Devaneios para sair dos caminhos

Eis que voltamos para caminhos passados, vencidos, gastos, clichês. Caminhos nossos não só nossos, caminhos dos que nos são contemporâneos, caminhos de uma cultura. Caminhos do humano, demasiado humano. Caminhos: atitudes, escolhas, hábitos. Pensamentos.

Entre tantas possibilidades… da multiplicidade, da vida… nos repetimos.

Suspeito que cada pensamento (que define escolhas, move atitudes e consolida hábitos) tem uma massa. Não tal qual a massa da matéria de nossos corpos, humanos, mas trata-se de corpos. Trata-se portanto de energia. Conclui-se então, com Newton, que todo corpo atrai os outros corpos e, quanto maior a massa desse corpo, maior sua atração. Pensamentos-corpos.

Assim, suspeito, cada pensamento aumenta sua massa, cresce enquanto corpo, cada vez que voltamos a ele. Cada vez que o alimentamos, muitas vezes em segredo, nossos pequenos grandes monstros, sombras. Assim também com os pensamentos que nos potencializam, nos afetam e movem em direção ao novo – que se dá mais na ordenação das coisas, de sua composição, do que das coisas em si. Contudo, os caminhos velhos, gastos, mancos e gagos – em seu grau de potência – estão sempre, paradoxalmente, presentes e fortes em sua força de atração: e para lá vamos, passivas ovelhas andando na trilha, no trilho. Mas apresentando-se para si mesmos como leões, tentando acreditar, e no geral conseguindo, ao menos num primeiro momento, que se está sendo forte e tomando o caminho que tem que ser tomado. Bravos leões.

(Desculpas para com as ovelhas. Nem todas são passivas. Nem fracas. E nem toda passividade é ruim. Todo corpo é potente, tanto a ovelha quanto o leão: essas imagens batidas, repetidas, clichês, são também caminhos que repetimos, na vida, nos textos. Sacramento!)

De fato, cansa essa luta contra a repetição, esse tentar mudar o caminho: falta um mapa!

Sente-se que um sentar em frente a TV resolveria os conflitos pessoais (seriam pessoais?), enquanto se participa de conflitos de personagens. Enquanto sente-se, por procuração, a adrenalina do que vive a personagem, o atleta.

E mesmo quem teima em tomar os rumos repetidos, precisa também pausar, precisa, talvez, momentaneamente, se entregar ao mesmo, ao repetido, deixar-se apagar nos trânsitos ordenados pelos vícios de uma era, ser mais um – talvez não seria uma neurose a repetição no querer não repetir? Prepotência pensar ser diferente? Um desejar o novo ou o que quer que seja não esse mesmo? Ou não perceber no mesmo o diferente?

Um mapa! É preciso desenhar um mapa. Desenho, criação. Visualizar os caminhos já conhecidos, ter uma breve noção do fora, saber por onde entrar nele, mesmo que não tenha portas: caberia só sair do caminho, da repetição para acessar esse outro, esse fora? E qual seria o caminho para sair do caminho?

Seria então a vida viver esse incômodo: de saber-se humano, demasiado humano. Perceber-se voltando para os mesmos lugares, repetindo pensamento e atitudes. Seria a vida essa resistência, não de conduzir-se para outro lugar, mas de resistir não voltar para o mesmo – e deixar estar, deixar que um outro, inominado, me afete. E sofrer as consequências da insegurança, do não entender, do não conhecer, do não saber. E nesse estado vibrar, mexer, mover, mudar.

Seria a vida então resistir a voltar. Seria vida buscar esse fora. Esse não conhecido. Esse outro. Seria a vida então um espaço-momento de exercício, de estar e jogar. E de com isso acessar/criar a sabedoria, que pode estar na composição com o que me toca e compreendo, tanto quanto num saber de um inconsciente coletivo, ou de uma consciência cósmica, ou outro nome para isso que não conhecemos e não conheceremos em pleno. É um exercício num jogo entre onde estão presentes a sabedoria e a  loucura. E sabedoria e loucura seriam opostos? A sabedoria não seria uma possível compreensão – e não ordenação – do que a loucura não consegue apreender, e por isso se perde em si, e fora, estando dentro?

