{"id":985,"date":"2019-03-08T21:40:12","date_gmt":"2019-03-08T21:40:12","guid":{"rendered":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/?page_id=985"},"modified":"2019-06-27T21:02:19","modified_gmt":"2019-06-27T21:02:19","slug":"108-03-01-2019","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/108-03-01-2019\/","title":{"rendered":"[108] 03\/01\/2019"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/107-28-02-2019-01-03-2019\/\"><code>Voltar para nota anterior<\/code><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O objeto desta Ci\u00eancia da Imprevis\u00e3o (outro nome poss\u00edvel para Ci\u00eancia N\u00f4made do Improviso) \u00e9 O informe: ou seja, o que \u00e9 da ordem do sens\u00edvel (s\u00f3 percebido via afec\u00e7\u00f5es); se visto do ponto de vista da f\u00edsica: \u00e9 energia, movimento; logo, mesmo que seja evidente, \u00e9 preciso refor\u00e7ar, \u00e9 a-significante. Da\u00ed o paroxismo desta ci\u00eancia: ela estuda o que n\u00e3o tem sentido e, somente nesses termos: tudo que passa para o \u00e2mbito da linguagem j\u00e1 n\u00e3o lhe interessa e est\u00e1 fora do seu dom\u00ednio! Assim, jamais se esque\u00e7a: \u201c\u00e9 de fen\u00f4menos sutis que estamos tratando\u201d (ROSA, 2005, p.114).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fa\u00e7amos uma distin\u00e7\u00e3o em quatro t\u00f3picos, de modo a dar a ver \u201cas caracter\u00edsticas de uma tal ci\u00eancia exc\u00eantrica\u201d (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p.25). Portanto,<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">seriam as seguintes: 1) Teria inicialmente um modelo hidr\u00e1ulico, ao inv\u00e9s de uma teoria dos s\u00f3lidos, que considera os flu\u00eddos como um caso particular; com efeito, o atomismo antigo \u00e9 indissoci\u00e1vel dos fluxos, o fluxo \u00e9 a realidade mesma ou a consist\u00eancia. 2) \u00c9 um modelo de devir e heterogeinidade que se op\u00f5e ao est\u00e1vel, ao eterno, ao id\u00eantico, ao constante. \u00c9 um \u201cparadoxo\u201d, fazer do pr\u00f3prio devir um modelo, e n\u00e3o mais o car\u00e1ter segundo de uma c\u00f3pia. [&#8230;] 3) J\u00e1 n\u00e3o se vai da reta a suas paralelas, num escoamento lamelar ou laminar, mas da declina\u00e7\u00e3o curvil\u00ednea \u00e0 forma\u00e7\u00e3o das espirais e turbilh\u00f5es sobre um plano inclinado. [&#8230;] O modelo \u00e9 turbilhionar, num espa\u00e7o aberto onde as coisas-fluxo se distribuem, em vez de distribuir num espa\u00e7o fechado para cosas lineares e s\u00f3lidas. \u00a0\u00c9 a diferen\u00e7a entre um espa\u00e7o <em>liso <\/em>(vetorial, projetivo ou topol\u00f3gico) e um espa\u00e7o <em>estriado <\/em>(m\u00e9trico): num caso, \u201cocupa-se o espa\u00e7o sem medi-lo\u201d, no outro, \u201cmede-se o espa\u00e7o a fim de ocup\u00e1-lo\u201d. 4) Por \u00faltimo, o modelo \u00e9 problem\u00e1tico, e n\u00e3o mais teorem\u00e1tico: as figuras s\u00f3 s\u00e3o consideradas em fun\u00e7\u00e3o das <em>afec\u00e7\u00f5es <\/em>que lhes acontecem, sec\u00e7\u00f5es, abla\u00e7\u00f5es, adjun\u00e7\u00f5es, proje\u00e7\u00f5es. [&#8230;] H\u00e1 a\u00ed toda sorte de deforma\u00e7\u00f5es, transmuta\u00e7\u00f5es, passagens ao limite, opera\u00e7\u00f5es onde cada figura designa um \u201cacontecimento\u201d muito mais que uma ess\u00eancia (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p.26).