Eu, agora eu não

Recorre em vontades excluir esses textos. Muito pessoal, muito eu. Ocorre também de me dizer: coisa de quem tinha 24, 25, deixa estar, aceita o processo, as imperfeições, cada vez mais visíveis, menos perfeito, muito mais torto. Aceita que dói menos.

Tudo bem, agora, aos 33 você já não fala tanto de si, está cada vez mais ciente e crítico da cultura do eu – hoje destacada nos selfies. 

Você está cada vez mais próximo de um pensamento do fora, você está estudando: 

“O escritor é aquele que pertence ao exílio, não apenas por estar fora do mundo, mas também por se colocar fora de si.”*

Você está. So que não.

E toma tempo escrevendo isso. E registra, provavelmente para si mesmo, essa agudeza, essa angústia de querer sair e estar tão dentro. Tanto eu.

Um dia ainda vou embora e não volto mais. Me encontrarão vazio de mim.
* A experiência do fora. Blanchot, Foucault e Deleuze

Um primeiro experimento para um possível projeto experimental

Experimentar é diferente de provar.
Provar é degustar. Provar é trazer pra si algo de fora e testar seu sabor, seu saber.
Experimentar é sair de si, é inventar novos sabores, é criar novos saberes.
Experimentar é estar na zona do inominável. Provar é agregar um nome a mais na sua experiência.
Provar é desafiante, experimentar é transgressor, é transbordante.
Para experimentar é preciso sair do eixo, perder o eixo, desequilibrar-se.
Experimentar é se tornar excêntrico, sair do centro.
É cruzar a linha.
É perder a linha.
Ser experimental, ser marginal, estar à margem, atravessar as margens.
Renomear as bordas, abordar, desbordar, transbordar.
Por fora da forma, em torno das formas.
Revendo as formas, disformando, informando, criando.
Transformar.
Movimento em potência multidirecional.
Corpo desafiado em sua razão, corpo em emoção.
Afetos, percepções, ações, fluxos.
Em torno da mente, dentro e fora. Com a mente.
Intensamente.
Desordenadamente.
Confiadamente.
Ligeiramente.
Calmamente.
Forçosamente.
Flexivelmente.
Paradoxalmente.
Sem estar pronto. Mas sempre preparado.
Para sempre inacabado.
Sempre experimentando.
À beira da morte. Do sim e do não. Do certo e errado. Do começo e do fim. Entre. Entre algos.
Criando, inventando, testando, contatando, informando, desdobrando,  desformando, alegrando, potencializando.
Um modo de vida, uma vida modando-se.
Moldando-se ao sem forma, ao não formado, sem molde.
Tente, teste, troque-se, mude. Movimente-se.
Experimente.
Experimente.
Experimente.
Experimente.
Experimente
Experimentar é portanto transformar-se.
É atitude constante de abertura às possibilidades.
É agregar, é conhecer, apreender, e por isso crescer, aumentar-se.
Mas é também diminuir-se, para caber nos espaços, para tornar-se coisa-menos-eu-ego.
É transpessoal.
É trânsito, é processo, é ir-e-vir, mas sempre continuar.
É devir.
Técnicas como ferramentas, como suporte.
O jogo entre intuição e razão, entre sensação, sentido e informação.
O jogo entre dentro o fora. E uma margem em movimento.
Um flerte com o caos. Uma dança.
Não pense demais. Faça.
Operar por fora, por reflexo.
Ainda, projetar, organizar-se para desordenar, para fluir.
Dentro e fora, e no entorno. Tornar-se. Sempre.
Redundância diferencial.
Experimental.
Experimentação.
#Experimente.
Porto Alegre, 25 de maio de 2016.

Sobre ser inacabado, e criar

Pensar em viver a vida como uma obra de arte.
Quando eu crio?
Crio quando sou afetado por algo. Há então um sentimento de falta, sentido como um problema, ou mesmo uma curiosidade por algo. Preciso apreender esse algo. Preciso me ampliar, crescer, transbordar. Há uma lacuna entre onde estou e onde posso estar. É como se esse afeto viesse de lá, do depois, de algum lugar onde seja possível estar, de outra forma, com outros saberes, estados, sabores. Para chegar lá, não posso mais ser o mesmo, sou outro, um outro talhado por mim mesmo – esse mim que já então deixou de existir. De lá, do depois, novos afetos, novos processos, fluxos – criações para dar conta do ser, da vida: sempre inacabado, até a morte.

Precisão

Sinto muito

Você não é tão forte quanto pensa ser

Não é tão forte quanto quer ser

Quanto precisa aparentar ser

Não precisa aparentar ser

Existe muita força em não ser forte

Em não precisar ser forte

Muita precisão existe

Em deixar ir

 

Sinto muito

Você não pode fazer mais

Do que pensa que pode

Não pense que pode

Pode não pensar que pode

Não deixe de confiar

Nem de estar atento ao que sente

Mas não projete expectativas

Elas acabam com o presente

Quando vivenciado no futuro

 

Sinto muito

Sinto mesmo

Com pesar

Com dificuldade

Sinto sentir

Dói ser isso

Uma coisa qualquer

Nesse mundo

Como qualquer outra coisa

Luto para não ser qualquer coisa

Preciso sentir o luto

É preciso

Ser qualquer coisa, aceitar ser qualquer coisa

Qualquer coisa é tão importante

Quanto o todo

E o todo é

Eu sou

 

Sinto muito

É preciso,

Deixar sentir

Não pensar, nesse sentir

Sentir, e deixar

As coisas vão se acomodando

Fazendo sentido

No tempo do tempo

Não tente apressar

Não é possível

Qualquer resultado deste esforço

Será ilusão

O esforço correto

Está em não se esforçar

Em, atento

Deixar que o fluxo siga seu curso

E ser um atento observador

Que capta o que seu corpo é capaz

E que se capacita

Enquanto se esforça para não se esforçar

E segue

Com o fluxo

 

Sinto muito

Essa luta é longa

Vencer

Também é perder

E a luta não tem fim

Ela começa e termina

Mas nunca tem fim

Vencer é perder, sem nunca parar de lutar

 

Sinto

Uma questão central.

Não é o desprezo o estimulante mais eficaz da criatividae, pois obriga o indivíduo a superar a si mesmo, pelo receio de se assemelhar ao que é vergonhoso e medíocre? Ora, ensina Zaratustra, “o que há de mais desprezível no mundo” é “o Último Homem”- o homem aviltado, sem fibra e subjugado que, frente à catastrofe da morte de Deus, escolhe se atolar no pântano da “felicidade”; em suma, o homem que se julga esperto porque prefere fruir mesquinhamente em vez de combater heroicamente.(…) Adivinha-se a receita dessa felicidade: a eliminação engenhosamente programada de tudo o que, na realidade, é fonte de conflitos, de lutas, de tensão- e, portanto, de superação. Trata-se de reduzir a existência humana a uma sonolência prazerosa e ininterrupta, a uma iresponsabilidade contente. Reconhece-se aí o ideal da “sociedade de consumo” moderna, versão técnica e publicitária do niilismo passivo.

Trecho do livro Nietzsche – Autor: Jean Granier.

Uma dúvida cruel

Você está num show, intimista, em pé, próximo ao palco, pessoas conhecidas, copo na mão. A música termina, boa música, o copo não. Os aplausos, o copo na mão. Duas mãos, um copo. Como resolver a equação? Duas mãos são necessárias para aplaudir: o copo não pode estar ali. As opções vão passando pela sua cabeça enquanto as mãos estão a beira de um ataque de nervos: você pode fingir que aplaude, acompanhando o ritmo dos demais, mas o músico é seu amigo e ele merece aplausos verdadeiros. Você pode também usar mão e o ante-braço, mas isso não é um aplauso verdadeiro: nem som quase tem. Pode ainda soltar aqueles gritinhos do tipo: uhuuu, isso aí! (correndo o risco de te olharem dizendo: uhuu?!) Ou pôr o copo na cabeça e aplaudir. Ou ainda, lançar o copo para cima (isso caso esteja vazio), aplaudir, e pega-lo novamente. Ou jogá-lo para cima cheio mesmo, mantendo a boca para cima o tempo todo, ou bebendo o líquido na caída, já fora do copo (mas aí Macgyver, você pede os aplauso para si!). Prender o copo entre o ombro e a cabeça, entre o braço e o tronco, ou entre as pernas (mas se derramar neste local complicaria a sua imagem). Morder o copo, aceitando o risco dos cortes na boca, caso quebre. Correr até a mesa mais próxima, deixar o copo e aplaudir. Aplaudir juntando sua mão livre com o vizinho do lado que, disfarçadamente, busca solucionar o mesmo dilema. Pedir para que o vizinho segure o seu copo com a outra mão: assim pelo menos um pode aplaudir (injusto, mas o mundo é assim mesmo). Ou pode ainda… tarde demais, começou a outra música!

Sei cá

Azul da cor do sol.
Como a cor do ar, que sopra em direção a lua, enquanto ela para.
Parada como o coração.
O sangue que circula, em linha, movente.
Os olhos que vêem, entre a pele que sofre.
Entre o sentido que grita.
Que sorri, ao ver o sol.
Quem sabe a chuva.
Que sentem o vento, como a lua, mas não param, se fecham,
Porque só a lua é forte para suportar o vento, parada.