A diferença estaria num centramento, que não é controle. Seria não rumar para os lugares seguros. Seria estar vivendo o caos, uma vida intensiva, onde consigo estar pois a massa de meu corpo é mais forte do que a massa desses pensamentos, desses hábitos repetidos. E por isso me possibilito não a fuga ao conhecido, mas me manter com o que me afeta, deixar estar, aceitar. Assim, não retornamos para os corpos-pensamentos-hábitos, não aumentamos a sua massa e o seu poder de atração, ao contrário, deixamo-nos ser afetados pelo o que nos vem de fora, e nossa corpo então aumenta sua massa, sua potência. Aumenta então sua força de atração, seu centramento. Abandonamos a prepotência de sermos sujeitos e nos permitirmos ser matéria viva que participa de um movimento maior.

Aumenta nossa capacidade de centramento, de energia que pode ser modulada, mas que sobretudo vibra e move-se em direções que, talvez na maioria das vezes, não poderemos definir: querer controlar modos e direções é perder essa potência, controle seria o contrário de centramento. Aumentar sua massa não aumentaria seu controle portanto. Trata-se de potência de atrair energias e de ser um corpo-caminho possível por onde passa essas possibilidades, um lugar de manifestações, de visibilidades. Seu corpo é obra, é matéria para manifestação da vida, para dar forma ao que, fora, é informe. Seu corpo é acontecimentos.

 

 

 

Travessia, travesso, travessura

Estou a reler todos os textos aqui postados. Pode até parecer que gosto demais de mim mesmo a ponto de querer me reler todinho, mas o fato é que é desta noção de coesão, de unicidade, de coerência que quero tratar: uma vez que não sou mais eu, o que escreveu e o que lê – e certamente o que, no futuro, relerá. Muito na travessia muda. Aliás, e de acordo com a canção, tudo muda o tempo tooodo no muuuuuuuuundu.

Bueno, estou a ler, reler, na expectativa de encontrar elos, guias, direcionamentos, como que, a partir desses textos possa construir um mapa e deste avançar para novos horizontes. Acabei de ler um “Textinho acalma-mãe”, onde cito a citação que usei enquanto orador em minha formatura, de Guimarães Rosa: o mais importante não é nem a partida, nem a chegada, e sim, a travessia.

Continuo de acordo comigo mesmo, ainda que outro agora seja. Acontece que dessa travessia já estou um tanto cansado. Suas águas, seus ares, suas terras, já não provocam os mesmos afetos, suas ondas, ventos, topografia, fluxos, já não me movimentam tanto. E a pergunta que jaz aqui é: o problema está no meio? Está na troca? No fato de eu, já tendo me apropriado, devido ao tempo, das materiais presentes nesse local, não ser mais motivado por ele? Ou num possível fato de eu ter engessado a minha sensibilidade, e de, também, ter dado peso demais a mim mesmo – já não atravesso com tanta desenvoltura, pois passei a carregar coisas demais…

Querido diário….

Sigo na leitura, numa possível construção desse mapa: num retorno, para tornar, para vir a ser. Que seja mais leve. Que siga a travessia, essa ou outras, mais travesso, com mais travessura, que siga, mais.

Sobre a referida referência:

“E pra terminar, vou lembrar a frase com a qual iniciei o meu discurso de orador, no momento da minha formatura no curso de Educação Física, esse momento em que você ficou tão feliz, mesmo sabendo não ser esta uma profissão tão promissora. Mal sabia você que além de educador físico, eu optaria por ser uma artista. Caiu o mundo. Disse Guimarães Rosa, mais ou menos assim: o mais importante não é nem a partida, nem a chegada, e sim, a travessia.
Pois estou em plena travessia: ora caminhando, ora correndo, ora saltando, ora malabariando, ora dançando, ora escrevendo, ora chorando, ora dormindo, ora ensinado, ora rindo, ora me pendurando, vivendo… E a chegada? Quem chega é entregador de pizza, carteiro, corredor de maratona, bebê, ou dor de cabeça, mas eu sou é artista.”
http://diegoesteves.in/escritos/2009/04/18/textinho-acalma-mae/

Por que participar do NECITRA?

