Uma questão central.

Não é o desprezo o estimulante mais eficaz da criatividae, pois obriga o indivíduo a superar a si mesmo, pelo receio de se assemelhar ao que é vergonhoso e medíocre? Ora, ensina Zaratustra, “o que há de mais desprezível no mundo” é “o Último Homem”- o homem aviltado, sem fibra e subjugado que, frente à catastrofe da morte de Deus, escolhe se atolar no pântano da “felicidade”; em suma, o homem que se julga esperto porque prefere fruir mesquinhamente em vez de combater heroicamente.(…) Adivinha-se a receita dessa felicidade: a eliminação engenhosamente programada de tudo o que, na realidade, é fonte de conflitos, de lutas, de tensão- e, portanto, de superação. Trata-se de reduzir a existência humana a uma sonolência prazerosa e ininterrupta, a uma iresponsabilidade contente. Reconhece-se aí o ideal da “sociedade de consumo” moderna, versão técnica e publicitária do niilismo passivo.

Trecho do livro Nietzsche – Autor: Jean Granier.

Uma dúvida cruel

Você está num show, intimista, em pé, próximo ao palco, pessoas conhecidas, copo na mão. A música termina, boa música, o copo não. Os aplausos, o copo na mão. Duas mãos, um copo. Como resolver a equação? Duas mãos são necessárias para aplaudir: o copo não pode estar ali. As opções vão passando pela sua cabeça enquanto as mãos estão a beira de um ataque de nervos: você pode fingir que aplaude, acompanhando o ritmo dos demais, mas o músico é seu amigo e ele merece aplausos verdadeiros. Você pode também usar mão e o ante-braço, mas isso não é um aplauso verdadeiro: nem som quase tem. Pode ainda soltar aqueles gritinhos do tipo: uhuuu, isso aí! (correndo o risco de te olharem dizendo: uhuu?!) Ou pôr o copo na cabeça e aplaudir. Ou ainda, lançar o copo para cima (isso caso esteja vazio), aplaudir, e pega-lo novamente. Ou jogá-lo para cima cheio mesmo, mantendo a boca para cima o tempo todo, ou bebendo o líquido na caída, já fora do copo (mas aí Macgyver, você pede os aplauso para si!). Prender o copo entre o ombro e a cabeça, entre o braço e o tronco, ou entre as pernas (mas se derramar neste local complicaria a sua imagem). Morder o copo, aceitando o risco dos cortes na boca, caso quebre. Correr até a mesa mais próxima, deixar o copo e aplaudir. Aplaudir juntando sua mão livre com o vizinho do lado que, disfarçadamente, busca solucionar o mesmo dilema. Pedir para que o vizinho segure o seu copo com a outra mão: assim pelo menos um pode aplaudir (injusto, mas o mundo é assim mesmo). Ou pode ainda… tarde demais, começou a outra música!

Sei cá

Azul da cor do sol.
Como a cor do ar, que sopra em direção a lua, enquanto ela para.
Parada como o coração.
O sangue que circula, em linha, movente.
Os olhos que vêem, entre a pele que sofre.
Entre o sentido que grita.
Que sorri, ao ver o sol.
Quem sabe a chuva.
Que sentem o vento, como a lua, mas não param, se fecham,
Porque só a lua é forte para suportar o vento, parada.

Fazendo

A empolgação que se faz fazendo. O feito que se fez repetindo. Repetindo, repetindo, até ficar diferente. A diferença que se percebe na sensibilidade, exercitada na repetição. Tudo se repete e não se repete.

Caminhamos todos os dias, mas nunca pelos mesmos lugares. Porque mesmo que seja o mesmo nome de rua, ela já mudou de um dia para o outro, de um segundo para o outro.

Assim é com o corpo. Assim é conosco. Assim é. Mas perceber essa diferença é um exercício de repetição. Só passando muitas vezes pela mesma rua, para poder conhecê-la tão bem, que possa se perceber o que mudou, de um dia para o outro, de um momento para o outro.

