Tauá

Chegado de viagem, coisas muitas para resolver. Pouco tempo para escrever. Em três dias outra viagem. A próxima: Belo Horizonte – Minas Gerais para o Festival Mundial de Circo do Brasil. A anterior: Tauá – Ceará para o IV Festival dos Inhamuns – Circo, Bonecos e Artes de Rua, com o Circo Girassol.

Mesmo com todos os compromisso por resolver antes da próxima viagem, faço um esforço para registrar o que trago de Tauá, antes que por um ou outro motivo algo se perca. Sempre procuro tempo e paciência para escrever, não é este agora o caso. Mas é o que tenho, e temos o que temos. Redundância necessária: uma auto-afirmação que assume o limite atual para agir, mas com multiplas possibilidades. Acontecimentos muito mais velozes que minha capacidade de pensá-los. Tento ao menos senti-los.

Tauá
Cidade de muitos gatos
Muitos sapos
Muriçocas
Potós
Motos acrobáticas sem capacetes
Paus- de- arara
Cidade pequena
Quente
Não tão quente, não tão pequena
Cidade de casinhas a beira da calçada
Cidade de gente
Para onde levamos nossa arte
Nosso corpo, nosso ser
De onde trazemos
Alegria, carinho, paciência
Generosidade, atenção, força
Tudo dentro de uma grande mala
Atrás do nariz de palhaço: saudade
Por tudo, figurino, corpo: saudade
Mas também muita alegria
Energia renovada
E por entre acrobacias, equilíbrios e malabarismos
A vontade de continuar levando a nossa arte onde o povo está

Tanta coisa para escrever… Mas os dedos não recebem informações conexas, lógicas.
Frases soltas…
Dispersão…

Felicidade: viajar, conhecer pessoas, se perceber importante para elas, se ver motivando outras com o que faz.

Quatorze dias de convivência.
Viajamos para ensinar com oficinas, para apresentar nosso espetáculo. Mas fomos acolhidos de tal forma, que mal sabíamos como agir. O carinho e a atenção das pessoas, em alguns momentos me deixavam constrangido, como dizendo em silêncio: eu não mereço tanto. Simultaneamente alegre, por estar realizando está troca: de carinho, de sotaques, de cultura, de experiências, de arte, de energia.

Trago-me outro do sertão. A seca floresceu em mim flores, quem sabe frutos, que nem sei bem, mas sei. Obrigado Tauá.

p.s.: das citações abaixo anteriores.
A da onça cantávamos durante a oficina dramaturgia do palhaço, com Luíz Carlos Vaconcelos, o palhaço Xuxu.
A do Tumtumtum é parte da coreografia da quadrilha do Grupo Flor do Mandacarú.
Da oficina: novas idéias e a motivação para pesquisar mais o universo do palhaço.
Da quadrilha: a energia, a raça de um grupo unido em prol de uma tradição, de uma arte, de um amor.

Talvez mais tarde escrevo um pouco sobre cada um desses encontros marcantes.

Soluções

Encontrar soluções. Resolver problemas. Agir. Um passo, outro passo. Muro. Meia volta. Outro passo, opa, tropeço, Clac. Um sorriso, outro. Uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravo! Um vinho, arroz, saladas. Café, chocolate. Uma briga, outras pazes. Um telefone, uma caminhada. Ônibus, outro ônibus, um ensaio. Reunião, outro ensaio. Pare, olhe, pense. Penso, logo existo! Penso no que? Penso, ou sou repetidor? Caminho. Altero, diminuo. Penso. Concluo. Mudo de idéia em seguida. Caminho. Paro, mas continuo em movimento: interno, pensamentos. Evolução. Involução. Coisas grandes, pequenas. Saber mensurar. Grande no tamanho, pequena em importância. Grande em extensão, pequena em intensidade. Atos. Ações. Potência: nas teorias do movimento: força x velocidade. Estudo. Treino. Livros. Computadores. Mais arroz, feijão. Calma, respira. Apnéia. Chão. Pés no chão, mãos, corpo. No ar: cabeça, poeira. No peito: músculos. No coração: sangue. No sangue: o vermelho. No vermelho: esquerda. Na esquerda: um opção. Na direita: outra. E a cada lado: novas esquerdas e direitas. Possibilidades. Variáveis. Opções mais ou menos viáveis. Agir. Resolver problemas. Encontrar soluções.