Em tempo de começos e recomeços, reescrevo o já dito. Reafirmo as certezas entre as incertezas. Em tempo de retomada das atividades e de audição, a pergunta que se repete:

 

Por que participar do NECITRA?Mosaico Desdobramentos

 

A resposta, do meu ponto de vista, só pode ser: Porque você deseja!

 

E embora pareça uma questão simples, e até óbvia, ela é carregada de significados e significância.

 

Sendo o desejo movido por um objeto, imagem, lugar, ou estado no qual queira se encontrar, possuir, ou estar, é importante analisar do que é constituído este “outro”– sem isso, corremos o risco de projetar neste desejos internos e, no futuro, não tendo essas expectativas sido correspondidas, brochar. Contudo, eis que são esses desejos internos que podem, e devem, ser projetados no NECITRA. Desde que conscientes de si, e comprometidos em sua autonomia e responsabilidade perante as ações que vão dar corpo a essas vontades… O núcleo busca se constituir como um espaço instrumentalizado para possibilitar movimentos que surjam a partir desses desejos… Nesse sentido gostaria de delinear do que tem se constituído o NECITRA, e como tem se dado esse agenciamento de desejos:

1º Ele não é, está sendo.

O NECITRA é fruto das pessoas que aqui estão, das suas produções e das demandas que emergem do coletivo, para as quais são definidos procedimentos e funções a serem cumpridas por seus integrantes. Com isso, se mantém uma estrutura adequada a esses desejos e movimentos que constituem esse espaço: projetos em estudos, produções, criações, e outros.

2º Para resumir, o NECITRA é um espaço/coletivo/grupo projetado como uma plataforma, onde os artistas podem se aprimorar e desenvolver seus próprios trabalhos – quer seja como ator, bailarino, circense, performer, diretor, videomaker, etc. Para isso podem se amparar nos colegas em trocas, orientações e participações em projetos coletivos. A Canto – Cultura e Arte é a empresa que trata da administração contábil e jurídica do NECITRA, participando direta e indiretamente da sua gestão. O núcleo, através de seus integrantes, ocupa vários espaços com ações artísticas e educativas.

3º Você, como um ser desejante, deve ter definido os porquês de ter se tornado um artista/educador. Sabe, portanto, os motivos de querer criar, ensinar, aprender, apresentar. Concluo, então, que precisa estar disposto (e organizado) para essas trocas e compartilhamentos. Somos um coletivo onde impera a diversidade em processos contínuos. Nesse andar, utilizamos de reuniões regulares que buscam manter a coesão desta estrutura, sempre objetivando solucionar as questões atualizando os processos, trazendo questões específicas no intuito de aprimorar o todo. Quando o indivíduo se fortalece, o coletivo também. Quando o coletivo se fortalece, o indivíduo também.

Particularmente, acredito que os processos sociais nos quais estamos inseridos (família, escola, participações na esfera pública, política) não estimulam a autonomia, e promovem poucos espaços potentes para o protagonismo, para o ativismo. O NECITRA é um espaço/grupo que busca potencializar a potência já existente em cada um. Oferece ferramentas para isso. Nos oferecemos, uns aos outros, como suporte para o andar de cada um. Andamos todos.

Não se trata exatamente do seu objetivo em participar do grupo e sim da sua postura: de ser atuante, de estar disposto.

Que o desejo presente em cada um se expresse em movimento, mesmo que não orientado em direção específica. Eventualmente, entre tantas possibilidades, encontramos o nosso caminho – ou caminhos.

NECITRA como lugar de possibilidades.

