Travessia, travesso, travessura

Estou a reler todos os textos aqui postados. Pode até parecer que gosto demais de mim mesmo a ponto de querer me reler todinho, mas o fato é que é desta noção de coesão, de unicidade, de coerência que quero tratar: uma vez que não sou mais eu, o que escreveu e o que lê – e certamente o que, no futuro, relerá. Muito na travessia muda. Aliás, e de acordo com a canção, tudo muda o tempo tooodo no muuuuuuuuundu.

Bueno, estou a ler, reler, na expectativa de encontrar elos, guias, direcionamentos, como que, a partir desses textos possa construir um mapa e deste avançar para novos horizontes. Acabei de ler um “Textinho acalma-mãe”, onde cito a citação que usei enquanto orador em minha formatura, de Guimarães Rosa: o mais importante não é nem a partida, nem a chegada, e sim, a travessia.

Continuo de acordo comigo mesmo, ainda que outro agora seja. Acontece que dessa travessia já estou um tanto cansado. Suas águas, seus ares, suas terras, já não provocam os mesmos afetos, suas ondas, ventos, topografia, fluxos, já não me movimentam tanto. E a pergunta que jaz aqui é: o problema está no meio? Está na troca? No fato de eu, já tendo me apropriado, devido ao tempo, das materiais presentes nesse local, não ser mais motivado por ele? Ou num possível fato de eu ter engessado a minha sensibilidade, e de, também, ter dado peso demais a mim mesmo – já não atravesso com tanta desenvoltura, pois passei a carregar coisas demais…

Querido diário….

Sigo na leitura, numa possível construção desse mapa: num retorno, para tornar, para vir a ser. Que seja mais leve. Que siga a travessia, essa ou outras, mais travesso, com mais travessura, que siga, mais.

Sobre a referida referência:

“E pra terminar, vou lembrar a frase com a qual iniciei o meu discurso de orador, no momento da minha formatura no curso de Educação Física, esse momento em que você ficou tão feliz, mesmo sabendo não ser esta uma profissão tão promissora. Mal sabia você que além de educador físico, eu optaria por ser uma artista. Caiu o mundo. Disse Guimarães Rosa, mais ou menos assim: o mais importante não é nem a partida, nem a chegada, e sim, a travessia.
Pois estou em plena travessia: ora caminhando, ora correndo, ora saltando, ora malabariando, ora dançando, ora escrevendo, ora chorando, ora dormindo, ora ensinado, ora rindo, ora me pendurando, vivendo… E a chegada? Quem chega é entregador de pizza, carteiro, corredor de maratona, bebê, ou dor de cabeça, mas eu sou é artista.”
http://diegoesteves.in/escritos/2009/04/18/textinho-acalma-mae/