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">EMPEC\u00cdLHOS <em>\u00c0 PRIORI<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa ci\u00eancia precisa, portanto, lidar primeiro com algumas resist\u00eancia inerentes ao humano que nos constitui: se imposs\u00edvel destituir sua presen\u00e7a, pretende-se ao menos desviar-se ao p\u00f4-lo em jogo. Pois, a come\u00e7ar que os<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">[&#8230;] pr\u00f3prios olhos, de cada um de n\u00f3s, padecem vicia\u00e7\u00e3o de origem, defeitos com que cresceram. [&#8230;] Os olhos, por enquanto, s\u00e3o a porta do engano; duvide deles, dos seus, n\u00e3o de mim. Ah, meu amigo, a esp\u00e9cie humana peleja para impor ao latente mundo um pouco de rotina e l\u00f3gica, mas algo ou algu\u00e9m de tudo faz frincha para rir-se da gente&#8230; E ent\u00e3o? (ROSA, 2005, p.114).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, se por um lado temos um corpo organizado \u2014 ou melhor, for\u00e7as que produzem a organiza\u00e7\u00e3o dos corpos, donde desponta uma vis\u00e3o sedenta por encontrar sentidos, padr\u00f5es, ritmos e formas, corpo que assim se habitua ou busca habituar-se, esse mesmo corpo \u00e9 atravessado por for\u00e7as outras, e \u00e9 por elas desterritorializado; assim:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">[&#8230;] os sentimentos s\u00e3o arrancados \u00e0 interioridade de um \u201csujeito\u201d para serem violentamente projetados num meio de pura exterioridade que lhes comunica uma velocidade inveross\u00edmil, uma for\u00e7a de catapulta: amor ou \u00f3dio j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o em absoluto sentimentos, mas afectos. E esses afectos s\u00e3o outros tantos devir-mulher, devir-animal do guerreiro (o urso, as cadelas). Os afectos atravessam o corpo como flechas, s\u00e3o armas de guerra. Velocidade de desterritorializa\u00e7\u00e3o do afecto (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p.18).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois, vejamos: se os afectos s\u00e3o armas de guerra, no sentido que, ao atravessar o sujeito que nos constitui \u2014 deveras humano e, assim, se n\u00e3o um inimigo ao menos uma esp\u00e9cie de oponente que resiste ao nosso m\u00e9todo cient\u00edfico experimental \u2014, precisamos criar condi\u00e7\u00f5es para nos expor, para sermos afectados tanto quanto poss\u00edvel, e devir-outro (mas que seja um devir minorit\u00e1rio); esse devir-outro pode significar um encontro com um eu submerso sobre o humano, como um pr\u00e9-individual: um devir-animal guerreiro, podemos considerar que a\u00ed em nosso corpo resida \u2014 ou que a partir dele, com outras mat\u00e9rias-for\u00e7as, possa se compor e transformar. Assim, desde o problema da vis\u00e3o, sobre nossa imagem refletida no espelho (no gesto cotidiano de mirar-se), adentrando aos poucos na mais sutil percep\u00e7\u00e3o de si, procura-se (a espreita de uma vers\u00e3o imprevista de si, aquela que a vida improvisa a cada instante e que buscamos encontrar, via experimentos):<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a\u00ed, comecei a procurar-me \u2014 ao eu por detr\u00e1s de mim \u2014 \u00e0 tona dos espelhos, em sua lisa, \u00a0funda l\u00e2mina, em seu lume frio. Isso, que eu saiba, antes ningu\u00e9m tentara. Quem se olha em espelho, o faz partindo de preconceito afetivo, de um mais ou menos falaz pressuposto (ROSA, 2006, p.116).