Nenhum vento é favorável para quem não sabe onde quer chegar. Mas ficar à deriva também tem seu valor. Cada valor a seu tempo.

Na 2ª edição do Desdobramento

Arrumando a casa

Para quem não conhece, o Desdobramentos é um projeto do NECITRA, que engloba a pesquisa e criação cênica, e a gestão e produção coletiva das ações. Em cada edição são apresentados e experimentados os “resultados” deste processo.

A próxima edição será no dia 5 de outubro.

Apresento a 2ª edição:

Para cada edição é produzido também um vídeo-convite:

 

 

 

Ponto, linhas e paisagens.

As vezes acredito mais nos processos coletivos, as vezes menos. Na semana passada transitei entre estes dois pólos. Registro aqui alguns pontos que formaram as linhas deste pensamento, projetados nestas linhas de escritas. O ponto de partida, da escrita, ocorreu o dia 05 de julho, após uma reunião no IEACen… o ponto de partida, dos pensamentos, no dia anterior.

No Desdobramentos 1
Parte final da 1ª edição do Desdobramentos – projeto coletivo

Dia 04 de julho, Casa Cultural Tony Petzhold.

Começo a condução de mais um encontro do NECITRA, com a rotina de aquecimento/condicionamento físico. Percebo que o grupo, inclusive eu, está disperso e cansado. Interrompi então a rotina no final da primeira de duas partes, para propor um jogo.

Uma proposta bem aberta, que de início provocou um certa inquietação (e questionamentos) pela falta de especificidade desta proposta… O jogo: entrar em cena quando quiser, sair quando quiser. Propor uma ação, criar um contexto, um jogo, o que quiser, como quiser. Outros entram nesta cena, compartilham, complementam, contrapõem, mudam, repetem, como quiser…

E o jogo se fez, e a conversa, logo após, se iniciou.

Após as primeiras falas, eu abordei as questões levantadas da seguinte forma: “Ouvi em algum lugar o seguinte dizer: quer conhecer alguém de verdade? Coloca ele para jogar…”

Se falou, durante a conversa, da falta de convergência no jogo, da falta de atenção nas propostas. Questionei então: não é isso que tende a acontecer nos processos coletivos?

Se comentou então de, às vezes, mesmo compartilhando a cena, se sentir só. E eu pergunto agora, e lá: mas ficar só estando junto é estar só? A diferenças que se manifestam nos caminhos individuais dentro dos processos coletivos acabam por suscitar esta sensação de solidão. Acredito. Mas se diferentes, estamos juntos, convergindo algo sob os mesmos procedimentos, então não estamos sós. E os procedimentos são os meios com os quais convergimos este algo: a criação.

Somos criadores, compartilhando o mesmo espaço (o mesmo canto). Somos do circo, da dança, do teatro, das artes visuais. Somos artistas e produtores que acreditam – às vezes mais, às vezes menos – que a colaboração nos aprimora em nosso fazer, que o compartilhamento dos processos nos deixa mais conscientes, se vendo no olhar do outro. Que assim nos potencializamos. Acreditamos, às vezes mais, às vezes menos.

E a conversa se deu, do jogo do jogo, para o jogo do dia-a- dia. Para a importância do estado presente no jogo, para o estado presente no treino, no ensaio, na autonomia para ser o proponente, o diretor,  o coreógrafo de seus próprios atos.

E os pontos de vista compuseram linhas convergentes e divergentes. Mas as linhas são abstrações, composições de pontos sobre pontos. E o NECITRA é a convergência de linhas compostas por estes pontos que, transversalmente, se cruzam: uma paisagem complexa que se sustenta, enquanto se sustentam os proponentes destes pontos.

E assim foi o dia 04 de julho, uma composição de pontos num canto, onde o núcleo amadureceu mais um pouco, e cada um de nós, na aceitação da diferença, estando sós estando juntos, sendo um ponto que monta uma linha, uma linha que é um núcleo…

IEACen
IEACen, Casa de Cultura Mário Quintana

Dia 05 de julho, Instituto Estadual de Artes Cênicas, Casa de Cultura Mario Quintana.

