Desculpas pela mentira

Desculpe-me pela indelicadeza. Escrevi tal texto como uma necessidade, não por desejo de afirmar alguma verdade. Pois justamente isso que me acomete: o que é a verdade? Ela existe? Se me dizes que é necessário que se tenha um conhecimento de causa, digo que o tenho. E esse conhecimento de causa me diz que nunca estou certo, que tudo muda o tempo todo. A começar por nossos sentidos, que não são perfeitos. Passando pelas nossas experiências, que dão cor e retoques à realidade. Seguindo por nosso próprio descaso, em não pensar em pensar, e achar que quando decide está pensando. Se é que decide algo, ou faz por mera repetição, treinamento.
Pergunto-lhe: se minha hipótese não for verdade? pois justamente isso diz ela: que a verdade não existe. Paradoxal situação. Se essa realidade em que vivemos existe, mas não como a percebemos: nada é verdade. Tudo é parte de algo maior, do qual não temos controle. Então é necessário despensar esta realidade, em prol de uma outra, suspensa. Sempre suspensa, a media que nunca teremos certezas. Pensar uma outra que talvez nem mereça esse nome de “realidade”. É o caso de achar outra palavra. Ou se contentar com a negação dela, saber que ela não existe, mas outro algo sim. Negar esta verdade, que é, a mentira. Mentira é a negação da verdade. É tudo o que tenho.
Simplificação demais? Mas como explicar se faço parte deste todo, e nem a mim conheço. Pois nisso tens a mais completa razão.

Arrogância

Li este texto e me senti ofendido. Como tal sujeito, independente de quem seja, pode afirmar que tudo isso é uma mentira? Quem é este que possui tamanha arrogância? Quem lhe deu o poder, o conhecimento, para isso afirmar? Quando falamos, temos que considerar que acessaremos outros com nossas palavras, quando escrevemos também. Não posso ficar alheio a um descaso como este. É importante que se meça as palavras. Que saiba realmente o que está dizendo ou escrevendo. É indispensável que se tenha conhecimento de causa. E você, meu caro, certamente não conhece tudo. Pois também é parte desse todo. E posso ver que nem a si próprio conhece.

Mentiras

Meus pés seguem firmes.
Somam-se à seus passos sentimentos inominados.
E assim são por minha opção.
Firmes e pesados, pela necessidade que sinto de caminhar.
Não que o corpo tenha está firmeza.
Muitas vezes, ao contrário, sinto algo que me prende por dentro.
Me espreme.
E ao mesmo tempo me movimenta, em diversas direções, mesmo que a caminhada tenha apenas um sentido a cada momento.
Outro depois.
Nem sempre estou indo na minha direção, por isso é preciso mudar.
Penso que deste sentimento poderia me esconder.
Ou tentar ignorá-lo.
É o que muitos fazem.
Sinto.
Me obrigo a sentir.
E por momentos paro num canto.
Ouço as direções, vejo.
Giro em torno de mim mesmo.
Sigo a caminhar.
Outras vezes me xingo, me destrato.
Sei que de mim muito não sou eu.
Sei que eu quero ser outro.
Ou apenas desser quem sou.
Abrir espaço para o que não sei.
Outras vezes me censuro: saia de si! muito acontece ao seu redor, será capaz de ficar assim, apenas consigo?
O eu que cresceu, censurando o eu que cá está.
E já estava antes de crescer.
E já sentia antes de assim ser.
E isso que sinto, que me prende, também me livra da realidade.
Da calmaria.
Das ofertas de uma macia poltrona, cerveja no fim do dia e um trabalho bem remunerado.
Dia após dia, até que a morte me separe.
E me esqueçam!
Do perigo de esquecer que há muito do que não sei, e devo girar em torno das interrogações, para caminhar por algo que venha de mim.
Há sempre o perigo de caminhar por automatização, por repetição, por procuração, está.
Todo lugar, todo momento.
Em todo e qualquer passo onde se sinta certo o bastante, forte o suficiente, para esquecer que tudo isso é uma mentira.