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">EXPERIMENTOS<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim passamos a relatar os experimentos ao qual adentramos, os quais associamos \u00e0 essa ci\u00eancia que \u00e9 objeto de nossa especula\u00e7\u00e3o: pois, lidar com a imprevis\u00e3o, ao menos de in\u00edcio, demanda esfor\u00e7ados experimentos ext\u00e1ticos, que nos desloque, por mil\u00edmetros que seja, da nossa condi\u00e7\u00e3o humana. Cabe considerar que, nesse momento, eu estava j\u00e1 tomado pela possibilidade de um devir-animal guerreiro: primeiro, pela suposi\u00e7\u00e3o humana do guerreiro, composta sobre a imagem do animal; segundo, que o guerreiro necessita de um desapego, de um tens\u00e3o descontra\u00edda para empreender um golpe preciso, ou o desvio de um ataque improv\u00e1vel; ele n\u00e3o pode se agarrar a uma imagem de si, humana, familiar, sentimental, pois ela lhe instituiria um medo da morte, e esse medo lhe retiraria a aten\u00e7\u00e3o, reduzindo a efic\u00e1cia de suas habilidades \u2014 que passariam a buscar a sobreviv\u00eancia, quando elas precisam da a\u00e7\u00e3o imediata, desprovida de qualquer objetivo externo a si, externo a a\u00e7\u00e3o em si, pois a pr\u00e9-ocupa\u00e7\u00e3o lhe reduz a velocidade. Tendo essas possibilidades em mente, passei a experimentar, sobre as intemp\u00e9ries do dia, ao acaso, com um golpes precisos (ao menos com esse objetivo), algo que pudesse me servir de \u00edndice para provar o que, constatado, seria o solo inabal\u00e1vel desta ci\u00eancia: que Eu mesmo era imprevisto para mim! Ora, pois, conquistado este feito, tendo-o como um fato dado, toda a realidade aparente seria coloca em d\u00favida, t\u00e3o logo o observador emerge a cada instante, do Nada, em cada mirada, e de maneira imprevista. Assim,<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">operava com toda a sorte de ast\u00facias: o rapid\u00edssimo relance, os golpes de esguelha, a longa obliquidade apurada, as contra-surpresas, a finta de p\u00e1lpebras, a tocaia com a luz de-repente acesa, os \u00e2ngulos variados incessantemente. Sobretudo, uma inabal\u00e1vel paci\u00eancia (ROSA, 2005, p.116).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou afirmando, como pode ver, o estudo de coisas-fluxo: da\u00ed resulta sua principal dificuldade, pois que a ci\u00eancia, em geral, necessita de um objeto de estudo, e uma coisa-fluxo, embora coisa, \u00e9, sobretudo, fluxo \u2014 ou seja, materialmente falando, um n\u00e3o-objeto; me fa\u00e7o entender? Vejamos:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Husserl fala de uma protogeometria que se dirigiria a ess\u00eancias morfologicamente <em>vagas<\/em>, isto \u00e9, vagabundas ou n\u00f4mades. Essas ess\u00eancias se distinguiriam das coisas sens\u00edveis, mas igualmente das ess\u00eancias ideais, r\u00e9gias, imperiais. A ci\u00eancia que dela trataria, a protogeometria, seria ela mesma vaga, no sentido de vagabunda: nem inexata como as coisas sens\u00edveis, nem exata como as ess\u00eancias ideais, por\u00e9m <em>anexata e contudo rigorosa. <\/em>(DELEUZE; GUATTARI, 1997, p.34).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por suposto, para tratar desta Ci\u00eancia da Imprevis\u00e3o, desde a ess\u00eancia das coisas que seriam, em suas primeiras apari\u00e7\u00f5es, ou no n\u00edvel molecular, n\u00f4mades, <em>vagas<\/em>, vagabundas, rebatemos nossa ideia de uma ci\u00eancia exc\u00eantrica sobre a imagem da Ci\u00eancia Moderna, a ci\u00eancia do Estado, a ci\u00eancia do Humano: se estou, por essa via, me colocando numa esp\u00e9cie de combate com o humano \u00e9 em favor do corpo \u2014 o corpo habitado pela ideia, pelo modo humano de ser, digamos, mas que \u00e9 anterior e posterior ao humano. Estudar essas ess\u00eancias vagas \u2014 noutras palavras, o informe que nos constitui e ganha forma regido pelo antropocentrismo