Quem é eu?
Desde muito tempo atrás, Eu questiona-se sobre o eu. Quando mudou-se do interior para a capital do estado, esse incômodo mais ainda o incomodou.
Na capital ninguém conhecia Eu. Ali, uma das ideias sedutoras foi a de mudar seu próprio nome, ou dar-se o apelido que quisesse: a partir dali Eu seria outro eu.
Numa cidade tão grande, Eu era nada. Era ninguém para todos. Podia então ser qualquer alguém.
Na cidade onde passou infância e adolescência, Eu era ele para os outros, um ele-eu específico, não mais podia ser outro. Ao chegar na capital, era ninguém.
A constituição do eu tem a ver com a fronteira?

Eu, numa manhã qualquer, oito anos após chegar nesta capital, iniciou um texto para registrar um esboço de uma teoria que acaba de emergir da análise de uma lembrança de sua infância. Na pré-escola sentia medo, chorava. Aos seis anos já sabia que homem não chora, mesmo assim chorava. Sentia-se angustiado naquela pequena sala, com tantos outros parecidos com ele, mas com os quais não se identificava. Resistia a se relacionar com os meninos, não se acomodava com os modos de ser, nem com o futebol, nem com as brincadeiras de lutinha. Na impossibilidade de ficar só, muitas vezes se aproximava das meninas, era tudo mais calmo, sentia-se menos tenso.
No primeiro recreio nem jogou futebol, nem pulou corda. Ficou sentado num canto, ao observar os dois grupos, alheio ao convite da professora para se misturar.
Essa teoria versa sobre a possibilidade de Eu ter desenvolvido tardiamente um senso de si que consolidasse um eu definido e coerente. Sempre teve muitas dúvidas, dificuldade de estar aqui e não lá, de ser vermelho e se diferenciar do azul, de ser isso e não aquilo. De ter tido dificuldade, e mesmo resistido, ao longo de seus 31 anos, a juntar-se a um ou outro grupo de eus.
Conclui ser fruto da ignorância a defesa de uma opinião. Conclui haver uma excessiva falta de nós, quando se aponta o outro-não-eu. Conclui ser fruto do medo, a afirmativa “eu sou!”. Além de ser redundante. Seria possível conjugar “eu nós!”?

Eu, excessivamente tímido até sua adolescência, passa, aos poucos, a descobrir que possui uma energia positiva, passa a confiar nela, passa a confiar em si, a consolidar seu eu. Eu se torna professor, educador físico, artista, coordenador, administrador, diretor. Eu continua a não se identificar com os grupos de eus. Eu, num primeiro momento orgulhoso desses títulos, passe a incomodar-se, mais. Voltou a sentir o aperto da pequena sala.
Eu acredita, com muita convicção, que os eus são transportes. Que servem para carregar e compartilhar, que servem para construir. Eu imaginou, no momento mesmo em que escrevia o texto, eus-caminhões: transportando ideias, sentimentos, matérias – carregando energias das mais variadas. Corpos disponíveis a trabalhar por algo muito maior do que eles mesmos. A obra é muito mais importante que o caminhão. O caminhão enferruja, quebra, morre…
Eu continua sentindo-se na pequena sala tentando relacionar-se com os eus.
Sente que tem eus demais nos espaços. Sente que, em muitas casos, os caminhos estão parados, os motoristas discutindo, e toda uma potência se perdendo – porque os caminhões servem para transportar e construir!
Percebe outros tantos caminhões sem direção: não sabem o que nem para onde carregar, não sabem em qual obra se engajar, onde somar.
Outros caminhões estão tão cheios de si mesmo que não cabe mais nada.
Outros tão preocupados com sua beleza, que não querem se sujar com as coisas, com a terra. Muitas vezes a beleza é a sujeira. A terra nunca é sujeira.
Eu percebe-se apontando outros eus em seu texto. Eu quer ser menos eu.
Eu anda pensando que a constituição do eu tem a ver com a fronteira, está em busca da fronteira que precisa atravessar.
Eu para de escrever, continua a buscar.
