{"id":991,"date":"2019-03-08T21:48:05","date_gmt":"2019-03-08T21:48:05","guid":{"rendered":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/?page_id=991"},"modified":"2019-06-27T21:29:36","modified_gmt":"2019-06-27T21:29:36","slug":"110-06-03-2019","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/110-06-03-2019\/","title":{"rendered":"[110] 06\/03\/2019"},"content":{"rendered":"<p><code><a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/109-05-03-2019\/\">Voltar para nota anterior<\/a><\/code><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo <a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/107-28-02-2019-01-03-2019\/\">nossa excurs\u00e3o<\/a>, de Deleuze e Guattari, pelo interesse numa Ci\u00eancia Menor, que possa seguir os fluxos, que possa seguir, inclusive, e no extremo, o intang\u00edvel \u2014 o que n\u00e3o significa, inintelig\u00edvel \u2014 chegamos \u00e0 Bergson, mais precisamente pela rela\u00e7\u00e3o entre intui\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia, apontada no excerto do Tratado de Nomadologia, o qual utilizamos ao final de nota anterior. Passamos ent\u00e3o, no nosso pr\u00f3prio exerc\u00edcio de seguir, pelos rastros de um fil\u00f3sofo ao outro, aos problemas que nossa pr\u00f3pria intui\u00e7\u00e3o coloca: e que a intelig\u00eancia e seus artif\u00edcios \u2014 entre os quais esse Bloco de Notas em uma estrat\u00e9gia que estamos elaborando no entorno da ideia de uma Po\u00e9tica da Nota\u00e7\u00e3o \u2014 formalizam respostas poss\u00edveis. Faremos ent\u00e3o algumas anota\u00e7\u00f5es sobre a introdu\u00e7\u00e3o do livro <em>A Evolu\u00e7\u00e3o Criadora<\/em>, as quais desdobram nossa ideia acerca de uma Ci\u00eancia N\u00f4made do Improviso, ou Ci\u00eancia da Imprevis\u00e3o. Sobre a intelig\u00eancia, ent\u00e3o<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veremos que a intelig\u00eancia humana se sente em casa enquanto for deixada entre os objetos inertes, mais especialmente entre os s\u00f3lidos, nos quais nossa a\u00e7\u00e3o encontra seu ponto de apoio e nossa ind\u00fastria seus instrumentos de trabalho, veremos que nossos conceitos foram formados a imagem dos s\u00f3lidos, que nossa 1\u00f3gica \u00e9 sobretudo a l\u00f3gica dos s\u00f3lidos, e que, por isso mesmo, nossa intelig\u00eancia triunfa na geometria, na qual se revela o parentesco do pensamento l\u00f3gico com a mat\u00e9ria inerte e na qual basta a intelig\u00eancia seguir seu movimento natural, ap\u00f3s o mais leve contato poss\u00edvel com a experi\u00eancia, para ir de descoberta em descoberta com a certeza de que a experi\u00eancia segue logo atr\u00e1s dela e lhe dar\u00e1 invariavelmente raz\u00e3o (BERGSON, 2005, p.9).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo, acerca da totalidade da vida, para al\u00e9m dos s\u00f3lidos, ou da nossa l\u00f3gica dos s\u00f3lidos, Bergson continua (2005, p.10): \u201cnenhuma das categorias de nosso pensamento, unidade, multiplicidade, causalidade mecanica, finalidade inteligente, etc., se aplica de forma exata as coisas da vida\u201d. \u00a0Na sequ\u00eancia, aponta uma cr\u00edtica ao que, nos termos de Deleuze, aparece enquanto o pensamento da representa\u00e7\u00e3o, e, logo, afirma a contempla\u00e7\u00e3o do improv\u00e1vel que emerge nos avan\u00e7os cient\u00edficos:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em v\u00e3o empurramos o vivo para dentro de tal ou tal de nossos quadros. Todos os quadros estouram. S\u00e3o estreitos demais, sobretudo, r\u00edgidos demais, para aquilo que gostar\u00edamos de colocar neles. Nosso racioc\u00ednio, ali\u00e1s, t\u00e3o seguro de si quando circula em meio \u00e0s coisas inertes, sente-se pouco \u00e0 vontade nesse novo terreno. Seria muito dif\u00edcil citar uma \u00fanica descoberta biol\u00f3gica que se deva ao puro racioc\u00ednio. E, o mais das vezes, quando a experiencia finalmente nos mostra como a vida procede para obter um certo resultado, descobrimos que seu modo de operar e precisamente aquele no qual nunca ter\u00edamos pensado (BERGSON, 2005, p.10).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, numa cr\u00edtica \u00e0 filosofia evolucionista da \u00e9poca, mas da qual podemos encontrar ind\u00edcios no pensamento presente, em nosso caso, da Educa\u00e7\u00e3o, afirma:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7ara por nos mostrar na intelig\u00eancia um efeito local da evolu\u00e7\u00e3o, uma pequena luz, talvez acidental, que ilumina o vai-e-vem dos seres vivos na estreita passagem franqueada a sua a\u00e7\u00e3o: e eis que, de repente, esquecendo o que acaba de nos dizer, transforma essa lanterna manobrada no fundo de um subterr\u00e2neo em um Sol que iluminaria o mundo. Intrepidamente, apenas com as for\u00e7as do pensamento conceitual, lan\u00e7a-se na reconstru\u00e7\u00e3o ideal de todas as coisas, at\u00e9 mesmo da vida (BERGSON, 2005, p.11).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Disso ele descreve que, ap\u00f3s muito tempo de orgulho, esse pensamento, em seu decurso, ao ver a l\u00f3gica encontrar diversos obst\u00e1culos, e contradizer-se, acaba por recuar, e postar-se sobre um \u201cexcesso de humildade\u201d, ao concluir: \u201ca ess\u00eancia das coisas nos escapa e sempre nos escapara, movemo-nos em meio a rela\u00e7\u00f5es, o absoluto n\u00e3o \u00e9 de nossa al\u00e7ada, detenhamo-nos frente ao Incognosc\u00edvel\u201d, e que, portanto, \u201cn\u00e3o e mais a pr\u00f3pria realidade, diz ela, que ir\u00e1 recompor, mas apenas uma imita\u00e7\u00e3o do real, ou antes uma imagem simb\u00f3lica\u201d (BERGSON, 2005, p.11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bergson, contudo, n\u00e3o est\u00e1 de acordo com essa postura, com uma conclus\u00e3o de que a realidade s\u00f3 pode ser simbolizada, ou que a mimese, seria nosso recurso derradeiro frente a algo que seria inacess\u00edvel: ora, pois, ser incognosc\u00edvel, n\u00e3o significa, inacess\u00edvel, uma vez que n\u00e3o \u00e9 somente pela cogni\u00e7\u00e3o que acessamos a \u201cess\u00eancia\u201d das coisas: e da\u00ed sua conclus\u00e3o, como veremos, pela intui\u00e7\u00e3o. Seguimos sua argumenta\u00e7\u00e3o: a de que a a\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode agir no irreal, logo nosso corpo foi constitu\u00eddo num corpo-a-corpo com o real; que nossa forma intelectual, assim, se moldou em reciprocidade com seu entorno material; ele diz, contudo, que at\u00e9 poderia aceitar que um ser, que nasce para especular, imaginar, sonhar, inventa-se sua pr\u00f3pria realidade, mas resta que detemos uma intelig\u00eancia que age sobre as coisas, logo, \u00e9 uma intelig\u00eancia (logo um corpo, digo eu) que toca algo do absoluto; ele afirma, ent\u00e3o, que n\u00e3o ter\u00edamos colocado em d\u00favida esse valor absoluto de nosso conhecimento, se a filosofia n\u00e3o tivesse apontado contradi\u00e7\u00f5es em nossa especula\u00e7\u00e3o, mas, tal como sugere, essas contradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o postas em cena a partir de um conhecimento intelectual n\u00e3o orientado para este \u201cabsoluto\u201d, e sim para a \u201cmat\u00e9ria inerte\u201d \u2014 seria, as supostas contradi\u00e7\u00f5es destas especula\u00e7\u00f5es no entorno do absoluto, um falso problema, n doos termos que Deleuze nos apresenta no primeiro cap\u00edtulo do livro <em>Bergsonismo.<\/em> E, ent\u00e3o, pergunta (e tal pergunta pode ser tomada como um fragmento precioso para nossa disserta\u00e7\u00e3o no entorno do improviso, da improvisa\u00e7\u00e3o e, nesse exerc\u00edcio atual, de uma ci\u00eancia da imprevis\u00e3o):<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caberia ent\u00e3o renunciar a aprofundar a natureza da vida? Caberia ater-se a representa\u00e7\u00e3o mecanicista que o entendimento sempre nos dar\u00e1 dela, representa\u00e7\u00e3o necessariamente artificial e simb\u00f3lica, uma vez que restringe a atividade total da vida a forma de uma certa atividade humana, a qual n\u00e3o \u00e9 mais que uma manifesta\u00e7\u00e3o parcial e local da vida, um efeito ou um res\u00edduo da opera\u00e7\u00e3o vital? (BERGSON, 2005, p.12).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito, sugere que a intelig\u00eancia precisa fusionar com outras capacidades da consci\u00eancia (e pergunto: ou inconscientes?), que os humanos<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">desenvolveram-se outras formas da consci\u00eancia, que n\u00e3o souberam libertar-se das amarras exteriores nem reconquistar-se a si mesmas, como o fez a intelig\u00eancia humana, mas que nem por isso exprimem menos, elas tamb\u00e9m, algo de imanente e essencial ao movimento evolutivo. Aproximando-as umas das outras, fazendo-as fusionar em seguida com a intelig\u00eancia, acaso n\u00e3o obter\u00edamos, desta vez, uma consci\u00eancia co-extensiva \u00e0 vida e capaz de, voltando-se bruscamente contra o impulso vital que sente atr\u00e1s de si, obter dele uma vis\u00e3o integral, ainda que sem d\u00favida evanescente? (BERGSON, 2005, p.13).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda, ao que defendem a supremacia da intelig\u00eancia, afirma:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">E teriam raz\u00e3o em diz\u00ea-lo, caso f\u00f4ssemos puras intelig\u00eancias, caso n\u00e3o houvesse sobrado, em volta de nosso pensamento conceitual e l\u00f3gico, uma nebulosidade vaga, feita da subst\u00e2ncia mesma \u00e0s expensas da qual se formou o n\u00facleo luminoso que chamamos de intelig\u00eancia. Ali residem determinadas pot\u00eancias complementares ao entendimento, pot\u00eancias de que s\u00f3 temos um sentimento confuso quando permanecemos fechados em n\u00f3s, mas que ir\u00e3o esclarecer-se e distinguir-se quando se perceberem a si pr\u00f3prias em a\u00e7\u00e3o, para assim dizer, na evolu\u00e7\u00e3o da natureza. Aprender\u00e3o assim que esfor\u00e7o precisam empenhar para intensificar-se e para dilatar-se no sentido mesmo da vida. (BERGSON, 2005, p.13).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas pot\u00eancias supomos ser acessadas em improvisa\u00e7\u00e3o, ao modo do que estamos propondo, de uma a\u00e7\u00e3o imediata, que corta o tempo, que comp\u00f5e, media, sem ju\u00edzo concomitante, e evitando o ju\u00edzo pr\u00e9vio; ser for feita de intelig\u00eancia a improvisa\u00e7\u00e3o, ela \u00e9 de outro tipo, se afasta um tanto do pensamento l\u00f3gico, da racionalidade: ao menos no primeiro momento, j\u00e1 que estamos tomando a improvisa\u00e7\u00e3o pelo exerc\u00edcios de, inclusive, desviar do movimento mais \u00f3bvio (tens\u00e3o da mem\u00f3ria) em dire\u00e7\u00e3o ao improv\u00e1vel (e por a\u00ed a proposta de um M\u00e9todo Labir\u00edntico, bem como de uma Po\u00e9tica da Nota\u00e7\u00e3o Esquizogr\u00e1fica). Essas \u201cpot\u00eancias de que s\u00f3 temos um sentimento confuso\u201d, acreditamos, ou pretendemos, criar condi\u00e7\u00f5es de possibilidade, em jogos de imprevisibilidade para que, ao reduzir a ag\u00eancia da raz\u00e3o, possam ganhar espa\u00e7o e se manifestar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ademais, Bergson segue fazendo um paralelo entre teoria da conhecimento e teoria da vida, para as quais faremos aqui, sobre nossa responsabilidade, uma rela\u00e7\u00e3o com a Ci\u00eancia de Estado e a Ci\u00eancia N\u00f4made; e assim, tamb\u00e9m, entre intelig\u00eancia e intui\u00e7\u00e3o (ou ainda outras faculdades); propondo que estas duas teorias trabalhem juntas, vejamos:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que equivale a dizer que a teoria do conhecimento e a teoria da vida nos parecem insepar\u00e1veis uma da outra. Uma teoria da vida que n\u00e3o vem acompanhada de uma cr\u00edtica do conhecimento \u00e9 fadada a aceitar, tais e quais, os conceitos que o entendimento p\u00f5e a sua disposi\u00e7\u00e3o: n\u00e3o pode fazer mais que encerrar os fatos, por bem ou por mal, em quadros preexistentes que ela considera como definitivos. Obt\u00e9m assim um simbolismo c\u00f4modo, talvez mesmo necess\u00e1ria \u00e0 ci\u00eancia positiva, mas n\u00e3o uma vis\u00e3o direta de seu objeto. Por outro lado, uma teoria do conhecimento que n\u00e3o reinsere a intelig\u00eancia na evolu\u00e7\u00e3o geral da vida n\u00e3o nos ensinara nem como os quadros do conhecimento se constitu\u00edram, nem como podemos ampli\u00e1-los ou ultrapass\u00e1-los. \u00c9 preciso que essas duas investiga\u00e7\u00f5es, teoria do conhecimento e teoria da vida, se encontrem e, por um processo circular, se impulsionem uma a outra indefinidamente (BERGSON, 2005, p.14).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por essa via podemos desdobrar nossa ideia acerca de uma Ci\u00eancia N\u00f4made do Improviso, ou Ci\u00eancia da Imprevis\u00e3o, al\u00e9m da ideia sobre um Corpo Potencial e, da pesquisa-improvisa\u00e7\u00e3o, num quebra-cabe\u00e7a que ainda precisamos resolver.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/111-14-04-2019\/\"><code>Seguir para a pr\u00f3xima nota<\/code><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltar para nota anterior Seguindo nossa excurs\u00e3o, de Deleuze e Guattari, pelo interesse numa Ci\u00eancia Menor, que possa seguir os fluxos, que possa seguir, inclusive, e no extremo, o intang\u00edvel \u2014 o que n\u00e3o significa, inintelig\u00edvel \u2014 chegamos \u00e0 Bergson, mais precisamente pela rela\u00e7\u00e3o entre intui\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia, apontada no excerto do Tratado de Nomadologia, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-991","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/991","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=991"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/991\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1143,"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/991\/revisions\/1143"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diegoesteves.in\/estudos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=991"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}