caracter\u00edstico da modernidade, feito \u00e0 sua imagem \u2014 \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para perceber o corpo em sua complexidade: o ante-humano! Coisas-corpo, considero, ou corpos-coisa: \u201cdir-se-ia que as ess\u00eancias vagas extraem das coisas uma determina\u00e7\u00e3o que \u00e9 mais que a coisidade, \u00e9 a da <em>corporeidade<\/em>, e que talvez at\u00e9 implique um esp\u00edrito do corpo\u201d (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p.35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso n\u00e3o ver o que est\u00e1 ali, no sentido do que revemos por suposi\u00e7\u00e3o, e ver o que n\u00e3o est\u00e1, no sentido de que n\u00e3o vemos por n\u00e3o ser esperado. Paradoxal? Por suposto, os n\u00e3o-sentidos s\u00e3o mat\u00e9ria nobre (ou n\u00e3o-mat\u00e9ria) do m\u00e9todo que estamos \u00e0 inventar! Quando ao espelho, ent\u00e3o, \u201cera principalmente no <em>modus <\/em>de focar, na vis\u00e3o parcialmente alheada, que eu tinha de agilitar-me: olhar n\u00e3o-vendo\u201d (ROSA, 2005, p.117). \u00c9 importante que \u201csaiba que eu perseguia uma realidade experimental, n\u00e3o uma hip\u00f3tese imagin\u00e1ria\u201d (ROSA, 2005, p.117). O que buscamos s\u00e3o rastros, pela car\u00e1ter sutil do nosso \u201cobjeto\u201d, assim:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 n\u00e3o se trata exatamente de extrair constantes a partir de vari\u00e1veis, por\u00e9m de colocar as pr\u00f3prias vari\u00e1veis em estado de varia\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. Se h\u00e1 ainda equa\u00e7\u00f5es, s\u00e3o adequa\u00e7\u00f5es, inequa\u00e7\u00f5es, equa\u00e7\u00f5es diferenciais irredut\u00edveis \u00e0 forma alg\u00e9brica, e insepar\u00e1veis por sua vez de uma intui\u00e7\u00e3o sens\u00edvel da varia\u00e7\u00e3o. Captam ou determinam singularidades da mat\u00e9ria em vez de constituir uma forma geral. Operam individua\u00e7\u00f5es por acontecimentos ou hecceidades, e n\u00e3o por \u201cobjeto\u201d como composto de mat\u00e9ria e de forma; as ess\u00eancias vagas n\u00e3o s\u00e3o sen\u00e3o hecceidades (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p.38).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">DIFICULDADES ENCONTRADAS<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas dificuldades n\u00e3o s\u00e3o, sen\u00e3o, o reaparecimento insistente do que definimos como empecilhos <em>\u00e0 priori<\/em>: do nosso olho que v\u00ea em excesso, salta de um cabe\u00e7\u00e3o pesado, que mira e diz: \u00e9 isso, \u00e9 isso, \u00e9 isso! Agimos, ademais, pautados por uma moral (parte significativa do peso desta cabe\u00e7a), e n\u00e3o tarda a nos questionarmos, insens\u00edveis ao avan\u00e7os feitos em nossos experimentos, sobre os sentidos dessa busca, de qu\u00e3o absurda ela \u00e9: mas \u00e9 isso, meu amigo, \u00e9 isso a exist\u00eancia, A-B-S-U-R-D-A! Ela n\u00e3o te ouve, por isso n\u00e3o responde: tal como o espelho, que reflete o que pensamos ver, ouvimos o que dizemos: mas entre a fala e o eco esquecemo-nos a origem do som. Queremos tudo controlar: a forma \u00e9 consequ\u00eancia da nossa express\u00e3o, do que expressamos, n\u00e3o h\u00e1 exist\u00eancias pr\u00e9vias \u00e0 nossa a\u00e7\u00e3o no mundo: h\u00e1, contudo, coisas que ali est\u00e3o, claro, mas supondo que a exist\u00eancia n\u00e3o se d\u00e1 alheia aos sentidos no coexistir, \u00e9 o humano que faz as combina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Projetava assim essas quest\u00f5es no entorno da imagem de mim mesmo, no espelho, por uma reflex\u00e3o cada vez mais lacunar, por tra\u00e7os imprevistos, detalhes n\u00e3o antes inclu\u00eddos na minha fei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o suficiente sempre estarem ali.