O nove saiu

Uma moça graciosa me contou um fato que mal pude acreditar. Disse-me ela que roubaram o número da casa de seus avós. Como assim?! Contou ela que seu velhinho avô, fez um nove de papel para substituir o nove roubado.
Ela, indignada, exclamou: porque não deixam o número dos velhinhos em paz?
Boa pergunta.
Curioso, fiquei a pensar o que poderia ter acontecido com o tal nove. Será que era um material valioso? Pouco provável. Quem colocaria um nove de ouro para identificar sua residência? Talvez alguém morasse na casa número nove e, talvez por falta de dinheiro, pegou “emprestado” o nove do avô da moça. Talvez.
Fiquei triste pelos velhinhos.
Mas em seguida, fiquei feliz pelo nove. Sim, encontrei por aí a seguinte hipótese: levaram o nove para conhecer o mundo!
Pois, se coloque no lugar do nove: num belo dia você é feito, um bonito nove, ou um nove qualquer, não importa, você tem apenas uma função: numerar. Acabou-se aí. Pelo resto dos seus dias ficará preso à uma parede a numerar. Somente o carteiro lhe dará uma breve atenção, ou uma nova visita.
Imaginem que uma boa alma, ao perceber o triste nove, levou-o para passear. Como Amelie Poulain, que entregou o anão de jardim de seu pai a uma amiga aeromoça levá-lo para viajar, para ele conhecer o mundo para além das fronteiras de seu jardim.
Imagino a felicidade do nove. Consigo vê-lo conhecendo outros números, talvez até o abecedário. Tão grande é o mundo, porque ficar num só lugar? Penso como ele deve ter ficado alegre ao ver seu irmão gêmeo, grudado na camiseta da seleção brasileira, junto com o Ronaldo fazendo um gol na copa do mundo. Que orgulho!
E o nove conheceu o mundo, as coisas do mundo. Percebeu como somos belos, ou nem tanto, mas podemos ser. Podemos ser o nove que quisermos. Mas e todos os noves que estão presos, colados pelas paredes? Ele ficou um pouco triste. Mas logo desentristeceu, pois entendeu que alegre ou triste, ao menos não está mais indiferente, está sentindo.
Fiquei feliz pelo nove. Também fiquei feliz pelo papel, que deixou de ser papel e passou a ser número. Mas não consegui mais imaginar pra onde foi o nove, o que fez depois? Não sei. Pode até ter ficado um pouco confuso com o mundo que agora conhece.
Acho que pode ter doído sair da parede: confusão, incerteza, o desconhecido que assusta. Mas também o novo, o belo, o frio na barriga, as novas experiência, os sorrisos, os choros, a vida. O nove agora sabe. Só sabe quem se permite um dia não saber, e sair.

É preciso destreinar o olhar

Segunda: manhã.
Deito-me sobre a cama: janela aberta.
Na rua: chuva.
Uma árvore: magricela, muitos finos galhos, cada galho com mais galhos, mais finos, e neles, pequenas folhas.
Meu olhar, meu pensamento: tristes estão as folhas, direcionadas ao chão, curvadas.
Talvez pelo dia cinza.
Meu pensamento, repensando: olhar viciado, porque triste estariam? Curvado, logo triste?
É preciso destreinar o olhar!
Descobri que as folhas se curvam não em tristeza, mas em reverência: agradecem a chuva, se curvam para que ela chegue, para que ela passe, para estar com ela.
Vi o vento: vi como as folhas dançam. Elas recebem o vento!
Belas lindas folhas, que recebem, que trocam, que aceitam.
Onde começa a chuva, termina a folha, inicia o vento?
Não há que se pensar: folha, vento, chuva não pensam: elas são.
Pobre de quem teima questionar, analisar, resistir.
O que vejo da janela: harmonia.
Há que se destreinar o olhar!

Tudo tem um começo. Ou não?!