Agressivo

Velocidade da marcha: indefinida.
Tom de voz: agressivo.
Pressa.

Atos revirados, exageros. Mas assim parece pedir a contra-marcha da vida. Contra as vontades, contra a energia. Amarrações impossibilitando os movimentos: esperar a verba, encontrar formas possíveis, tempo.

De alguma forma, por algum motivo, estamos aqui. Quais são estes? Não me parece que estamos à altura de responder. Talvez mais altos, talvez mais baixos, talvez tamanho não seja a medida. Mas estamos. Estar. Parece-me que outro verbo pede o encontro com o anterior: se entregar. Ao que estamos, nos entregamos. Exatamente ao que, não sabemos.

Se entregar, como quem agarrado forte no que deseja, cai no mais profundo abismo. Como quem não sabe, mas intui. Buscar a intensidade. Mas saber conjugá-la com outras intensidades, com outros. Mas estamos todos entregues? Metade do corpo aqui, metade lá. Ora trabalho, ora lazer. A forma de ganhar dinheiro. Ganhar a vida. Me encontro em outro posto: nunca ganhei a vida: sempre fui pegá-la. E ela escapa. As vezes, ironicamente, vem dócil, para depois, fugia, ir adiante, como quem dissesse: “vem! A vida é isso: não é. Siga a busca.” Justamente, ela não é. Nessas quatro letras cabe o mundo, cabem todas as experiências, todos os seres.

Agressividade. É o que nos faz pensar, uma agressão do mundo, o estranho, a dúvida. O tapa na cara que levamos toda vez que olhamos adiante. Mas há de ficarmos fortes, e este tapa, se tornará uma carícia. Mas enquanto isso não chega, é o momento da batalha, a emergência da luta: contra nossas limitações, as da sociedade, as do outro. Agressividade não como violência, mas como ação ofensiva, a postos, adiante. Existe a espera, mas esta se dá em movimento, como quem andando, espera chegar. Andamos, corremos, saltamos, caímos, levantamos, rolamos, suamos, cantamos, dançamos, seguimos: não necessariamente em linha reta, necessariamente com rota definida, mas seguimos.

Laços

Da forma líquida, fugidia da vida contemporânea, restam os laços para nos oferecer segurança e conforto. Um porto, ou uma âncora, um recurso regulador dos fatos, um outro para se ver, para espelhar. Um outro para ver, e para ser visto. Para provir certezas: como estar certo na solidão? Como saber de onde surgem nossos pensamentos, se são produzidos com certificados de bom senso e realismo? Delegar-nos à avaliação de outrem, e neste ver a si, enquanto ser humano, errante, normal, emissor de juízos e opiniões mais ou menos corretos. Já não se casa mais por obrigação, ou se namora por questões de visibilidade ante a sociedade. Os relacionamentos cristalizados por vigência social estão desaparecendo. Eis que insurge outra necessidade: numa sociedade efêmera, se encontra nos relacionamentos a perenidade. Uma forma de contrato: você diz quem eu sou, que eu digo quem você é, e juntos, somos.

O que está em jogo hoje é uma demanda do amor, de sentimento, de paixão, numa época em que a necessidade se faz cruelmente mais intensa. É toda a geração que passou pela liberação do desejo e do prazer, é essa geração cansada de sexo que reinventa o amor como suplemento afetivo ou passional. 1

Há duas grandes linhas, blocos, múltiplas linhas, a que se predispõe esta analise: a dos relacionamentos como um pacto sedutor, uma troca potencializadora, um bocado de terra, para ter o que desterritorializar ante à emergência líquida da vida contemporânea. Noutro bloco: um pedaço de humano à que se agarrar, um foco para dirigir seus olhares e pensamentos, sua atenção e dedicação, suas virtudes e seu lado mais sombrio, seu ser que é e que se oferece ao outro e busca no outro a recíproca.

Num bloco, o encontro, a potência, o grau zero do relacionamento. Longe dos clichês, das predisposições e pré-conceitos: a multiplicidade, o devir. Algo difícil de se produzir numa sociedade que traz os resquícios morais dos mais variados, por uma lado, e a necessidade de apego, dos mais variados, por outro. Aí insurge o segundo bloco. Noutro extremo.