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prossegui. J\u00e1 a\u00ed, por\u00e9m, decidindo-me tratar simultaneamente as outras componentes, contingentes e ilusivas. Assim, o elemento heredit\u00e1rio \u2014 as parecen\u00e7as com pais e av\u00f3s \u2014 que s\u00e3o tamb\u00e9m, em nossos rostos, um lastro evolutivo residual. Ah, meu amigo, nem no ovo o pinto est\u00e1 intacto. E, em seguida, o que se deveria ao cont\u00e1gio das paix\u00f5es, manifestas ou latentes, o que ressaltava das desordenadas press\u00f5es psicol\u00f3gicas transit\u00f3rias. E, ainda, o que em nossas caras, materializa ideias e sugest\u00f5es de outrem; e os ef\u00eameros interesses, sem sequ\u00eancia nem anteced\u00eancia, sem conex\u00f5es nem fundura (ROSA, 2005, p.118).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segui nesses experimentos. Passo ent\u00e3o para o quarto e \u00faltimo ponto, mas sobre ele lhe pe\u00e7o uma mente de principiante, como se n\u00e3o tivesse a m\u00ednima ideia da medida do poss\u00edvel \u2014 que, por suposto, eu diria, n\u00e3o sabemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DEVANEIOS CONCLUSIVOS<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em dado momento de meus experimentos, como por esgotamento, ou habilidade adquirida, conquistei um modo de olhar que por pequenos instantes n\u00e3o via; n\u00e3o posso convenc\u00ea-lo, nem a mim, de n\u00e3o se tratar de um efeito fisiol\u00f3gico, da vista cansada, ou mesmo da press\u00e3o sangu\u00ednea reduzida e seus efeitos de embotamento mental; mas, lembremos que n\u00e3o estamos operando sobre o bin\u00f4mio causa-efeito, donde o que nos importa s\u00e3o os acontecimentos: \u00e9 disso que se trata a Ci\u00eancia da Imprevis\u00e3o, de acontecimentos puros, no instante em que surgem do Nada, e que aparecem sem sentido. Assim o fiz.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto dito que, partindo para uma figura gradualmente simplificada, despojara-me, ao termo, at\u00e9 a total desfigura. E a terr\u00edvel conclus\u00e3o: n\u00e3o haveria em mim uma exist\u00eancia central, pessoal, aut\u00f4noma? Seria eu um&#8230; des-almado? Ent\u00e3o, o que se me fingia de um suposto <em>eu<\/em>, n\u00e3o era mais que, sobre a persist\u00eancia do animal, um pouco de heran\u00e7a, de soltos instintos, energia passional estranha, um entrecruzar-se de influ\u00eancias, e tudo o mais que na imperman\u00eancia se indefine? Diziam-me isso os raios luminosos e a face vazia do espelho \u2014 com rigorosa infidelidade. E, seria assim, com todos? Ser\u00edamos n\u00e3o mais que as crian\u00e7as \u2014 o esp\u00edrito do viver n\u00e3o passando de \u00edmpetos espasm\u00f3dicos, relampejos entre miragens: a esperan\u00e7a e a mem\u00f3ria \u00a0(ROSA, 2005, p.119).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo, destes experimentos denotam a possibilidade de desdobrar o que pens\u00e1vamos (mas talvez a manifesta\u00e7\u00e3o at\u00e9 aqui n\u00e3o tenha ficado clara o suficiente): trata-se de considerar que sob um espa\u00e7o estriado (o da cidade, por exemplo), h\u00e1 um espa\u00e7o liso, tal como h\u00e1, sob a face uma massa, somente uma massa modulada, e sua consequente topologia: \u00e9 a nossa tend\u00eancia adquirida por ver buracos, e depois tubos, e depois medidas e \u00f3rg\u00e3os e fun\u00e7\u00f5es, etc., que produz o espa\u00e7o estriado