Reunião para tratar de evento de dança a ser realizado no 2º semestre. Proposição feita pelo IEACen, para ser discutida e reformulada em conjunto com as entidades: ASGADAN, SATED, Grupo Experimental de Dança de Porto Alegre e cursos de dança das universidades.  Novamente entra em cena a questão do coletivo. Neste caso, a partir de coletivos instituídos, de representatividades do setor.

Hoje, dia 08 de julho, tento finalizar o texto iniciado no dia 05, após aquela reunião. Nas três horas que se passaram, permaneci no escritório, pensando, e me pus a escrever, para tentar organizar as ideias, unir os pontos. Não consegui tal êxito, nem lá, nem cá. Mas sei que, naquele dia, tal como no dia anterior – em processos coletivos bem distintos – fui atravessado por um satisfação em propor, vivenciar e compartilhar esses processos. Sei que, naqueles momentos, os pontos de vista convergiram, na maioria das vezes, em linhas de pensamento, na criação de projetos colaborativos, na organização de gestões coletivas.

E para o ponto final, deixo um ditado oriental, que li na parede de um banheiro, em um restaurante, em 2011, Caxias do Sul:

“Nenhum de nós é mais inteligente do que todos nós”.

Mas, complemento: só existirá inteligência coletiva quando houver uma convergência mínima nos pensamentos, nas ações, nas produções. Já que, pontos dispersos podem não formar nada, podem não formar uma paisagem, podem ser somente pontos. Pontos que formem linhas. Linhas que formem contornos, direções… Aí entraríamos nos projetos, nas consequências… Aí estou refazendo a paisagem deste blog… Aí estou devaneando… Aí paro por aqui. Boa noite. Ponto. Agora final mesmo. Ponto.

.

Dançando para crianças, dançando com crianças, como criança

Amanhã estamos viajando para São Paulo, para a Mostra Rumos de Dança Itaú Cultural: é a primeira apresentação do projeto “Guia Improvável para Corpos Mutantes”, com concepção e direção de Airton Tomazzoni. No elenco e criação, estão Fernanda Boff, Karenina de Los Santos, Kalisy Cabeda e eu. A apresentação da pesquisa será no dia 09 de junho, domingo, às 16 horas…

Guia

Hoje, 09 de junho, 2 horas da madrugada. O parágrafo anterior foi escrito ainda em Porto Alegre, sem sucesso em sua finalização, por ausência de tempos. O tempo de agora deveria estar sendo usado para o sono, mas não queria deixar de fazer esta postagem, de compartilhar esse evento no blog – postagem que vou programar para o meio dia, quando já estaremos novamente no teatro (acabamos de chegar da montagem). Tempos malucos.

Bom, devido ao tempo avançado, e do sono avançado, vou deixar para escrever mais depois. Mas posso adiantar que estou muito contente nessa minha segunda incursão num espetáculo de dança para crianças, mais um vez com a direção do Airton e compartilhando a cena com a Fê e a Kalisy.

Abaixo segue a reportagem que saiu no Correio do Povo e na sequência um vídeo-convite para um evento muito bacana que estará ocorrendo amanhã, o Jazz, Blues e Guloseimas (to por ali no vídeo tb ;)). Boa noite, boa tarde! Tempos malucos. 🙂

Correio do Povo

Um dia após a primeira edição do Desdobramentos

Arrumando a casa

Ainda estou agitado após a primeira edição do Desdobramentos. Foram momentos tão potentes, um troca tão intensa, que estou ao mesmo tempo cansado e com vontade de ensaiar mais, treinar mais, colocar a segunda edição em cena. É um cansaço cheio de energia: o resultado do conflito entre músculos fadigados e o espírito  energizado.

No público, 150 pessoas (sendo que algumas não puderam entrar, pela limitação da casa), em cena onze dos dezesseis integrantes do núcleo (mais a intervenção da convidada Paula Finn e alunos da oficina de Arte Circense para adultos: André, Júlia, Lívia e Martha). Além desses, equipe técnica, o pessoal dos comes e bebes, professores e a direção da Casa.