Outras linhas de ação. Recusar a transferência das decisões de um lado ao outro. Recusar a segurança, ao espelho. Recusar ao outro. Recusar à visibilidade. Aceitar a possibilidade de desaparecer, da transparência de si. Buscar no silêncio, na solidão, a fortificação, a auto construção no dia-a-dia. Se trata de um ato de coragem, de aceitação. Entregar-se a incerteza da vida, que não é poética, ou transcendente, mas imanente. Prender a respiração e mergulhar: ou se afoga, ou adapta-se ao meio líquido, como o personagem do filme Waterworld – O segredo das águas.

Não se trata de uma vida de solidão. Mesmo que exista esta possibilidade. Mas é talvez na solidão que se pode se entregar a multiplicidade da vida, tornando-a mais perceptível, aguçando os sentidos, exercitando pensamentos. Depois disso, qualquer relacionamento pode ser potencializador. Pois há em si a potência e a abertura perceptiva e receptiva à potência do outro: quer seja pessoa, objeto, ou acontecimento.

1 Jean Baudrillard. As estratégias Fatais. Rocco: Rio de Janeiro, 1996.

filoSOFIA

Manuel, o de barro, nasceu com um ermo dentro do olho, eu nasci com um defeito de lógica dentro da cabeça, bem lá onde se juntam as palavras. Manuel, por motivo do ermo, não foi um menino peralta. Eu, por motivo de ilógica, não sou bom em obviedades.

Foi Manuel quem me explicou que as palavras possuem no corpo muitas oralidade remontadas e muitas significâncias remontadas. Não sou bom em ouvir essas oralidades. Ao menos não as óbvias. Também não tenho boa memória específica. Mas tenho boa memória inespecífica: lembro que num sucessivo fatoar dos fatos, tenho percebido que, principalmente devido ao dizer dos outros, me dou por conta que a palavra aquela, é a mesma dessa: mesmas letras, formas. Intrigantemente, a mim, nunca foram.

Estou confusando os escritos. Vou aqui esparramar pedaços dum fato desses, que por ter sido em ato ontem, em memória hoje ainda é. É de comum provável conhecimento da maioria o livro O mundo de Sofia. Bom livro por sinal: li ele uma vezes e um quarto. O um quarto foi na cadeira de filosofia. Me apeteceu saber que Sofia é conhecimento. Está palavra é aquela, mas não é mais é ela. Sabendo que o livro é um romance sobre a história da filosofia, me parece um nome adequado. Agora a verificação da minha ilógica: fazem quatro anos que li este livro, já emprestei para meus dois irmão mais novos, agora emprestei para o terceiro mais novo, e mais velho dentre eles, mas mais novo do que eu, que sou o mais velho dos quatro. Ontem, somente ontem, percebi: a Sofia do livro, aquela cujo o nome significa conhecimento, é o sufixo da palavra filosofia. filoSOFIA! Fiquei escabrado!

Nas palavras do meu irmão pude ouvir. Mas somente num segundo momento, quando ele me explicou. Nunca, nesses mais de quatro anos, nas mais de trezentas páginas e um quarto, havia me apercebido disto! Se me falta um parafuso, como a muito desconfio, ele caiu dessa máquina aí de juntar palavras.

No entanto, tanto mal sou em juntar palavras, quanto menos mal sou em rodear com elas. Pois me parece que a palavra é pictórica, imagética, performática. Ao menos na minha cachola. Pois quando leio Sofia, leio a imagem da menina que recebia cartas de um estranho e a lia sob uma sebe, se não me engana a memória falha. Como imageticar a Sofia, menina bonita, correndo por sobre uma folha branca ao encontro de Filo, simpático moço, se unindo num caloroso abraço. Sofiafilo!

A palavra sonha, disse-me uma amiga (acho que foi Bachelard que contou para ela). Da materialidade da palavra em si voam pássaros, dançam bailarinas. Se torcê-la bem, pode escorrer água, vinho, ou até xixi. Se largá-la no chão pode quebrar, ou quicar. Se jogar para cima pode ser um foguete, ou um acrobata. E na queda, se não pegar pode ser um machucado, se pegar, um malabarista.

Sei não, ilógica de nascença pode não ter cura. Mas a lógica com o seu prefixo ló, o mesmo de lóbulo e pão-de-ló, seu meiofixo gi, usado também em gengiva, mais seu sufixo ca, de careca, pode é render um defeito de visão. Visão: palavra formada pelo prefixo vi, nenhum meiofixo, mais o sufixo são, os mesmo usados na nem tanto conhecida prerrogativa: vi, logo são!

