Autor: Diego
Sobre ser inacabado, e criar
Precisão
Sinto muito
Você não é tão forte quanto pensa ser
Não é tão forte quanto quer ser
Quanto precisa aparentar ser
Não precisa aparentar ser
Existe muita força em não ser forte
Em não precisar ser forte
Muita precisão existe
Em deixar ir
Sinto muito
Você não pode fazer mais
Do que pensa que pode
Não pense que pode
Pode não pensar que pode
Não deixe de confiar
Nem de estar atento ao que sente
Mas não projete expectativas
Elas acabam com o presente
Quando vivenciado no futuro
Sinto muito
Sinto mesmo
Com pesar
Com dificuldade
Sinto sentir
Dói ser isso
Uma coisa qualquer
Nesse mundo
Como qualquer outra coisa
Luto para não ser qualquer coisa
Preciso sentir o luto
É preciso
Ser qualquer coisa, aceitar ser qualquer coisa
Qualquer coisa é tão importante
Quanto o todo
E o todo é
Eu sou
Sinto muito
É preciso,
Deixar sentir
Não pensar, nesse sentir
Sentir, e deixar
As coisas vão se acomodando
Fazendo sentido
No tempo do tempo
Não tente apressar
Não é possível
Qualquer resultado deste esforço
Será ilusão
O esforço correto
Está em não se esforçar
Em, atento
Deixar que o fluxo siga seu curso
E ser um atento observador
Que capta o que seu corpo é capaz
E que se capacita
Enquanto se esforça para não se esforçar
E segue
Com o fluxo
Sinto muito
Essa luta é longa
Vencer
Também é perder
E a luta não tem fim
Ela começa e termina
Mas nunca tem fim
Vencer é perder, sem nunca parar de lutar
Sinto
Apego desapegado
Sabedoria é viver um apego desapegado.
Apego desapegado é amor.
Afeto é apego. Fui pego.
Desapego é aceitação. Da singularidade, da diferença, da liberdade.
Por me apegar, desapego e deixo ir.
Por deixar ir, eu tenho.
Se quero ter, eu perco.
Janeiro
Janeiro, o princípio, primeiro mês do ano, o recomeço. Tem esse nome em referência ao deus Jano, normalmente representado com duas faces olhando para direções diferentes, opostas.
O último post feito no blog é datado de março de 2015. Tenho a prática de me lamentar pela ausência na escrita. Não farei mais isso, embora acabo de ter feito. Me refiro a lamentar, mas também a me ausentar, embora não tenha certeza. A certeza, embora se crê, não é certa. Acredito que nada é certo. E isso inclui, portanto, essa crença. Enfim.
Das cabeça com duas faces, dos olhares para diferentes lugares. Na contradição entre vontade e necessidade. O que são necessidades? Vontade? E a vida passa. Tenho um caderno que trouxe comigo, na verdade uma agenda que comprei em promoção ainda em Santa Cruz, antes de mudar para Porto Alegre – pois era uma agenda vencida, do ano que havia passado. Pensei nessa agenda como um diário, seria usada provavelmente para uma viagem que faria, provavelmente de bicicleta. Anos depois a viagem seria de kombi, a Dona Sofia. Já não tenho mais a kombi. Ainda tenho a bicicleta. Já tenho 32 anos. E a vontade de viajar.
Em algum momento uma das faces tomou conta da vida. Quantas faces? Arquétipos? Sem lamentações. Me presenciei aqui em texto pela presença, pelo ato, pela ação. Esperar o momento certo para escrever enquanto a vida te mastiga. Não hoje. Nada é certo.
Enfim. É janeiro, começo, não fim. Mas todos os fins são, em potência, começos.