Ponto, linhas e paisagens.

As vezes acredito mais nos processos coletivos, as vezes menos. Na semana passada transitei entre estes dois pólos. Registro aqui alguns pontos que formaram as linhas deste pensamento, projetados nestas linhas de escritas. O ponto de partida, da escrita, ocorreu o dia 05 de julho, após uma reunião no IEACen… o ponto de partida, dos pensamentos, no dia anterior.

No Desdobramentos 1
Parte final da 1ª edição do Desdobramentos – projeto coletivo

Dia 04 de julho, Casa Cultural Tony Petzhold.

Começo a condução de mais um encontro do NECITRA, com a rotina de aquecimento/condicionamento físico. Percebo que o grupo, inclusive eu, está disperso e cansado. Interrompi então a rotina no final da primeira de duas partes, para propor um jogo.

Uma proposta bem aberta, que de início provocou um certa inquietação (e questionamentos) pela falta de especificidade desta proposta… O jogo: entrar em cena quando quiser, sair quando quiser. Propor uma ação, criar um contexto, um jogo, o que quiser, como quiser. Outros entram nesta cena, compartilham, complementam, contrapõem, mudam, repetem, como quiser…

E o jogo se fez, e a conversa, logo após, se iniciou.

Após as primeiras falas, eu abordei as questões levantadas da seguinte forma: “Ouvi em algum lugar o seguinte dizer: quer conhecer alguém de verdade? Coloca ele para jogar…”

Se falou, durante a conversa, da falta de convergência no jogo, da falta de atenção nas propostas. Questionei então: não é isso que tende a acontecer nos processos coletivos?

Se comentou então de, às vezes, mesmo compartilhando a cena, se sentir só. E eu pergunto agora, e lá: mas ficar só estando junto é estar só? A diferenças que se manifestam nos caminhos individuais dentro dos processos coletivos acabam por suscitar esta sensação de solidão. Acredito. Mas se diferentes, estamos juntos, convergindo algo sob os mesmos procedimentos, então não estamos sós. E os procedimentos são os meios com os quais convergimos este algo: a criação.

Somos criadores, compartilhando o mesmo espaço (o mesmo canto). Somos do circo, da dança, do teatro, das artes visuais. Somos artistas e produtores que acreditam – às vezes mais, às vezes menos – que a colaboração nos aprimora em nosso fazer, que o compartilhamento dos processos nos deixa mais conscientes, se vendo no olhar do outro. Que assim nos potencializamos. Acreditamos, às vezes mais, às vezes menos.

E a conversa se deu, do jogo do jogo, para o jogo do dia-a- dia. Para a importância do estado presente no jogo, para o estado presente no treino, no ensaio, na autonomia para ser o proponente, o diretor,  o coreógrafo de seus próprios atos.

E os pontos de vista compuseram linhas convergentes e divergentes. Mas as linhas são abstrações, composições de pontos sobre pontos. E o NECITRA é a convergência de linhas compostas por estes pontos que, transversalmente, se cruzam: uma paisagem complexa que se sustenta, enquanto se sustentam os proponentes destes pontos.

E assim foi o dia 04 de julho, uma composição de pontos num canto, onde o núcleo amadureceu mais um pouco, e cada um de nós, na aceitação da diferença, estando sós estando juntos, sendo um ponto que monta uma linha, uma linha que é um núcleo…

IEACen
IEACen, Casa de Cultura Mário Quintana

Dia 05 de julho, Instituto Estadual de Artes Cênicas, Casa de Cultura Mario Quintana.

Reunião para tratar de evento de dança a ser realizado no 2º semestre. Proposição feita pelo IEACen, para ser discutida e reformulada em conjunto com as entidades: ASGADAN, SATED, Grupo Experimental de Dança de Porto Alegre e cursos de dança das universidades.  Novamente entra em cena a questão do coletivo. Neste caso, a partir de coletivos instituídos, de representatividades do setor.

Hoje, dia 08 de julho, tento finalizar o texto iniciado no dia 05, após aquela reunião. Nas três horas que se passaram, permaneci no escritório, pensando, e me pus a escrever, para tentar organizar as ideias, unir os pontos. Não consegui tal êxito, nem lá, nem cá. Mas sei que, naquele dia, tal como no dia anterior – em processos coletivos bem distintos – fui atravessado por um satisfação em propor, vivenciar e compartilhar esses processos. Sei que, naqueles momentos, os pontos de vista convergiram, na maioria das vezes, em linhas de pensamento, na criação de projetos colaborativos, na organização de gestões coletivas.