Creio que esse defeito é o grande mal da contemporaneidade. Mas poucos percebem aí um defeito. Ao contrário, antes uma qualidade, antes uma necessidade. Há a tendência de se ter bons olhos que funcionam mais ou menos assim: duas bolinhas de vidro, pintadas intra-uterinamente, que contém ao lado de dentro um são pra cada coisa do lado de fora. Desta forma não precisa o ser preocupar-se em demasia com pensamentos: o olho vê, e por um sistema apurado de refração auto-invertida transversalmente, aloja a imagem no seu respectivo são, logo essa individualidade é repassada ao cérebro por um processo de osmose óculo-cerebral. Todo esse processo ocorre, como se pode perceber, num infinitésimo de milésimo de segundo. Esse processo, denominado de visão Lógico-sãosística, é também conhecido pela neurologia como Engrama.

As bolinhas nascem com a cabeça, que vem junto com todos os acessórios: o corpo. Mas esta definição do que é o primordial e o que é secundário, não nasce junto ao nascer, vem depois, dentro deste processo de aquisição dos sãos, que se dá ao longo da vida, arbitrariamente. Mas existem variáveis. As mais comuns são pessoas que tem um problema no mecanismo de refração auto-invertida transversalmente e por isso confundem as coisas. Outras, por influências diversas, adquirem não um são, mas um parece, ou ainda um o que é isso?. Ademais, em casos mais raros, o indivíduo não desenvolve esse mecanismo. Desconfio que seja esse o caso de Manoel, que afirma: tudo o que não invento é falso.

Há também estudos que buscam formas de inverter este processo lógico-sãosístico. Eles se desmembram em dois seguimentos de estudos, um no campo do esquecimento, outro no campo da arte.

Já eu, que não sou cientista, nem lógico, e nem me preocupo tanto com esse meu defeito de nascença, estou por aí a ser. Mas que coisa sou? Pergunte a alguém com a visão lógico-sãosística, pois eu estarei ocupado, encontrando Manuel no meio das palavras, escovando-as, trangalhadanças que sou, feliz de boca larga e dente de feijão.

Textinho acalma-mãe

Insiste em me dizer que quando eu tiver um filho irei entender. Como que com isso me despe, fico nu ante a impossibilidade de resposta, como sou filho, e não pai, sou despido de todos os argumentos. Ou quem sabe me dizes isso para se justificar, como se justificando ante a possibilidade de ser preocupada em excesso, ou invasiva, ou exagerada. Enfim, mãe.
Me dizes que se preocupa, que não sabe se os caminhos por onde ando me levarão para algum lugar. Sem talvez se perguntar se eu quero chegar em algum lugar. Ainda mais quando esse lugar é: estabilidade, aposentadoria, salário fixo, um carro. Não quero nenhum desses lugares. Meus lugares são transitórios: cada passo é um lugar. Tenho então uma paisagem, como uma bela pintura: tons entre as lágrimas e os sorrisos, timbres feitos de experiências.
Sim, sou um artista. E você se pergunta como, se não há na família outro, e minha educação tampouco apontou para este lado. Como cheguei neste lugar? Não posso dizer que escolhi ser artista, é mais certo que ser artista escolheu ser eu. Como é certo que uso com receio o me dizer artista, como é certo que ao me dedicar a isto, de alguma forma o sou, como é certo que nada não posso ser. Um caminho: onde estudo, pesquiso, treino, aprendo a cada dia. Dias instáveis, com salários pairantes, à passos de All Star, pedalas, bancos de ônibus. Sem esquecer das calças de doze reais comparadas na Voluntários e cortadas logo abaixo do joelho. Sei que não me criou para ser assim. Sei.
Me diz que posso estar usando pouco a minha inteligência. Fico a pensar o que seria esta inteligência, e de que forma “aplicá-la” melhor. Até encontrar esta forma, uso ela nos pensares sobre como nos relacionamos com o mundo, com as pessoas, consigo, de que forma se apropriaram de mim os vícios de comportamento, ou eu deles, como fazer deste corpo outro, outros gestos, movimentos, fazendo deles algo que seja potencializador de pensamentos em outros, que instigue o público, “alunos”, colegas.
Usar a inteligência medicando? Legislando? Construindo prédios? Podia. Mas sou artista. Não menos que nenhum deles. Diferente. Menos e mais no que cada um se propõe a fazer. Não posso medicar, mas posso provocar sorrisos. Não posso criar leis, mas posso estimular sensações. Não posso construir prédios, mas posso destruir verdades, posso construir buracos, onde alguém pode se perder, para daí talvez se encontrar, diferente. E antes que se esqueça: sou artista.
É certo que mentiras repetidas muitas vezes, no fim das contas são tomadas por verdades. Como uma palavra que se pronuncia tão rápido que vira outra coisa. E de tanto repetirem da importância do ter, da estabilidade financeira, do status de determinada colocação social, os mais desapercebidos podem acreditar que isso é o essencial. Podem esquecer que se, por traz desses quesitos que giram em torno do dinheiro, não houverem experiências e sentimentos dos mais variados, e se esses não forem recebidos e vividos, mas sim engolidos a contra-gosto à mando do tempo que é empurrado pelo ponteiro do relógio, não há status ou dinheiro que te faça feliz. E como feliz não me diz muito, acrescento o conceito de Alegria de Espinosa, como potencialização do ser (como vê, até sou inteligente, mas talvez de uma forma menos convencional).
E pra terminar, vou lembrar a frase com a qual iniciei o meu discurso de orador, no momento da minha formatura no curso de Educação Física, esse momento em que você ficou tão feliz, mesmo sabendo não ser esta uma profissão tão promissora. Mal sabia você que além de educador físico, eu optaria por ser uma artista. Caiu o mundo. Disse Guimarães Rosa, mais ou menos assim: o mais importante não é nem a partida, nem a chegada, e sim, a travessia.
Pois estou em plena travessia: ora caminhando, ora correndo, ora saltando, ora malabariando, ora dançando, ora escrevendo, ora chorando, ora dormindo, ora ensinado, ora rindo, ora me pendurando, vivendo… E a chegada? Quem chega é entregador de pizza, carteiro, corredor de maratona, bebê, ou dor de cabeça, mas eu sou é artista.
Fim do texto. Mas antes que eu me esqueça: Primeiro: o quanto se recebe, financeiramente, está, ao meu ver, mais relacionado com a dedicação e a atenção na sua profissão, do que com a profissão em si. E antes que algum leitor não-minha-mãe pense que sou um pé rapado, digo que não, e deve aqui ser o suficiente. Segundo: da minha colocação como filho-que-não-é-pai posso dizer que de alguma forma entendo sua preocupação de mãe. Como todos os filhos. E como eu. Mas e se eu não me preocupo comigo? É certo eu me preocupar com a preocupação que você tem comigo? Uma boa pergunta para todos os pais. Terceiro: obrigado por ser minha mãe nesse vinte e alguns anos, imagino que não tenha sido fácil. Mas não se estresse muito, pois outros anos virão.

Pedacinhos de ouro?

Se o momento não é dos mais frutíferos em termos de práticas de escrita, gosto de pensar que é porque estou a plantar, e a colheita será farta. Um pequeno exagero, pois certamente não é nessa lógica de causa e efeito, somando-se migalhas, para fazer um pão, que as coisas do mundo são feitas. De qualquer forma há de se considerar que a escrita é irrealizável sem a leitura. Que seja, no mínimo, no reler-se. Mas bons textos são fruto do tempo. Tempo como um espaço preenchido com leituras e pensamentos e escrituras. Espaços refeitos passo-a-passo, no tornar-se tempo. No espaço-tempo onde me encontro agora (este agora tempo-escrita, deste fazer, que logo pós-feito é texto, texto que se faz outro no momento em que é lido, embora seja o mesmo enquanto agrupamento de símbolos, mas que pode sugerir a quem lê, que o que eu lia no agora, que agora não mais agora é, já não estará mais sendo lido por mim, mas tão pouco isso importa), está co-habitado por Baudrillard, Ferreira Gullar, Manuel de Barros e Saramago. Deste último trago boas sensações minhas do encontro com um texto. De um fragmento dele. Corro o risco delas não irem junto com o fragmento que envio logo abaixo, ou por soltura no momento do transporte, ou por incompatibilidade sensitiva entre diferentes leitores. Mas o que posso eu com as intempéries da vida? Mesmo que: querer é poder! Como também quem planta colhe…

Autoritárias, paralisadoras, circulares, às vezes elípticas, as frases de efeito, também jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, são uma praga maligna, das piores que têm assolado o mundo. Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais dificultosa operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar estrangulamentos, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida.#

# Saramago. A Caverna. Editora Companhia das letras.