Da forma líquida, fugidia da vida contemporânea, restam os laços para nos oferecer segurança e conforto. Um porto, ou uma âncora, um recurso regulador dos fatos, um outro para se ver, para espelhar. Um outro para ver, e para ser visto. Para provir certezas: como estar certo na solidão? Como saber de onde surgem nossos pensamentos, se são produzidos com certificados de bom senso e realismo? Delegar-nos à avaliação de outrem, e neste ver a si, enquanto ser humano, errante, normal, emissor de juízos e opiniões mais ou menos corretos. Já não se casa mais por obrigação, ou se namora por questões de visibilidade ante a sociedade. Os relacionamentos cristalizados por vigência social estão desaparecendo. Eis que insurge outra necessidade: numa sociedade efêmera, se encontra nos relacionamentos a perenidade. Uma forma de contrato: você diz quem eu sou, que eu digo quem você é, e juntos, somos.
O que está em jogo hoje é uma demanda do amor, de sentimento, de paixão, numa época em que a necessidade se faz cruelmente mais intensa. É toda a geração que passou pela liberação do desejo e do prazer, é essa geração cansada de sexo que reinventa o amor como suplemento afetivo ou passional. 1
Há duas grandes linhas, blocos, múltiplas linhas, a que se predispõe esta analise: a dos relacionamentos como um pacto sedutor, uma troca potencializadora, um bocado de terra, para ter o que desterritorializar ante à emergência líquida da vida contemporânea. Noutro bloco: um pedaço de humano à que se agarrar, um foco para dirigir seus olhares e pensamentos, sua atenção e dedicação, suas virtudes e seu lado mais sombrio, seu ser que é e que se oferece ao outro e busca no outro a recíproca.
Num bloco, o encontro, a potência, o grau zero do relacionamento. Longe dos clichês, das predisposições e pré-conceitos: a multiplicidade, o devir. Algo difícil de se produzir numa sociedade que traz os resquícios morais dos mais variados, por uma lado, e a necessidade de apego, dos mais variados, por outro. Aí insurge o segundo bloco. Noutro extremo.
Outras linhas de ação. Recusar a transferência das decisões de um lado ao outro. Recusar a segurança, ao espelho. Recusar ao outro. Recusar à visibilidade. Aceitar a possibilidade de desaparecer, da transparência de si. Buscar no silêncio, na solidão, a fortificação, a auto construção no dia-a-dia. Se trata de um ato de coragem, de aceitação. Entregar-se a incerteza da vida, que não é poética, ou transcendente, mas imanente. Prender a respiração e mergulhar: ou se afoga, ou adapta-se ao meio líquido, como o personagem do filme Waterworld – O segredo das águas.
Não se trata de uma vida de solidão. Mesmo que exista esta possibilidade. Mas é talvez na solidão que se pode se entregar a multiplicidade da vida, tornando-a mais perceptível, aguçando os sentidos, exercitando pensamentos. Depois disso, qualquer relacionamento pode ser potencializador. Pois há em si a potência e a abertura perceptiva e receptiva à potência do outro: quer seja pessoa, objeto, ou acontecimento.
1 Jean Baudrillard. As estratégias Fatais. Rocco: Rio de Janeiro, 1996.