Quando a gente projeta algo, nunca tem a certa medida do tamanho do trabalho. Confesso que na semana que antecedeu o evento me preocupei com a nossa criação, sobretudo com a estrutura do evento – lembrando que foi o primeiro deste porte na Casa Cultural Tony Petzhold. E é este o ponto que quero aqui ressaltar: a disposição de todos esses onze ao trabalho coletivo. Foram dias com reunião até uma da madrugada, chegando ao meio dia na casa para antecipar a limpeza antes do treino/ensaio (que começa às 14), compartilhando a divulgação…

É isso, como disse em postagem anterior: para fazer, é preciso fazer. É NECITRA criando cenas, NECITRA comprando material, NECITRA fazendo bilheteria, NECITRA montando som, NECITRA limpando o chão… Todos NECITRA. Somos criadores e produtores das obras e de toda a estrutura para que ela se apresente. E esse todo, para mim, é uma obra. E é nisso que acredito.

Então, acreditamos que ia dar certo, fizemos, e deu. E que venha o próximo Desdobramentos! 🙂

Na foto, um dos dias da arrumação, quando retiramos as cadeiras do depósito sob palco e iniciamos a contagem delas, para mensurar quantas pessoas receberíamos na plateia.

Em breve, fotos e vídeos!

Mas por enquanto, pode olhar a última postagem na página do NECITRA, com vídeos do processo e fotos do ensaio geral: http://necitra.com/2013/05/31/convite-desdobramentos/

Desdobramentos 1: começando a desdobrar

Desdobramentos todos

 

Projetos, para mim, tem funções primordiais na vida, cito:

1- Projetar, no sentido de lançar ao longe, vislumbrar um possibilidade futura, medir o tamanho da vida a médio e longo prazo (junto a isso, vem o planejamento!);

2- Romper a tendência a inércia, a apatia, a estagnação: como o sagitariano que lança a flecha e depois fica correndo atrás (só tomo cuidado para não me perder neste intermeio entre a partida e o ponto de chegada da flecha, de ser consistente no caminho);

3- Criar! O projeto é uma criação, e é aí que pulsa a vida, onde fica latente a potência de viver: o projeto é uma escolha minha, eu posso ser pretensioso, ou medíocre. 

4- O projeto agrega, o projeto junta, une pessoas. Criar projetos coletivos coloca um todo em prol de um objetivo, promovendo assim coesão em trabalhos colaborativos.

5- Projetos nos potencializam, não mais especificamente pela sua realização, mas pelo processo: projetamos algo, planejamos os procedimentos, administramos as escolhas, e lidamos com todos os contratempos que ocorrem a partir daí, pois a vida nunca é exatamente como planejamos, como projetamos, mas o projeto nos torna ativos nessas vivências onde o indeterminismo prevalece, mesmo que o projeto esteja determinado.

O Desdobramentos é mais um projeto, que demarca um momento e escolhas importantes nessa vida, nesta etapa da vida. Por acreditar em tudo isso, e nesse todo que compartilha esse projeto comigo, criei um vídeo com o intuito de compartilhar isso vocês – o público, os colegas, os amigos, os leitores deste blog -, sendo o vídeo parte do projeto. E o evento, no dia 02 de junho, o primeiro deles, começando a desdobrar: todos convidados!

Começando a desdobrar…

para postagem 13.05

 

O NECITRA está entrando em seu quinto ano de atividade. No início, éramos eu e uma equipe de profissionais no entorno da criação do espetáculo “Gestos e Restos”. Ao final do primeiro ano, chegou a Genifer. Logo depois, o Rafael e, na sequência, o Psico. Tivemos a breve participação da Giovana e assim nos encaminhamos para o ano de 2011. O “Coisarada” já estava em processo de criação. Neste ano, juntam-se ao grupo Fernanda, Kalisy e Juliana (que permaneceu até o ano seguinte). Criamos o primeiro “Tubo de Ensaio”, realizado no Dhomba. Em 2012, entram para o núcleo Viviana e Ana Cláudia. E, eu, apresento pela primeira vez “O Inventor de Usamentos”. No mesmo ano, realizamos a 2ª edição do “Tubo de Ensaio”, dessa vez no apartamento da Vivi.