Quando se sente empolgado com uma coisa que você já fez muitas vezes, pode ser porque agora percebe diferença, fruto do fazer. Isso se for algo que se faz por vontade por desejo. Isso é estudo. O ser que não desiste ante as primeiras dificuldades, que se permite tentar, errar e acertar num fazer, qualquer que seja, corre o risco de descobrir neste fazer coisas que os demais nem se quer imaginam.

A TERRA

Penso na troca de favores que se estabelece; no mutualismo; no amparo que as espécies se dão. Nas descargas de ajudas; no equilíbrio que ali se completa entre os rascunhos da vida dos seres minúsculos. Entre os corpos truncados. As teias ainda sem aranha. Os olhos ainda sem luz. As penas sem movimento. Os remendos de vermes. Os bulbos de cobras. Arquétipos de carunchos.

Manoel de Barros. Pantanal.

Retorno

Freqüentemente me reporto a imagem de um retorno ante a si: ao que sé é, ao que se foi, ao como se sente, se percebe, e se percebe pelos outros, ou de quais são esses mecanismos que, talvez ao modo de um espelho, nos aponto uma determinada forma de ser e estar consigo e com os outros no mundo.

Penso em um retorno, que não se distancia do eterno retorno de Nietzsche, mas que também não o é. Retorno: tornar-se a si, não bem como um espelho, por sua carência de perspectiva, mas como um espírito que sobrevoa o corpo, mas o corpo ainda em vida. Ou a exemplo da ficção em filmes como “De volta para o futuro”, onde pode se encontrar em um dado momento histórico e se observar.

A brevidade desta questão nos incursos de meus pensamentos e estudos não permitiram um estratificação de possibilidades e formas, mas uma solta análise do possível. Das mais consistentes, no sentido do estudo, está a arte, como possibilidade deste retorno. Como a crítica que põe em crise este ser no encontro com a arte. Como o riso, que do outro, com o outro, enquanto ri de si. Mas outras formas também são elaboradas de acordo com o seu campo de estudo, na psicologia, ou na fisioterapia, entre outros, de acordo com seu plano de imanência.

Plano de imanência, Deleuze e Guattari, O que é a Filosofia?

A filosofia também pensa esse retorno. Talvez seja este o tema mais recorrente, o motivo da filosofia ser filosofia: as inquietações ante o mundo, mas principalmente ante a si, pois o mundo passa por si antes de ser mundo.

Mas de alguma forma, me parece que este retorno, na psicologia, fisioterapia, filosofia, ou outros campos de estudo, buscam uma neutralidade, transpondo este retorno não a si, mas ao outro, como um exemplar humano, que incluiria também a si. Se estuda, se pensa, se analisa o outro, mas com um distanciamento que não toca diretamente a si, a não ser num segundo momento, quando se pensa as teorias e suas implicações sobre si.

Este retorno que penso, não se daria sem um soco na boca do estômago, ou uma rasteira num tombo de muito mal jeito. Não seria sem uma falta momentânea de ar, até quase o desmaio. Não seria se não algo intenso, como uma tal desestabilização do ser, que se não levasse a loucura, o levaria para um outro plano, não necessariamente mais superior, mas, no mínimo, mais intenso. Com a intensidade do olhar no olho, da pele com a pele, do corpo-a-corpo: mas trata-se do mesmo corpo. Era esse risco da loucura, que fazia com que os personagens do filme não se permitissem encontrar consigo, no passado ou futuro.

Continuo com a arte, continuo tendo nela uma forma desse retorno. Mas também penso no oriente, na meditação. Como também não descarto os alucinógenos, as drogas, embora esses possam levar a uma desterritorialização tão intensa, que não permita um resto de terra, onde se reconstruir, se territorializar depois. Um queda demasiado grande, onde se desceria em termos intensivos ou energético, em potência, após o efeito desse agente externo.

Voltar-se-para não implica somente se desviar, mas enfrentar, voltar-se, retornar, perder-se, apagar-se. (Deleuze e Guattari, O que é a Filosofia? P. 55)