E para o ponto final, deixo um ditado oriental, que li na parede de um banheiro, em um restaurante, em 2011, Caxias do Sul:

“Nenhum de nós é mais inteligente do que todos nós”.

Mas, complemento: só existirá inteligência coletiva quando houver uma convergência mínima nos pensamentos, nas ações, nas produções. Já que, pontos dispersos podem não formar nada, podem não formar uma paisagem, podem ser somente pontos. Pontos que formem linhas. Linhas que formem contornos, direções… Aí entraríamos nos projetos, nas consequências… Aí estou refazendo a paisagem deste blog… Aí estou devaneando… Aí paro por aqui. Boa noite. Ponto. Agora final mesmo. Ponto.

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Consequente ou consequência?

Céu

Tenho pensado e escrito sobre questões e questionamentos que aqui vou configurar sobre essa pergunta: eu sou consequente ou consequência? Eu, você, e os demais…

Já escrevi aqui da importância que invoco aos projetos, bem como da relação da vida com o andar, com os processos, com a permanência.

Então, sou consequente ou consequência neste viver? Considerando todo processo entre o nascimento e a morte, considerando as escolhas dentro de um sistema pré-determinado, como me relaciono com isso, como me posiciono frente a vida, a sociedade, às pessoas.

Quero então resumir, não de forma inconsequente (espero), mas delimitando palavras-conceitos: consequente e consequência.

Consequente: pessoa que decide ser decidido. Individuo que escolhe ser individual, único, que define escolhas, que projeta seu futuro. Sujeito que está sujeito as curvas da vida, aos tropeços, mas está e é sujeito por escolha. Mede, decide, opta, e arca com as consequências. Sofre por escolhas, consciente, íntegro.

Consequência: sujeito que está alheio aos processos (seus e do todo), que é levado pelos fatos, que roda na esteira do sistema, e é consequência deste. Indivíduo que se assemelha aos demais, um indivíduo que é copia de um modelo, ou tenta ser, ou tentam que ele seja. Sofre por que aconteceu, por que a vida quis, por que não tem como ser diferente, porque vê a vida assim, porque  vê o que é mostrado, não o que escolhe ver.

Esta relação está colocada na física quântica sobre os conceitos de causação ascendente e causação descendente. No primeiro caso, somos causados pelo meio, pela matéria, pela sociedade, poderíamos dizer  que somos um produto. No segundo, somos causadores do meio, somos a causa, projetamos o mundo, projetamos no mundo, criamos, somos produtores. No primeiro, somos consequência, no segundo, somos o consequente.

Provavelmente você, ou alguém, pensou ou disse: não é tão simples assim. Não, não é. Mas como me apetece dizer: para fazer, é só fazer. Para começar, é só começar.

Simples assim, só que não.

Estar ciente, presente, é o começo.

O vencedor da floricultura e os projetos

Dalai Lama

 

Hoje pelo meio dia, no meu trânsito entre a Casa de Cultura Mário Quintana e a Casa Cultural Tony Petzhold, às pressas, como quase sempre, leio em um pequeno banner com um colorido exagerado, uma frase sobre vencedores e perdedores. Minha primeira reação foi sorrir, antes mesmo de me apegar aos detalhes do texto.

Um sorriso um tanto melancólico, resultado do contraponto entre o discurso do sucesso colado na frágil banca de floricultura, no canteiro central da rua, e a realidade no entorno dessa – pernas velozes, costas curvadas, cigarros acesos, celulares, olhares distantes. Sucesso? Ele está pelas calçadas da Otávio Rocha, ou nos prédios da Carlos Gomes?

Pensamentos que passaram rápido, quando retomei minha atenção para o texto:

O perdedor nunca tenta

O fracassado nunca termina

O vencedor nunca desiste

Me senti leviano e injusto. Não era o texto uma afirmação do sucesso, mas sim da perseverança. E existem poucas coisas na vida que eu prezo tanto quanto a perseverança: o vencedor é aquele que nunca desiste. É esse o sucesso da vida, sempre continuar, sempre. Talvez nem sempre com a mesma velocidade, certamente com variações de ânimo, de confiança, muita vezes com medo, mas sempre andar, sempre ir, repetir, refazer, recriar.

O vencedor é aquele que se mantém no processo. E o processo pressupõe um projeto, pois do contrário, seguirá o processo do discurso do sucesso: trabalhar a custo de tudo, da saúde, da vida – perder a saúde para ganhar dinheiro e perder o dinheiro para ganhar saúde – a atitude dos seres humanos que mais intriga Dalai Lama.

E qual é o seu projeto?