Demorei-me para a primeira postagem. Talvez porque a primeira é sempre a primeira. As outras serão não menos importantes, ou mais interessantes, mas jamais serão a primeira.
Decidi então dar a esta postagem o papel de manual de instrução. Sendo assim, a primeira questão a ser entendida é: quem dá o que e para quem? Certamente, esta é uma decisão bem pessoal. Trocadilhos à parte, desejo questionar a minha colocação como autor, criador do blog e desta postagem. Começando do início, para entender a idéia do blog (para ambos entendermos, você e eu). Como se forma este discurso, esta escritura? Questionamento feito. Usarei o recurso de auxílio à lista (de livros e textos referência) para esmiuçar esta questão, dar a ela formas mais tangíveis.
Cito então Foucault, na sua aula inaugural no Collège de France, em 2 de dezembro de 1970: gostaria de perceber que no momento de falar uma voz sem nome me precedia há muito tempo: bastaria, então, que eu encadeasse, prosseguisse a frase, me alojasse, sem ser percebido, em seus interstícios.[…] Não haveria, portanto, começo; e em vez de ser aquele de quem parte o discurso, eu seria, antes, ao acaso de seu desenrolar, uma estreita lacuna. O ponto de seu desaparecimento possível. §
Uma tendência das postagens aqui é de que tenham, com alguma freqüência, e por variados motivos, citações. Digo os motivos que sei agora: nem sempre terei a capacidade de explicar o que pretendo sem este auxílio, ou citarei por ter o prazer de reler e citar, me excitar, e trazer para cá, o que está em mim e veio de lá, de algum lugar.
E está aí o segredo desta idéia de blog (tiro no pé, não se deve contar os segredos, ainda mais na internet, mas o farei com cautela): é o que vem de lá, ou dali, quiça está aqui, ou do lado de lá. Pode estar em cima do muro, ou do arame. Pode estar numa bolinha, numa poesia, música, ou nas páginas de um livro. Quem sabe nas palavras de um amigo, ou de uma moça bonita. Num quadro, numa roda, num circo. No passo, na dança. Num tropeço, ou num pássaro. Sabe-se lá onde estará, mas sabe-se que circunda por aí.
E o que circunda? Muita coisa. Mas para o blog é o que faço, vejo, ouço, é o que me toca. O que eu consigo perceber. Ou o que se faz perceber. Pois talvez seja maior do que eu: não necessariamente há está hegemonia minha em relação ao que circunda: seja este outro um indivíduo, ou um objeto, ou experiência, ou outro outro. Mas há de tocar meu corpo. Há de transpassá-lo. Movê-lo. Meu corpo. Os corpos.
É o corpo em devir de Deleuze: corpo como poder de afetar e ser afetado.© O corpo de Barthes, que é afetado pelo prazer do texto que é esse momento em que meu corpo vai seguir sua próprias idéias- pois meu corpo não tem as mesmas idéias que eu.¨ Um corpo que em Gil é paradoxal, que cria uma relação com o espaço ao seu redor, tão íntima, como as que tem consigo: um espaço do corpo.ª
O corpo que é sujeito numa sociedade, onde é treinado para ser produtivo, enquanto dócil. Quanto mais homogêneo, mais fácil pode ser asujeitado, submisso, manipulado. « Como escapar desse corpo?
Nesse mundo onde tudo vem da troca impossível. A incerteza do mundo é que ele não tem equivalente em parte alguma e que ele não se troca com coisa alguma. A incerteza do pensamento é que ele não se troca nem com a verdade nem com a realidade (Baudrillard).·
Por isso a arte, a poesia. Disse Borges: em poesia o sentimento basta, imagino. Se o sentimento nos invade, isso há de ser suficiente.µ
Disse Pessoa: Bastar-nos-ia sentir com clareza a vida
E nem repararmos para que há sentidos…
Å
Digo eu: de tudo o que está aí, no mundo, o que? Jaz aqui um espaço potência. Muito pode acontecer, ou nada. Aqui está um espaço para o que circunda, e para quem circundar. Porém, para tanto, é preciso entrar na dança, mesmo que não se saiba dançar (mas digo: isso é o que fizeram você pensar, todos sabemos dançar!).
§ A ordem do discurso. Michel Foucault. Edições Loyola:2007. p 5.
© Não sei. Escrevi na porta do meu guarda-roupa. Mas provavelmente Deleuze e Guattari com um dos Mil platôs. Da editora 34.
¨ O prazer do texto. Roland Barthes. Editora Perspectiva: 1987. p 26.
ª Movimento Total: o corpo e a dança. José Gil. Editora Iluminuras: 2005. p.47.
« Foucault 80 anos. Autêntica Editora: 2006. p.56.
· A troca impossível. Jean Baudrillard. Editora Nova Fronteira:2002. p. 9.
µ Esse ofício do verso. Jorge Luís Borges. Companhia das letras: 2007. p. 111.
Å Poesia completa de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. Companhia de bolso: 2005. p. 67.

Caso não conheça os citados, caso queira, salve salve Wikipédia:
Michel Foucault: http://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_Foucault
Gilles Deleuze: http://pt.wikipedia.org/wiki/Gilles_Deleuze
Roland Barthes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Roland_Barthes
José Gil: http://pt.wikipedia.org/wiki/José_Gil
Jean Baudrillard: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_Baudrillard
Jorge Luiz Borges: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_Luiz_Borges
Fernando Pessoa: http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa