Nas minhas pesquisas encontrei um livro sobre sintomas e diagnósticos de psicopatologia e tive receio de abri-lo: não pela possibilidade de encontrar ali sintomas que poderia identificar como próprios do meu cotidiano (pois isso me parece inevitável), mas pelo risco de ser coagido por tais palavras: pois se eu abrir um livro de poesia encontro ali os mesmos “sintomas”, e prefiro ver a paixão pela perspectiva da potência.
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Dragões
Sobre o que cai bem num dia como esse, com a chuva: ficar na caverna do dragão.
“Como poderíamos esquecer aqueles antigos mitos que se encontram nos primórdios de todos os povos, os mitos sobre os dragões que, no último momento, transformam-se em princesas; talvez todos os dragões da nossa vida sejam princesas, que só esperam nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo terror não passe, em última instância, do desamparo que requer nossa ajuda”. Rilke, Cartas a um jovem poeta.
7 pontos sobre uma corrida
Preciso confessar uma coisa (para mim mesmo, e vocês são testemunhas): sou como aqueles corredores entusiasmados que, ao enxergar a linha de chegada, projetam seu peito a frente, em postura vigorosa, sem mensurar as forças das pernas que, já cansadas do longo percurso, titubeiam e, incapazes da mesma determinação e vontade da cabeça, levam todo o corpo em queda ao solo.
A essa imagem é preciso acrescentar que: 1- esse não é o primeiro tombo; 2- não sei o que essa linha de chegada pode significar e qual a distância que estou de fato dela (uma vez que ela parece avançar junto com os meus passos); 3-provavelmente, enquanto se está a ler essas linhas, eu já levantei e estou a correr novamente; 4- que talvez eu esteja a pensar demais, quando parece que o que importa (para quem?) é a corrida; 5- (com cara de conclusão) pensar é resistir; 6- (em tom profético) é preciso variar, experimentar, e encontrar seus próprios ritmos; 7- (em tom sobre tom) mas que diabos eu tô pensando mesmo (e fazendo)?
Melhor a dor do que adormecer
Eu, agora eu não
Recorre em vontades excluir esses textos. Muito pessoal, muito eu. Ocorre também de me dizer: coisa de quem tinha 24, 25, deixa estar, aceita o processo, as imperfeições, cada vez mais visíveis, menos perfeito, muito mais torto. Aceita que dói menos.
Tudo bem, agora, aos 33 você já não fala tanto de si, está cada vez mais ciente e crítico da cultura do eu – hoje destacada nos selfies.
Você está cada vez mais próximo de um pensamento do fora, você está estudando:
“O escritor é aquele que pertence ao exílio, não apenas por estar fora do mundo, mas também por se colocar fora de si.”*
Você está. So que não.
E toma tempo escrevendo isso. E registra, provavelmente para si mesmo, essa agudeza, essa angústia de querer sair e estar tão dentro. Tanto eu.
Um dia ainda vou embora e não volto mais. Me encontrarão vazio de mim.
* A experiência do fora. Blanchot, Foucault e Deleuze
Um primeiro experimento para um possível projeto experimental
Sobre ser inacabado, e criar
Precisão
Sinto muito
Você não é tão forte quanto pensa ser
Não é tão forte quanto quer ser
Quanto precisa aparentar ser
Não precisa aparentar ser
Existe muita força em não ser forte
Em não precisar ser forte
Muita precisão existe
Em deixar ir
Sinto muito
Você não pode fazer mais
Do que pensa que pode
Não pense que pode
Pode não pensar que pode
Não deixe de confiar
Nem de estar atento ao que sente
Mas não projete expectativas
Elas acabam com o presente
Quando vivenciado no futuro
Sinto muito
Sinto mesmo
Com pesar
Com dificuldade
Sinto sentir
Dói ser isso
Uma coisa qualquer
Nesse mundo
Como qualquer outra coisa
Luto para não ser qualquer coisa
Preciso sentir o luto
É preciso
Ser qualquer coisa, aceitar ser qualquer coisa
Qualquer coisa é tão importante
Quanto o todo
E o todo é
Eu sou
Sinto muito
É preciso,
Deixar sentir
Não pensar, nesse sentir
Sentir, e deixar
As coisas vão se acomodando
Fazendo sentido
No tempo do tempo
Não tente apressar
Não é possível
Qualquer resultado deste esforço
Será ilusão
O esforço correto
Está em não se esforçar
Em, atento
Deixar que o fluxo siga seu curso
E ser um atento observador
Que capta o que seu corpo é capaz
E que se capacita
Enquanto se esforça para não se esforçar
E segue
Com o fluxo
Sinto muito
Essa luta é longa
Vencer
Também é perder
E a luta não tem fim
Ela começa e termina
Mas nunca tem fim
Vencer é perder, sem nunca parar de lutar
Sinto
Apego desapegado
Sabedoria é viver um apego desapegado.
Apego desapegado é amor.
Afeto é apego. Fui pego.
Desapego é aceitação. Da singularidade, da diferença, da liberdade.
Por me apegar, desapego e deixo ir.
Por deixar ir, eu tenho.
Se quero ter, eu perco.
Uma questão central.
Não é o desprezo o estimulante mais eficaz da criatividae, pois obriga o indivíduo a superar a si mesmo, pelo receio de se assemelhar ao que é vergonhoso e medíocre? Ora, ensina Zaratustra, “o que há de mais desprezível no mundo” é “o Último Homem”- o homem aviltado, sem fibra e subjugado que, frente à catastrofe da morte de Deus, escolhe se atolar no pântano da “felicidade”; em suma, o homem que se julga esperto porque prefere fruir mesquinhamente em vez de combater heroicamente.(…) Adivinha-se a receita dessa felicidade: a eliminação engenhosamente programada de tudo o que, na realidade, é fonte de conflitos, de lutas, de tensão- e, portanto, de superação. Trata-se de reduzir a existência humana a uma sonolência prazerosa e ininterrupta, a uma iresponsabilidade contente. Reconhece-se aí o ideal da “sociedade de consumo” moderna, versão técnica e publicitária do niilismo passivo.
Trecho do livro Nietzsche – Autor: Jean Granier.