Um primeiro experimento para um possível projeto experimental

Experimentar é diferente de provar.
Provar é degustar. Provar é trazer pra si algo de fora e testar seu sabor, seu saber.
Experimentar é sair de si, é inventar novos sabores, é criar novos saberes.
Experimentar é estar na zona do inominável. Provar é agregar um nome a mais na sua experiência.
Provar é desafiante, experimentar é transgressor, é transbordante.
Para experimentar é preciso sair do eixo, perder o eixo, desequilibrar-se.
Experimentar é se tornar excêntrico, sair do centro.
É cruzar a linha.
É perder a linha.
Ser experimental, ser marginal, estar à margem, atravessar as margens.
Renomear as bordas, abordar, desbordar, transbordar.
Por fora da forma, em torno das formas.
Revendo as formas, disformando, informando, criando.
Transformar.
Movimento em potência multidirecional.
Corpo desafiado em sua razão, corpo em emoção.
Afetos, percepções, ações, fluxos.
Em torno da mente, dentro e fora. Com a mente.
Intensamente.
Desordenadamente.
Confiadamente.
Ligeiramente.
Calmamente.
Forçosamente.
Flexivelmente.
Paradoxalmente.
Sem estar pronto. Mas sempre preparado.
Para sempre inacabado.
Sempre experimentando.
À beira da morte. Do sim e do não. Do certo e errado. Do começo e do fim. Entre. Entre algos.
Criando, inventando, testando, contatando, informando, desdobrando,  desformando, alegrando, potencializando.
Um modo de vida, uma vida modando-se.
Moldando-se ao sem forma, ao não formado, sem molde.
Tente, teste, troque-se, mude. Movimente-se.
Experimente.
Experimente.
Experimente.
Experimente.
Experimente
Experimentar é portanto transformar-se.
É atitude constante de abertura às possibilidades.
É agregar, é conhecer, apreender, e por isso crescer, aumentar-se.
Mas é também diminuir-se, para caber nos espaços, para tornar-se coisa-menos-eu-ego.
É transpessoal.
É trânsito, é processo, é ir-e-vir, mas sempre continuar.
É devir.
Técnicas como ferramentas, como suporte.
O jogo entre intuição e razão, entre sensação, sentido e informação.
O jogo entre dentro o fora. E uma margem em movimento.
Um flerte com o caos. Uma dança.
Não pense demais. Faça.
Operar por fora, por reflexo.
Ainda, projetar, organizar-se para desordenar, para fluir.
Dentro e fora, e no entorno. Tornar-se. Sempre.
Redundância diferencial.
Experimental.
Experimentação.
#Experimente.
Porto Alegre, 25 de maio de 2016.

Sobre ser inacabado, e criar

Pensar em viver a vida como uma obra de arte.
Quando eu crio?
Crio quando sou afetado por algo. Há então um sentimento de falta, sentido como um problema, ou mesmo uma curiosidade por algo. Preciso apreender esse algo. Preciso me ampliar, crescer, transbordar. Há uma lacuna entre onde estou e onde posso estar. É como se esse afeto viesse de lá, do depois, de algum lugar onde seja possível estar, de outra forma, com outros saberes, estados, sabores. Para chegar lá, não posso mais ser o mesmo, sou outro, um outro talhado por mim mesmo – esse mim que já então deixou de existir. De lá, do depois, novos afetos, novos processos, fluxos – criações para dar conta do ser, da vida: sempre inacabado, até a morte.

Precisão

Sinto muito

Você não é tão forte quanto pensa ser

Não é tão forte quanto quer ser

Quanto precisa aparentar ser

Não precisa aparentar ser

Existe muita força em não ser forte

Em não precisar ser forte

Muita precisão existe

Em deixar ir

 

Sinto muito

Você não pode fazer mais

Do que pensa que pode

Não pense que pode

Pode não pensar que pode

Não deixe de confiar

Nem de estar atento ao que sente

Mas não projete expectativas

Elas acabam com o presente

Quando vivenciado no futuro

 

Sinto muito

Sinto mesmo

Com pesar

Com dificuldade

Sinto sentir

Dói ser isso

Uma coisa qualquer

Nesse mundo

Como qualquer outra coisa

Luto para não ser qualquer coisa

Preciso sentir o luto

É preciso

Ser qualquer coisa, aceitar ser qualquer coisa

Qualquer coisa é tão importante

Quanto o todo

E o todo é

Eu sou

 

Sinto muito

É preciso,

Deixar sentir

Não pensar, nesse sentir

Sentir, e deixar

As coisas vão se acomodando

Fazendo sentido

No tempo do tempo

Não tente apressar

Não é possível

Qualquer resultado deste esforço

Será ilusão

O esforço correto

Está em não se esforçar

Em, atento

Deixar que o fluxo siga seu curso

E ser um atento observador

Que capta o que seu corpo é capaz

E que se capacita

Enquanto se esforça para não se esforçar

E segue

Com o fluxo

 

Sinto muito

Essa luta é longa

Vencer

Também é perder

E a luta não tem fim

Ela começa e termina

Mas nunca tem fim

Vencer é perder, sem nunca parar de lutar

 

Sinto

Janeiro

Janeiro, o princípio, primeiro mês do ano, o recomeço. Tem esse nome em referência ao deus Jano, normalmente representado com duas faces olhando para direções diferentes, opostas.

O último post feito no blog é datado de março de 2015. Tenho a prática de me lamentar pela ausência na escrita. Não farei mais isso, embora acabo de ter feito. Me refiro a lamentar, mas também a me ausentar, embora não tenha certeza. A certeza, embora se crê, não é certa. Acredito que nada é certo. E isso inclui, portanto, essa crença. Enfim.

Das cabeça com duas faces, dos olhares para diferentes lugares. Na contradição entre vontade e necessidade. O que são necessidades? Vontade? E a vida passa. Tenho um caderno que trouxe comigo, na verdade uma agenda que comprei em promoção ainda em Santa Cruz, antes de mudar para Porto Alegre – pois era uma agenda vencida, do ano que havia passado. Pensei nessa agenda como um diário, seria usada provavelmente para uma viagem que faria, provavelmente de bicicleta. Anos depois a viagem seria de kombi, a Dona Sofia. Já não tenho mais a kombi. Ainda tenho a bicicleta. Já tenho 32 anos. E a vontade de viajar.

Em algum momento uma das faces tomou conta da vida. Quantas faces? Arquétipos? Sem lamentações. Me presenciei aqui em texto pela presença, pelo ato, pela ação. Esperar o momento certo para escrever enquanto a vida te mastiga. Não hoje. Nada é certo.

Enfim. É janeiro, começo, não fim. Mas todos os fins são, em potência, começos.