Eu eu e eu

Barthes, Barthes…

Sim. E eu, sujeito do enunciado, que tanto pensa em estraçalhar no texto o eu, que pensa em fazer do texto algo menos eu, e mais outra coisa, nesses dias, por todas voltas e reviravoltas, ando meio em torno do meu umbigo: para onde ele vai? Nada tão egocêntrico, quanto introspectivo. Qual é mesmo a diferença?

A escritura faz do saber uma festa. Fato. E no escrever, jogo na tela o que me incomoda, assim posso olhá-lo de longe. E ele a mim. E me rever. Transver. Careço de análises mais elaboradas, mas no momento é uma questão de visibilidades: primeiro por a prova, para depois provar. Há aí um divertido jogo!

Mas devo dizer que é tudo um grande exagero. Pois sim.

e fechando a trilogia Barthesiana…

Segundo o discurso da ciência – ou segundo certo discurso da ciência – o saber é um enunciado; na escritura, ele é uma enunciação. O enunciado, o objeto habitual da linguística, é dado como o produto de uma ausência do enunciador. A enunciação, por sua vez, expondo o lugar e a energia do sujeito, quiça sua falta (que não é sua ausência), visa o próprio real da linguagem; ela reconhece que a língua é um imenso halo de implicações, de efeitos, de repercussões, de voltas, de rodeios, de redentes; ela assume o fazer ouvir um sujeito ao mesmo tempo insistente e insituável, desconhecido e no entanto reconhecido segundo uma inquietante familiaridade: as palavras não são mais concebidas ilusoriamente como simples instrumentos, são lançadas como projeções, explosões, vibrações, maquinarias, sabores: a escritura faz do saber uma festa.

Barthes. Aula.

Meu corpo é bem mais velho do que eu

… Meu corpo é bem mais velho do que eu, como se conservássemos sempre a idade dos medos sociais com os quais o acaso da vida nos pôs em contato. Portanto, se quero viver, devo esquecer que meu corpo é histórico, devo lançar-me na ilusão de que sou contemporâneo dos jovens corpos presentes, e não de meu próprio corpo, passado. Em síntese; periodicamente, devo renascer, fazer-me mais jovem do que sou…

Barthes. Aula.

Sapientia!!!

Empreendo, pois, o deixar-me levar pela força de toda a vida viva: o esquecimento. Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar. Vem talvez agora a idade de uma outra experiência, a de desaprender, de deixar trabalhar o remanejamento imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes, das culturas, das crenças que atravessamos. Essa experiência tem, creio eu, um nome ilustre e fora de moda, que ousarei tomar aqui sem complexo, na própria encruzilhada de sua etimologia: Sapientia: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível.

Roland Barthes. Aula. Editora Cultrix, São Paulo: 2007.

Sei não

Pegue um liquidificador, jogue dentro: pensamentos e sentimentos, lembranças e memórias, atitudes e comportamentos, certezas e dúvidas, caminhos e trajetos, concentração e dispersão. O que acontece?

Não sei.

Quantas vezes perder-se, para encontrar-se? É possível se perder, já estando perdido? É possível se encontrar, sem ter se perdido? Possível nunca se perder?

Não sei.

Tudo que sei, é que o que sei, anda meio duvidoso. Mais fácil no momento fazer perguntas e frases meio que desconexas. Assumir. Deito na rede do tempo, logo algo deve acontecer. Ou caminho? Sei não, sei não.

Esquecimento

Se a cada passo tudo muda, se a cada mudança nada fica, se a cada vez somos outros, o que resta? Nem restos?

Vida louca, vida…

Já foi dito da importância do esquecimento. Dou pleno acordo. Mas apenas se o esquecimento for parte de uma recomposição: se esquece algo, para depois reencontrá-lo com outro sabor. Ou seja, esquece, mas não joga fora. Se assim fosse voltaríamos ao zero, sempre. Não é. Esquece, mas continua por ali. Já encontrou um dinheiro num bolso que era pra estar vazio?

Quase uma teoria da reciclagem.

Alegria, alegria!

Vida breve… Já que eu não posso, te levar, quero que você me leve.

Tauá

Chegado de viagem, coisas muitas para resolver. Pouco tempo para escrever. Em três dias outra viagem. A próxima: Belo Horizonte – Minas Gerais para o Festival Mundial de Circo do Brasil. A anterior: Tauá – Ceará para o IV Festival dos Inhamuns – Circo, Bonecos e Artes de Rua, com o Circo Girassol.

Mesmo com todos os compromisso por resolver antes da próxima viagem, faço um esforço para registrar o que trago de Tauá, antes que por um ou outro motivo algo se perca. Sempre procuro tempo e paciência para escrever, não é este agora o caso. Mas é o que tenho, e temos o que temos. Redundância necessária: uma auto-afirmação que assume o limite atual para agir, mas com multiplas possibilidades. Acontecimentos muito mais velozes que minha capacidade de pensá-los. Tento ao menos senti-los.

Tauá
Cidade de muitos gatos
Muitos sapos
Muriçocas
Potós
Motos acrobáticas sem capacetes
Paus- de- arara
Cidade pequena
Quente
Não tão quente, não tão pequena
Cidade de casinhas a beira da calçada
Cidade de gente
Para onde levamos nossa arte
Nosso corpo, nosso ser
De onde trazemos
Alegria, carinho, paciência
Generosidade, atenção, força
Tudo dentro de uma grande mala
Atrás do nariz de palhaço: saudade
Por tudo, figurino, corpo: saudade
Mas também muita alegria
Energia renovada
E por entre acrobacias, equilíbrios e malabarismos
A vontade de continuar levando a nossa arte onde o povo está

Tanta coisa para escrever… Mas os dedos não recebem informações conexas, lógicas.
Frases soltas…
Dispersão…

Felicidade: viajar, conhecer pessoas, se perceber importante para elas, se ver motivando outras com o que faz.

Quatorze dias de convivência.
Viajamos para ensinar com oficinas, para apresentar nosso espetáculo. Mas fomos acolhidos de tal forma, que mal sabíamos como agir. O carinho e a atenção das pessoas, em alguns momentos me deixavam constrangido, como dizendo em silêncio: eu não mereço tanto. Simultaneamente alegre, por estar realizando está troca: de carinho, de sotaques, de cultura, de experiências, de arte, de energia.

Trago-me outro do sertão. A seca floresceu em mim flores, quem sabe frutos, que nem sei bem, mas sei. Obrigado Tauá.

p.s.: das citações abaixo anteriores.
A da onça cantávamos durante a oficina dramaturgia do palhaço, com Luíz Carlos Vaconcelos, o palhaço Xuxu.
A do Tumtumtum é parte da coreografia da quadrilha do Grupo Flor do Mandacarú.
Da oficina: novas idéias e a motivação para pesquisar mais o universo do palhaço.
Da quadrilha: a energia, a raça de um grupo unido em prol de uma tradição, de uma arte, de um amor.

Talvez mais tarde escrevo um pouco sobre cada um desses encontros marcantes.