sobre uma pele continua, ainda que feita de dobras \u2014 mas uma dobra n\u00e3o \u00e9 uma reparti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um campo, um espa\u00e7o liso heterog\u00eaneo, esposa um tipo muito particular de multiplicidades: as multiplicidades n\u00e3o m\u00e9tricas, acentradas, rizom\u00e1ticas, que ocupam o espa\u00e7o sem \u201cmedi-lo\u201d, e que s\u00f3 se pode explorar \u201cavan\u00e7ando progressivamente\u201d. N\u00e3o respondem \u00e0 condi\u00e7\u00e3o visual de poderem ser observadas desde um ponto no espa\u00e7o exterior a elas: por exemplo, o sistema do sons, ou mesmo das cores (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p.40).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o podem ser observadas, essas multiplicidades, de um ponto exterior, \u00e9 preciso, pois, entrar no jogo, sentir na pele, ocupar-se do espa\u00e7o: n\u00e3o se trata de ver, mas de perceber, notar pela pele (que de alguma maneira registra esses acontecimentos, como se anotasse os efeitos dessas afec\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora podemos ver com um pouco mais de clareza \u2014 veja como sua presen\u00e7a me motiva! \u2014 que essa ci\u00eancia que propomos, a Ci\u00eancia da Imprevis\u00e3o, ou uma Ci\u00eancia N\u00f4made do Improviso, n\u00e3o pode, nem quer, instituir-se de um modo definitivo, n\u00e3o quer inserir-se no quadro contempor\u00e2neo das ci\u00eancia (a n\u00e3o ser que seja no limiar onde esse quadro perde a forma, se encontra com outras coisas&#8230;): seria, ent\u00e3o o caso de definirmos como uma Filosofia da Imprevis\u00e3o? Tampouco importa, estamos numa zona onde conceitos e fun\u00e7\u00f5es se confundem, \u00e9 podem ganhar facilmente \u2014 sem perde de for\u00e7a para o pensar \u2014 em fic\u00e7\u00e3o: mas n\u00e3o podemos esquecer que seguimos uma realidade experimental, e n\u00e3o uma abstra\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria! De todo modo, considerar o \u201cfato de que, nas ci\u00eancias ambulantes ou n\u00f4mades, a ci\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 destinada a tomar um poder e nem sequer um desenvolvimento aut\u00f4nomos\u201d (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p.44).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse modo, nossa ci\u00eancia funciona por alian\u00e7as, uma vez que n\u00e3o pode resolver os problemas que inventa, pois seu interesse est\u00e1 em inventar outros problemas ali onde aquele parece se esgotar; precisa assim das ci\u00eancias de estado, precisa, por consequ\u00eancia, da dimens\u00e3o uma que colocamos em cheque: precisamos de uma dimens\u00e3o ante-humano para essa Ci\u00eancia da Imprevis\u00e3o, mas avan\u00e7amos ao humano, e aos artif\u00edcios da linguagem para tratar de solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No campo da intera\u00e7\u00e3o das duas ci\u00eancias, as ci\u00eancias ambulantes contentam-se em <em>inventar problemas<\/em>, cuja solu\u00e7\u00e3o remeteria a todo um conjunto de atividades coletivas e n\u00e3o cient\u00edficas, mas cuja <em>solu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica <\/em>depende, ao contr\u00e1rio, da ci\u00eancia r\u00e9gia, e da maneira pela qual esta ci\u00eancia de in\u00edcio transformou o problema, incluindo-o em seu aparelho teorem\u00e1tico e em sua organiza\u00e7\u00e3o do trabalho. Um pouco como a intui\u00e7\u00e3o e a intelig\u00eancia segundo Bergson, onde s\u00f3 a intelig\u00eancia possui os meios cient\u00edficos para resolver formalmente os problemas que a intui\u00e7\u00e3o coloca, mas que esta se contentaria em confiar \u00e0s atividades qualitativas de uma humanidade que <em>seguisse <\/em>a mat\u00e9ria&#8230; (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p.45).