-03-01-2019\/\"><code>Seguir para a pr\u00f3xima nota<\/code><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltar para nota anterior Notas que apontam para esta: [110] PARA UMA CI\u00caNCIA Se quer seguir-me, narro-lhe; n\u00e3o os resultados de uma pesquisa, que almejaria qualquer tipo de conclus\u00e3o, mas a recorrente prospec\u00e7\u00e3o, mais forte do que eu, acerca de uma suposta ci\u00eancia, a qual, por meio de experimentos, especulo por uma constitui\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. 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