2013: nossa primeira audição inicia os trabalhos do ano. Dentre os que chegaram estão Béthany, Caroline, Gabriel, Fernando, Ludmila, Paola, Pryia e Ramon. E, neste momento, estamos em um novo processo, ou melhor, processos: DESDOBRAMENTOS.

Desdobramentos, palavra que, em resumo, significa, desdobrar o processo de fazer obras (obramentos), fazer dos processos individuais um processo coletivo, e do processo coletivo, pontuado em um evento, um fim. Uma sequência de fins que compõe este meio, sem fim. Desdobramentos é, portanto, mais do que um evento em forma de mostra experimental, é a efetivação de projetos de pesquisas do núcleo, da criação de obras, a maioria cênicas, mas também vídeos, esculturas, textos – enfim, desdobramentos.

Dentre os vídeos, estão sendo feitos registros desse(s) processo(s), para compartilhamentos e trocas dessas experiências. No primeiro destes vídeos, que pretendo finalizar nesta semana, explico um pouco mais deste projeto, bem como exponho uma breve apresentação sobre o núcleo, para quem está nos conhecendo agora. Até lá!

2 todos

Um eu de mim mesmo: um blog para transgredir a identidade

Enquadrado
Crédito: Martha Reichel Reus

Diegoesteves.in é o Diego Esteves na versão internet. Não se trata de uma réplica online de uma identidade física, uma vez que é justamente essa coerência identitária que me aflige e que busco, através desse meio virtual, e mais uma vez, transgredir.

Diego Esteves demarca, em nome, os contornos que delineiam um corpo físico. Uma forma-matéria, datada de nascimento e com fim incerto. Transcorre então toda uma vida mais ou menos autônoma e onde busco, ao máximo, a ação presente e consciente: ser protagonista neste processo – mesmo que isso signifique, na maioria das vezes, desapego e aceitação- e fazer da vida uma obra de arte.

Entendo e tomo o corpo (e suas manifestações) como um lugar de passagem, como o lugar de acontecimento, que afeta e é afetado. Com isso, tento me colocar nos contextos onde atuo receptivo a todas as forças que agem sobre ele, respondendo e atuando no sentido da potencialização – não do bom ou ruim, de certo ou errado, mas da potência, uma ética da potência. O que demanda entender os processos, os mecanismos, aceitar o que precisa ser aceito e se engajar em ações concretas, como projetos de vida.

Sujeito em jogo
Crédito: Martha Reichel Reus

O corpo é um lugar de combate, com toda a força necessária para se movimentar, carregando essa matéria que tende ao repouso, à estagnação. A identidade é mais uma representação desta tendência à estagnação. Diego Esteves não é uma identidade, é um nome dado a um processo delineado por um corpo (que como todo corpo, renova praticamente todas as suas células num período de sete anos). O que se sustenta nesse processo é uma história e uma ética, quanto ao resto, se trata de todo um todo de ações em diferentes contextos sociais. Essas ações podem ser identificadas, configurando então uma identidade, mas, uma vez que essas ações são mutáveis, assim como os contextos, tendo como pano de fundo uma coerência ética, as identidades são múltiplas.

Sendo assim, o que este espaço virtual faz é, num primeiro momento, registrar um pouco dessa história em projetos, obras, cursos, dentro de um contexto do mercado de trabalho, ou seja: uma espécie de portfólio, e de registro de processos artísticos.

Junto a isso, um engajamento político, na produção e publicação de material em texto, foto ou vídeo, tratando destes contextos sociais onde atuo, onde sou sujeito: como cidadão, artista, empresário, educador, produtor cultural, gestor público.