Eis que voltamos para caminhos passados, vencidos, gastos, clichês. Caminhos nossos não só nossos, caminhos dos que nos são contemporâneos, caminhos de uma cultura. Caminhos do humano, demasiado humano. Caminhos: atitudes, escolhas, hábitos. Pensamentos.
Entre tantas possibilidades… da multiplicidade, da vida… nos repetimos.
Suspeito que cada pensamento (que define escolhas, move atitudes e consolida hábitos) tem uma massa. Não tal qual a massa da matéria de nossos corpos, humanos, mas trata-se de corpos. Trata-se portanto de energia. Conclui-se então, com Newton, que todo corpo atrai os outros corpos e, quanto maior a massa desse corpo, maior sua atração. Pensamentos-corpos.
Assim, suspeito, cada pensamento aumenta sua massa, cresce enquanto corpo, cada vez que voltamos a ele. Cada vez que o alimentamos, muitas vezes em segredo, nossos pequenos grandes monstros, sombras. Assim também com os pensamentos que nos potencializam, nos afetam e movem em direção ao novo – que se dá mais na ordenação das coisas, de sua composição, do que das coisas em si. Contudo, os caminhos velhos, gastos, mancos e gagos – em seu grau de potência – estão sempre, paradoxalmente, presentes e fortes em sua força de atração: e para lá vamos, passivas ovelhas andando na trilha, no trilho. Mas apresentando-se para si mesmos como leões, tentando acreditar, e no geral conseguindo, ao menos num primeiro momento, que se está sendo forte e tomando o caminho que tem que ser tomado. Bravos leões.
(Desculpas para com as ovelhas. Nem todas são passivas. Nem fracas. E nem toda passividade é ruim. Todo corpo é potente, tanto a ovelha quanto o leão: essas imagens batidas, repetidas, clichês, são também caminhos que repetimos, na vida, nos textos. Sacramento!)
De fato, cansa essa luta contra a repetição, esse tentar mudar o caminho: falta um mapa!
Sente-se que um sentar em frente a TV resolveria os conflitos pessoais (seriam pessoais?), enquanto se participa de conflitos de personagens. Enquanto sente-se, por procuração, a adrenalina do que vive a personagem, o atleta.
E mesmo quem teima em tomar os rumos repetidos, precisa também pausar, precisa, talvez, momentaneamente, se entregar ao mesmo, ao repetido, deixar-se apagar nos trânsitos ordenados pelos vícios de uma era, ser mais um – talvez não seria uma neurose a repetição no querer não repetir? Prepotência pensar ser diferente? Um desejar o novo ou o que quer que seja não esse mesmo? Ou não perceber no mesmo o diferente?
Um mapa! É preciso desenhar um mapa. Desenho, criação. Visualizar os caminhos já conhecidos, ter uma breve noção do fora, saber por onde entrar nele, mesmo que não tenha portas: caberia só sair do caminho, da repetição para acessar esse outro, esse fora? E qual seria o caminho para sair do caminho?
Seria então a vida viver esse incômodo: de saber-se humano, demasiado humano. Perceber-se voltando para os mesmos lugares, repetindo pensamento e atitudes. Seria a vida essa resistência, não de conduzir-se para outro lugar, mas de resistir não voltar para o mesmo – e deixar estar, deixar que um outro, inominado, me afete. E sofrer as consequências da insegurança, do não entender, do não conhecer, do não saber. E nesse estado vibrar, mexer, mover, mudar.
Seria a vida então resistir a voltar. Seria vida buscar esse fora. Esse não conhecido. Esse outro. Seria a vida então um espaço-momento de exercício, de estar e jogar. E de com isso acessar/criar a sabedoria, que pode estar na composição com o que me toca e compreendo, tanto quanto num saber de um inconsciente coletivo, ou de uma consciência cósmica, ou outro nome para isso que não conhecemos e não conheceremos em pleno. É um exercício num jogo entre onde estão presentes a sabedoria e a loucura. E sabedoria e loucura seriam opostos? A sabedoria não seria uma possível compreensão – e não ordenação – do que a loucura não consegue apreender, e por isso se perde em si, e fora, estando dentro?
A diferença estaria num centramento, que não é controle. Seria não rumar para os lugares seguros. Seria estar vivendo o caos, uma vida intensiva, onde consigo estar pois a massa de meu corpo é mais forte do que a massa desses pensamentos, desses hábitos repetidos. E por isso me possibilito não a fuga ao conhecido, mas me manter com o que me afeta, deixar estar, aceitar. Assim, não retornamos para os corpos-pensamentos-hábitos, não aumentamos a sua massa e o seu poder de atração, ao contrário, deixamo-nos ser afetados pelo o que nos vem de fora, e nossa corpo então aumenta sua massa, sua potência. Aumenta então sua força de atração, seu centramento. Abandonamos a prepotência de sermos sujeitos e nos permitirmos ser matéria viva que participa de um movimento maior.
Aumenta nossa capacidade de centramento, de energia que pode ser modulada, mas que sobretudo vibra e move-se em direções que, talvez na maioria das vezes, não poderemos definir: querer controlar modos e direções é perder essa potência, controle seria o contrário de centramento. Aumentar sua massa não aumentaria seu controle portanto. Trata-se de potência de atrair energias e de ser um corpo-caminho possível por onde passa essas possibilidades, um lugar de manifestações, de visibilidades. Seu corpo é obra, é matéria para manifestação da vida, para dar forma ao que, fora, é informe. Seu corpo é acontecimentos.