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea conhece minha rela\u00e7\u00e3o com a doc\u00eancia e na articula\u00e7\u00e3o desta com a pesquisa: de considerar que, de certo modo, uma n\u00e3o se faz sem a outra \u2014 quer seja pela potencia presumida no seguir pesquisando mat\u00e9rias para o ensino, quer seja tomar o espa\u00e7o de educa\u00e7\u00e3o como uma alian\u00e7a de pesquisas (o que me interessa sobre maneira) ou, no m\u00ednimo, que o docente que repete o que sabe, s\u00f3 pode porque outrora pesquisou. Digo isso para lembrar que, embora em busca de uma ci\u00eancia, a quest\u00e3o centra que guia esta excurs\u00e3o est\u00e1 no entorno da Educa\u00e7\u00e3o: ou seja, de instituir uma ci\u00eancia na qual, por meio do estudo de um \u201cobjeto\u201d, estude-se a si mesmo, pois destitu\u00eddo do lugar de sujeito do conhecimento, onde o eu passa a ser mat\u00e9ria tamb\u00e9m de estudo, de pesquisa \u2014 e por meio desta alquimia, numa mistura de elementos da ci\u00eancia, filosofia e arte, se constitui os saberes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Ci\u00eancia da Imprevis\u00e3o, tendo em vista a pesquisa-doc\u00eancia, opera pela intui\u00e7\u00e3o, resiste, em princ\u00edpio, aos art\u00edfices da intelig\u00eancia, busca seguir as for\u00e7as e se afectar por elas. Combate o humano em si, resiste a ele e, por meio dele, ao signo: n\u00e3o os nega, mas \u00e9 ativo para com as for\u00e7as, em detrimento das formas; \u00e9 n\u00f4made, ambulante, itinerante, vagabundo. Na articula\u00e7\u00e3o desta intui\u00e7\u00e3o com a intelig\u00eancia, nos translado (e no limiar sempre presente) do ante-humano ao humano, uma forma \u00e9 dada ao material, uma mat\u00e9ria \u00e9 composta com as coisas-fluxos: esse processo tenho chamado de Po\u00e9ticas da Nota\u00e7\u00e3o. Todavia, para essa po\u00e9tica deter for\u00e7a, o pesquisador-docente precisa primeiro da imprevis\u00e3o experimental, para esquecer de si, se jogar na pesquisa, no labirinto, ludibriar as certezas, fissurar a logosfera, contornar o abismo, e entrela\u00e7ar, com as afec\u00e7\u00f5es desses processos a-significantes, numa transposi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, sua mat\u00e9ria de estudo: que ent\u00e3o \u00e9 arquivada, organizada, ficando \u00e0 postos para futuras composi\u00e7\u00f5es inventivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre essa maneira po\u00e9tica de lidar com os ind\u00edcios coletados dos experimentos, com o que resta das experimenta\u00e7\u00f5es ext\u00e1ticas do qual lhe falava, poder\u00e1 avaliar por conta pr\u00f3pria, <a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/maquinacao-para-uma-invencionatica\/\">num texto que produzi anteriormente<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/109-05-03-2019\/\"><code>Seguir para a pr\u00f3xima nota<\/code><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltar para nota anterior O objeto desta Ci\u00eancia da Imprevis\u00e3o (outro nome poss\u00edvel para Ci\u00eancia N\u00f4made do Improviso) \u00e9 O informe: ou seja, o que \u00e9 da ordem do sens\u00edvel (s\u00f3 percebido via afec\u00e7\u00f5es); se visto do ponto de vista da f\u00edsica: \u00e9 energia, movimento; logo, mesmo que seja evidente, \u00e9 preciso refor\u00e7ar, \u00e9 a-significante. 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